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Haiti – Um furacão chamado Matthew

Nos dias antes da chegada do furacão Matthew, passamos momentos de tensão aqui no Haiti. As previsões iniciais diziam que o furacão poderia passar justo por cima da capital Porto Príncipe (potencialmente causando um desastre ainda mais grave), depois mudaram para previsões de que talvez Matthew passaria mais ao oeste, atingindo em cheio a Jamaica.

Assim passamos vários dias em suspense, sem saber qual seria a extensão do desastre que nos aguardava. Finalmente, como vocês já sabem, no dia 4 de outubro de 2016 o furacão Matthew atingiu em cheio a parte sudoeste do Haiti. Durante várias horas, os ventos de mais de 120km por hora arrasaram as regiões chamadas Sud e Grand Anse (análogas aos estados do Brasil). O mapa abaixo representa as zonas afetadas de acordo com a intensidade dos ventos.

Nos primeiros dias após a passagem do furacão, os contatos telefônicos foram completamente cortados bem como o acesso por vias terrestres, especialmente com Grand Anse. As primeiras informações sobre os efeitos do furacão chegaram mais de 2 dias depois, trazidas por missões de reconhecimento que sobrevoavam as zonas afetadas. As primeira imagens que chegaram eram desoladoras, mostrando cidades inteiras, como esta, completamente destruídas como na foto abaixo. Infelizmente foi um período bastante caótico para todos que trabalhamos na área humanitária, pois faltava informação, da mesma forma como o acesso à região para socorrer as vítimas estava muito limitado.

Imediatamente após o desastre, uma operação humanitária enorme começou a tomar forma, centenas de pessoas chegando, inúmeras doações, aviões, ONGs, reuniões, missões de avaliação… É um fenômeno completamente novo para mim que, apesar de trabalhar para o escritório de assuntos humanitários da ONU no Haiti, não tinha tido nenhuma experiência com emergências antes.

Como é fazer parte de uma operação humanitária como esta?

Para mim é uma experiência incrível, mas que tomou conta de minha vida por completo. De repente, meu mundo virou de cabeça pra baixo, minha carga horária passou de 8 a 12 h por dia e meus fins de semana passaram a ser dias de trabalho normais, porque a carga de trabalho tornou-se muito maior do que o regular. Nesse período quase não falei com minha família e amigos, dormi pouco e comi muito mal. Mas sempre tive em mente que esse sacrifício faz parte do trabalho que fazemos, e, como sempre havia sonhado em trabalhar para uma organização humanitária, foi muito mais fácil encarar a situação. Até hoje (15 de outubro) não havia podido descansar nem passar um dia sequer em minha casa, de forma que foi um período muito intenso.

Minha função no escritório de assuntos humanitários é de oficial de gestão da informação. A gestão da informação é muito importante, porque a partir do momento em que inúmeros atores começam a desembarcar no país para ajudar a população, é necessário ter informações corretas e disponíveis para que todos possam desempenhar suas funções da forma mais organizada possível. Por isso nos dedicamos a colocar à disposição das ONGs, mapas, calendários de reuniões, listas de contatos, listas de organizações que já estão trabalhando em cada cidade, etc.

Além disso a organização se dedica a colaborar na coordenação dos diferentes atores humanitários com o objetivo de fazer com que a ajuda chegue da forma mais rápida e organizada possível a todos que necessitam, com o intuito único de salvar vidas.

Como está situação atual no Haiti?

A situação da região afetada ainda é muito séria, as pessoas precisam de alimentos, água, abrigo, serviços de saúde, etc. Estima-se que mais de 1,4 milhão de pessoas necessitam algum tipo de assistência humanitária nas diversas regiões afetadas pelo furacão (mapa abaixo), de acordo com as autoridades.

Crédito: UNOCHA Haiti
Crédito: UNOCHA Haiti

A ajuda está chegando àqueles que necessitam, pouco a pouco. Muitas organizações enviaram equipes para assistir com distribuição de alimentos, água, assistência médica, etc. Mas ainda há muito a fazer.

