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Etnias e xenofobia, a discussão na Europa

Como meus textos anteriores sugerem, há inúmeras razões que, ao meu ver, justificam o desejo de migrar ao exterior. No entanto, meus dois últimos textos evidenciaram o lado positivo de tomar essa decisão, tornando-se ambos um tanto parciais.

Para mostrar os dois lados dessa mesma moeda, portanto, o tema deste artigo será xenofobia, que é algo que existe na Europa no Brasil de forma “maquiada” e “discreta”, mas ainda assim presente.

Evidentemente, este texto é baseado em minhas próprias experiências e convicções. Não pretendo influenciar ninguém, senão exercer o meu direito de pensar e, consequentemente, de me expressar. Generalizar tampouco é minha intenção; portanto, para deixar bem claro, nem todo europeu é xenófobo e nem todo brasileiro tem “síndrome de vira-lata”, como é a moda afirmar.

Duas questões específicas me motivaram a escrever este artigo. A primeira, o rumor de que Theresa May, política britânica membro do Partido Conservador, pretendia proibir que estudantes estrangeiros pudessem trabalhar no Reino Unido durante e após o término de seus estudos no país. A segunda, o conceito de raça e etnia que nos é imposto por europeus e que o resto do mundo, sem hesitação, supostamente deve aceitar.

Analiso primeiramente, portanto, o rumor de Theresa May, que nada mais foi do que puro sensacionalismo de jornais ingleses que publicaram a “bomba”. Na realidade existia, sim, uma pitada de verdade por trás do boato, mas não eram todos os estudantes estrangeiros que seriam banidos de trabalhar no Reino Unido, senão os college students – ou seja, estudantes universitários continuam tendo o direito de trabalhar. Obviamente, a verdade não vende jornais e, por isso, o rumor se espalhou graças aos desabafos de diversos estudantes que se sentiram injustiçados com a situação – entre eles, eu. No entanto, a minha insatisfação não era pelo rumor em si, senão pelos comentários que os “patriotas” deixavam a respeito do assunto.

Entre os comentários: “Estudantes estrangeiros vêm ao Reino Unido para estudar, não para trabalhar. Uma vez que o curso deles acabe, eles têm que voltar ao seus países de origem! E, se isso os incomoda, é só não vir para cá!”

Britain for the British!

Mas… O que fazer com o fato de que estudantes estrangeiros, quase todas as vezes, pagam praticamente o dobro de mensalidade do que os próprios estudantes britânicos? Some-se a isso o fato de que além de terem que provar terem dinheiro na conta antes de obter o visto britânico, estudantes estrangeiros não têm direito nenhum de pedir ajuda governamental para bancar seus estudos como fazem os britânicos, com seus “student loans”?

Será mesmo que banir estudantes estrangeiros de trabalhar no Reino Unido seria inteligente, uma vez que a maior parte desses mesmos estrangeiros tem dinheiro o bastante para estudar em qualquer outro país de língua inglesa?

Tenho certeza que não. Por isso, estudantes universitários ainda têm o direito de trabalhar em tempo parcial durante seus estudos e de poder pedir um trabalho após o término destes – não antes de sofrer para encontrar aquela empresa que se dá ao trabalho de até mesmo considerar um imigrante não-europeu!

Lago que divide Yvoire, na França de Nyon, na Suíça. Duas bandeiras de países diferentes no mesmo lugar - não seria, talvez, o conceito de fronteira ilusório?
Lago que divide Yvoire, na França de Nyon, na Suíça. Duas bandeiras de países diferentes no mesmo lugar – não seria, talvez, o conceito de fronteira ilusório?

Irônica e infelizmente, o fim dessa história não é satisfatório; ainda há ignorância por todos lados, por mais que os benefícios associados à imigração sejam frequentemente evidenciados – afinal, vivemos ou não numa sociedade que vive por lucro? Qual maneira melhor de obtê-lo, senão extorquindo dinheiro dos estrangeiros?

