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Culinária Pelo Mundo Moçambique

Culinária moçambicana

Culinária moçambicana.

Aqui, comer é viver!

“É vitalício: comer a Vida deitando-a entontecida sobre o linho do idioma”, já disse Mia Couto, biólogo, poeta e escritor moçambicano

Moçambique é um país banhado pelo oceano Índico, cheio de sabores e cheiros das especiarias vindas de Goa na Índia, de Portugal e das arábias, transformando a arte de cozinhar em um banquete de experimentos de sensações e perfumes. Ao chegar nessas terras, deparei-me com algumas iguarias populares que todo o moçambicano aprecia: badjias, matapas, mafura, mboa… Pára, pára, pára… Nunca irei decorar cada uma…!

A influência indiana e goesa foi importante nos hábitos alimentares cotidianos do moçambicano, como as chamussas, chacuti, achár, piri-piri (a pimenta malagueta, como eles chamam por aqui).

Matapa com xima, galinha à cafreal, camarões a nacional, frango zambeziano… Aiaiaiaiai…. O que é isso?

A xima é uma farinha de milho bem fininha e branca à qual se adiciona água para transformar numa espécie de polenta branca que acompanhará os pratos “molhados” como a matapa. Nesta, são usadas as folhas de mandioca, resultando num cozido permeado pelo perfume do coco, aromas de especiarias e textura de amendoim. Folhas de couve são cortadas finas e unidas ao camarão, sempre com adição do leite de coco, para resultar num dos pratos que mais aprecio: macofo, também conhecido como macouve.

No livro “Comedoria Popular: receitas, Pernambuco e Moçambique” a autora Ana Cláudia Frazão fez uma pesquisa in loco aqui em Moçambique e mostra com esmero receita de matapa com caranguejo, frango zambeziano ou frango zambeze, parecido com o nosso famoso galeto assado, porém ricamente temperado com leite, suco de limão e leite de coco.

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Aqui a arte de preparar frutos do mar é um caso a parte: quase todos os camarões levam muito alho, limão e são na maioria das vezes assados ao forno, por vezes com ervas por cima. Tanto os pequenos quanto os gigantes camarões tigre, que são particulares da costa moçambicana, não podem faltar na mesa típica deste país “engordativo”.

Da mandioca se aproveita tudo: usa-se as folhas para a mapata, a polpa para a xiguinha (ensopado feito com amendoim e frango) e as indústrias locais agora apostam na cerveja de mandioca produzida aqui. O uso da mandioca é bem significativo na dieta popular moçambicana pelo baixo custo e bom valor nutricional, e ela é consumida em receitas cozidas ou mesmo crua.

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Os derivados da mandioca são também nossos companheiros por aqui. É o exemplo da farinha, que é usada para engrossar molhos, doces, papas…

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O capítulo “feijão” chama muito minha atenção e meu apetite… Ahhh os feijões… Sou assumidamente apaixonada por feijões. Aqui conheci o vermelho, o manteiga e o inhemba – deste último resulta a mucapata, que é uma receita desse feijão bem cozido em fogo brando e temperado com alho e leite de coco, resultando num purê aveludado e neutro perfeito para acompanhamento de aves, frutos do mar e carnes.

Sempre frescos e tenros, esses feijões bem temperados com coentros, como fazem por aqui, não precisam de carnes nem de gordura para explodirem de sabor ao bailarem na boca de quem dele desfruta.

A fusão de aromas aqui se dá através do tempo, permeada pelas influências lusa e oriental. O perfume do curry, da pimenta nos petiscos, das famosas samosas ou xamusas (típico salgadinho indiano recheado em forma de triângulo que nos lembra um pastel), dos rissois ou rissoles nos dão a certeza dessa mistura de povos, de aceitação, de convivência pacífica entre as gastronomias de cada canto.

Em especial queria destacar o simples frango assado: o daqui é simplesmente de comer ajoelhado, por ser preparado com muito sumo de limão, por vezes leite de coco e/ou piri-piri, resultando num crocante, aromático , tenro e simples “franguinho assado”.

Aqui se encontra Mfura, óleo de palma (quase um dendê), que tanto pode ser usado até em preparo de feijão, adicionado com côco e coentro como em ensopados e frutos do mar…

Mar? Frutos do Mar? – “Vocês estão a brincare comigo, pá…! Dos chocos, anéis de lulas, polvos a lagareiro, camarão alhinho, lagostas de profundidade até chegar no chefe da mais alta corte gastronômica moçambicana que é o Sr. venerando camarão tigre, estes não podem faltar a nenhuma festa, jantar de cerimônias, eventos importantes; eles deixam claro à mesa que ali está se falando “a sério” na hora de degustar o que Moçambique tem de melhor.

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Os ensopados ou guisados aqui são conhecidos como “caril” (cozido com temperos a base de curry), que pode ser de frango, de peixe, de folhas e representam uma preferência nacional, logicamente acompanhados de xima, arroz branquinho ou batatas fritas.

Adoro as castanhas e amendoins locais, seja como aperitivos ou nas sobremesas feitas com eles, que digo de passagem, não são poucas: colchão de noiva, baba de camelo, doce de mandioca com amendoim, e por ai vão… Só fico triste por pouco observar subprodutos da polpa do cajueiro, como sucos e doces; aqui o maior valor vai para a castanha e pouco vejo receitas oferecidas com o sumo do caju.

Terminando esse texto, olho para o relógio e vejo as horas e percebo que se aproxima o almoço, preciso terminar logo porque hoje pedi para fazer caril de quiabos com camarões nacionais acompanhados de feijão manteiga e frango à zambeziana… Hummmm, o apetite aumentou, e com ele a certeza de que a luta continua – desta vez, contra a balança.