Em relação aos recursos recebidos, muitos países incluindo o Brasil, têm enviado doações de alimentos, barracas, material de higiene, medicamentos e outros. Assim como muitos países fazem doações em dinheiro à distribuição de alimentos pelo Programa Alimentar Mundial.

Acredito que, além das casas destruídas e danificadas, um dos piores impactos do furacão foi sobre a agricultura e sobre os meios de subsistência em geral. Estima-se que em Grand Anse 100% da produção agrícola tenha sido perdida, enquanto no departamento de Sud as perdas chegam as 80%, de acordo com o Programa Alimentar Mundial (PAM/WFP) e o governo Haitiano. Perdas desta magnitude representam um impacto devastador na economia local, que provavelmente demorará anos para se recuperar.

Uma das fotos que mais me impressionou, da cidade de Jeremie. Crédito: Logan Abassi
Uma das fotos que mais me impressionou, da cidade de Jeremie. Crédito: Logan Abassi

Importante lembrar que estamos falando de um país onde a maioria dos habitantes locais vive em extrema pobreza (com menos de um dólar por dia). Então é possível imaginar o quão crítica é a situação desta população a curto e médio prazo.

Como posso ajudar?

Acredito que a maneira mais efetiva de ajudar os haitianos no momento é financiando organizações e ONGs internacionais, que poderão aportar ajuda humanitária de forma rápida e eficaz.

Há inúmeras organizações presentes no país nesse momento, creio que, em sua maioria, organizações sérias e competentes. Entre elas pode-se citar a Federação Internacional da Cruz Vermelha, os Médicos sem Fronteiras, o UNICEF, o programa alimentar mundial (WFP), J/P HRO, Save the Children, Merci Corps, Concern Worldwide, etc.

Muitas dessas organizações estão recebendo doações online. Então, quem tiver interesse pode escolher uma de sua preferência para doar.

Como ser voluntário?

Sinceramente, para pessoas comuns que não se dedicam profissionalmente na assistência humanitária, acredito que esse não seria o momento de vir como voluntário ao Haiti. Honestamente, creio que, no princípio da operação, o melhor a fazer é deixar esse trabalho aos profissionais que já estão acostumados com isso.

Pessoas com boas intenções, mas inexperientes, sem conhecimento de idioma e cultura, podem causar mais dano do  que ajudar, além de correr riscos desnecessários. Mais tarde, quando a situação estiver mais tranquila, talvez as pessoas interessadas possam participar em missões para ajudar a população haitiana, mas sempre recomendo vir com uma organização séria e que conheça as necessidades e a realidade do país.

Além disso, gostaria de lembrar a todos que não é necessário esperar por uma grande catástrofe natural para decidir-se a ajudar o outro. Assim como “o outro” não precisa morar no Haiti, na África ou outro lugar para que sua ajuda seja relevante. Lembrem-se que no Brasil cabem muitos Haitis, e que antes de tudo, nossa responsabilidade é fazer o bem por pessoas que vivem próximas a nós, seja na nossa rua, nosso bairro ou nossa cidade.

Existem muitas ONGs no Brasil que se dedicam a mudar a nossa realidade, que infelizmente ainda é de muita miséria e desigualdade na maioria das regiões.

Este artigo não representa de nenhuma maneira as posições e informações oficiais do escritório de assuntos humanitários das Nações Unidas no Haiti, sendo um texto de opinião pessoal da autora.

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2 comentários

Joselene Ieda dos Santos Lopes de Carvalho Novembro 20, 2017 at 6:38 pm

Oi Ana, muito obrigada pelos textos compartilhados! Sou doutoranda em História e meu tema de pesquisa é sobre os Haitianos no Paraná. Ainda não tive a oportunidade de conhecer o Haiti, mas, gostaria de conversar com você pra perguntar algumas coisas a respeito do país e dessa sua experiência. Você aceitaria? Poderíamos trocar emails… desde já, muito obrigada! Att,

Resposta
Liliane Oliveira Novembro 21, 2017 at 2:36 pm

Olá Joselene,
A Ana Maria Pereira parou de colaborar conosco e, infelizmente, não temos outra colunista morando no país.
Obrigada,
Edição BPM

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