Muitos “patriotas” insistem em defender seu direito praticamente divino de viver num país onde sequer escolheram nascer, enquanto diversas nacionalidades, em seu ponto de vista, devem ser privadas de inúmeras oportunidades nesse mesmo país.

Permitam-me desviar, brevemente, a direção de meu texto. Quando afirmo que diversas nacionalidades são privadas de oportunidades, não falo apenas dos brasileiros, os “injustiçados”, mas também de outras nacionalidades que merecem o mesmo respeito que nós nos julgamos merecedores em outros países. Falo do indiano, do muçulmano, do nigeriano e, claro, também falo do brasileiro que, inútil e infelizmente, muitas vezes perde sua autoestima quando julgado por outros.

Chamo a atenção para o fato de que os brasileiros em geral são frequentemente privados do direito de se autodenominarem o que quiserem em países de língua inglesa, quando se trata de etnia. De fato, o Brasil tem uma riquíssima história cheia de beleza e de múltiplas culturas que, muitas vezes, mesclaram-se – esse fato não deve, em minha opinião, envergonhar ninguém, como muitas vezes já vi acontecer. Entretanto, tal fato tampouco pode ser utilizado como desculpa pronta para pessoas de nacionalidades com frequente senso de superioridade utilizarem quando lhes convêm. Não falo somente do brasileiro que se vê no direito de se autodenominar branco, mas também do negro ou do japonês que, igualmente, têm o direito de respeitar e fazer respeitar sua própria cultura, sem que outras nacionalidades o julguem por isso. A Inglaterra, por exemplo, é um país multicultural. Em Londres, há vezes em que vejo mais pessoas de origem árabe do que britânicos propriamente ditos, mas ainda assim existe um sentimento de que a Europa, em geral, é um continente branco. E aqueles europeus que foram ao Novo Mundo? Será que só por terem nascido em solo em desenvolvimento como o Brasil, Nigéria, México, entre outros, não podem também se identificar com suas próprias etnias e ancestrais? Será que o japonês nascido na Europa realmente é mais japonês do aquele nascido no Brasil ou que a etnia é apenas reservada como direito àqueles que nasceram em países desenvolvidos?

Finalizo este texto concluindo o seguinte: o ser humano, em geral, apenas luta por valores que beneficiem a si próprio, seja a respeito de estudos e empregos, seja a respeito de concepção de etnia ou nacionalidade. Minha visão é, de fato, influenciada pelas minhas próprias experiências e estudos políticos, porém acredito que seja importante reconhecer tal fato antes de acreditar que o brasileiro é injustiçado. Realmente existe xenofobia e racismo na Europa, assim como ambos também existem em solo brasileiro. Concluo, portanto, afirmando que tais problemas são, ironicamente, muito semelhantes e o que poderia resolvê-los seria mais estudo e, sobretudo, mais reflexão e compaixão.

Leia mais sobre a Inglaterra: Tudo o que você precisa saber para morar na Inglaterra!

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8 comentários

Maryanne Setembro 24, 2015 at 6:37 am

Thais Maciel,

Vc perdeu o foco no teu texto. Claramente, e um tema COMPLEXO e dificil de ser digerido…
Boa sorte na tua vida.

Resposta
thaiscmgomes Outubro 2, 2015 at 8:08 pm

Obrigada pelo comentario. Felizmente, temas complexos permanecem sendo complexos independentemente da opiniao da pessoa de quem os escreve, sem exceçoes. Boa sorte pra vc tb!

Resposta
Juan Agosto 8, 2016 at 10:44 pm

“Finalizo este texto concluindo o seguinte: o ser humano, em geral, apenas luta por valores que beneficiem a si próprio, seja a respeito de estudos e empregos, seja a respeito de concepção de etnia ou nacionalidade”.

É o que nós da filosofia e psicologia concluímos nos nossos estudos acadêmicos. Mas é muito difícil o ser humano assumir isso, talvez devido aos debates religiosos e à cultura do altruísmo os quais nos seres humanos incorporamos superficialmente para controlar os nossos instintos e podermos sobreviver em coletividade.