Ficou com fome? Esqueci alguma receita? Não expliquei bem o que é badjia?

Venham aqui conhecer essas maravilhas da culinária moçambicana, quem sabe debaixo de uma árvore ou apreciando a paisagem do Índico. Aqui nosso mestre nos ensina:

“Cozinhar é o mais privado e arriscado ato.

No alimento se coloca ternura ou ódio.

Na panela se verte tempero ou veneno.

Cozinhar não é serviço.

Cozinhar é um modo de amar os outros”. Mia Couto

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15 comentários

Erika Martins Carneiro Julho 10, 2015 at 3:35 pm

Adorei, Marcela! O seu texto me deixou com água na boca e louca para conhecer Moçambique!

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Marcela Julho 14, 2015 at 7:18 am

Muito obrigada, Erika!!!! <3

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Cristiane Leme Julho 10, 2015 at 4:46 pm

Ler um texto desse perto da hora da janta é muita sacanagem! Hahaha!
Agora falando sério, eu vou tentar achar algumas receitas desses pratos que você descreveu e tentar fazer em casa. Fiquei com vontade de comer esses camarões no leite de coco… Que delícia!
Convida a gente? 😛

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Marcela Julho 14, 2015 at 7:19 am

Está mais do que convidada, Cristiane!! Venha mesmo!! Obgrigada pelos elogios!!!! <3

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Coco Brielle Julho 13, 2015 at 5:51 am

Olá Marcela,
Não percebi muito bem esta parte ”…a polpa para a xiguinha (ensopado feito com amendoim e frango)…”
Sou de Gaza, sul de Moçambique e xiguinha é feito com mandioca, cortada aos ‘quadrados’, folhas e fruto de cacana e amendoim. Não é ensopado
Desfrute Moçambique!

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Marcela Julho 14, 2015 at 7:02 am

Obrigada pelo comentário Coco, quando falo da polpa, estou a me referir da mandioca propriamente dita, sem as folhas, sem a casca. Sei que a xiguinha é cortada e cozinha-se com o amendoim. Uns preparam mais ‘molhado” outras mais densas, varia um pouco do gosto pessoal de quem prepara. Imagino q vc sendo moçabicana deve saber bem mais, inclusive preparar “a maneira”!! Parabéns para a culinária de seu país!!!!!

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Coco Brielle Julho 13, 2015 at 6:01 am

Como a Marcela é dentista e trabalha no ISCTEM, gostava de saber o que acha do uso da mulala como ”dentífrico” por parte dos nativos dos vários países africanos, é claro que a raiz não tem o mesmo nome em todos os países e não provém da mesma planta.
Faço esta pergunta, porque vivo na Europa, e vejo que os africanos cá tendem a ter os mesmos problemas que os nativos europeus, problemas esses que não se encontram ou quando se encontram não é em grande número como nos países ocidentais.
Existirá algum correlação com o uso das raízes, o ISCTEM desenvolve algum estudo na área da saúde oral? Será que o Homem devia apostar na mais na cura através das plantas e alimentação com base vegetal?
O Dr. Weston Price foi dos primeiros a falar da cura de cáries com mudança da dieta alimentar.

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Marcela Julho 14, 2015 at 7:07 am

Sim!!!! A mulala é um excelente auxiliar no combate a cárie dentária, pois além do poder de limpar através das fibras da raíz, a Eucleia natalensis(Mulala) possue um antibiótico natural que impede a proliferação de algumas bactérias que são responsáveis pela cárie e algumas doenças do periodonto. O Isctem ja teve trabalhos de mestrado a esse respeito comprovando esse poder da mulala. Ensaios laboratoriais comprovam a eficácia da eucleia. A colgate já lançou um dentrifício ( pasta dental) com extrato da mulala aqui na Africa. Mais uma vez, parabéns pelo seu tão rico país.

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Nila Azize Julho 14, 2015 at 5:43 pm

Dra Marcela parabens pelo blog
Aqui em inhassoro apartir de setembro sai mta mta mta mta mta lagosta!!! Quando vier trago pa si…bjbj

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Marcela Câncio Figueiredo Julho 15, 2015 at 4:12 am

Nila vou cobrar mesmo viu? Mal posso esperar!! Amo lagosta!! Obrigada pela lembrança, querida!! Bjsss <3

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Carinne Julho 15, 2015 at 10:29 am

Sacanagem pode repetir To indo almoçar ai!!!! Amiga me fala por favor preciso provar p reproduzir, vc arrasou! Realmente a culinária aqui é boa demais preciso aproveitar mais pois nem tudo ainda provei! Amei Bjos

Resposta
Marcela Julho 15, 2015 at 6:41 pm

Amiga Você manda!!! Venha aqui que faremos juntas e aprendemos com D. Laura!!!! ❤️❤️

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Luana Dezembro 1, 2015 at 11:28 am

Marcela, estou de mudança para Maputo e gostaria de saber como faço para fazer faculdade de odontologia aí, pois meu marido está sendo transferido para Maputo e eu estava entrando na faculdade de odontologia aqui no Brasil. Pode me dar informações sobre isso?

Resposta
Maria Eleonora Loyola Março 7, 2017 at 2:04 pm

Marcela parabéns por tudo que escreveu por sinal muito bem escrito
Vivi ai mas hoje vejo que não conheci nem aproveitei o que Moçambique tem de melhor.
Com suas escritas senti pena de não ter me aprofundado em todas as áreas
Mas como o mundo gira ainda espero retornar a essa terra acolhedora

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Fábio Junho 19, 2018 at 2:25 pm

Muito boas as sugestões, Marcela. Parece que já conhece bem a culinária moçambicana!

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