Resposta
Janaina Behling Setembro 26, 2015 at 7:22 pm

Oi Thais, tudo bom? Conheci o blog “Brasileiras pelo mundo” e me entusiasmei por várias razões, mas vou destacar duas apenas, a fim de estabelecer algum diálogo e estratégias. A primeira razão está no fato de que as mulheres… andam. Isso não deveria me entusiasmar, não é mesmo? Errado. Andar, no sentido amplo da palavra, com independência, alguma liberdade, senso prático, criatividade, é algo das últimas gerações de mulheres, inclusive, muitas brasileiras negras. Elas, as brasileiras negras, são minha segunda razão para entusiasmos, mas agora, sobre onde podem(os) chegar com o que tem(os) em mãos. O “mas”da frase anterior indica receios, questionamentos. Se vamos tão longe, se somos capazes, quando seremos objeto de nossas próprias investigações para além da condição vitimada? Pretendo estudar políticas públicas no Reino Unido ano que vem. Compartilho esse comentário-provocação porque, de repente, talvez não consiga estudar o que me parece o útero da questão feminina hoje: as políticas micro e macro de empoderamento do que já está posto, nossas capacidades de irmos além. Abraço!

Resposta
Thais Maciel Outubro 2, 2015 at 6:31 pm

Oi Janaina, estou bem sim, muito obrigada por ler o post!
Fico feliz que você queira estudar no Reino Unido. Espero que dê td certo para vc. O caminho é longo e cheio de burocracia, mas com persitência tudo é possível 🙂

Resposta
Janaina Behling Setembro 26, 2015 at 7:25 pm

Ah! Mais uma coisinha! Acha que poderia colaborar com alguma revisão do material que devo apresentar em inglês ao processo de seleção da universidade? Se isso te deixar feliz como a mim, não pela demanda com textos, apenas, mas pela resposta feminina que juntas poderemos dar ao mundo, escreva-me: [email protected]
Juntas somos mais que essa mixaria xenófoba 🙂

Resposta
Thais Maciel Outubro 2, 2015 at 6:34 pm

Sim, Janaina, eu posso te ajudar.
Enviarei um e-mail para vc hj.
Atenciosamente,
Thais

Resposta
Alexandre Henrique Setembro 21, 2016 at 9:01 am

AJUDA AOS BRASILEIROS:
Vendo toda a situação atual do Brasil, todas as dificuldades enfrentadas por meus conterrâneos, eu quero tentar fazer um pouco para ajudar as pessoas deste meu pais que tanto sofre. Eu nasci em São Paulo, mas com antecedentes europeus (Itália), o que que me deu direito a dupla nacionalidade e consequentemente a legalidade de morar na Inglaterra. Me formei em Engenharia e hoje trabalho como Project Manager numa grande indústria farmacêutica do Reino Unido. Sim, posso dizer que está sendo uma historia de sucesso, mas assim como todas as pessoas que vieram, eu também passei por desafios desde o momento em que pensei em morar fora. Espero poder ajudar cada um naquilo que for possível. Será um prazer poder ajudar e transmitir experiência de casos de sucessos e tristeza. (Nuca diga fracasso….. fracasso é a ação daquele que desistiu de seus objetivos).
Deixo meu e-mail para quem quiser tirar duvidas sobre processos de cidadania, passaporte, emprego, custo de vida… etc. Não há custo para isso. Ajudar as pessoas enobrece o homem. Deixaria meu telefone da Inglaterra, mas por motivos de trotes e ligações indevidas, não é possível.
E-mail: [email protected]
Observação: Esta é uma ajuda para as pessoas que querem viver/trabalhar LEGALMENTE na Inglaterra. NÃO compactuo com ações que desrespeitem as leis da Inglaterra e/ou comunidade europeia. A Inglaterra tem muito a oferecer, mas de antemão, você deve cumprir com as regras existentes na terra da rainha.

Grande abraço,
Alexandre

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