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Haiti – Mitos sobre o Vodu

Uma das características mais visíveis e marcantes da cultura haitiana para os estrangeiros é o vodu. Sua influência permeia o estilo de vida das pessoas e todas as expressões artísticas nacionais como poesia, música, dança, pinturas, esculturas, etc.

Esta religião chegou às Américas por meio de escravos trazidos da região oeste da África. No Haiti teve seus cultos proibidos durante muito tempo, mas continou a ser praticada pelas pessoas em segredo.  Somente com o final da ditadura Duvalier, na década de oitenta, é que os haitianos recuperaram o direito de cultuar e expressar livremente sua religiosidade. Porém só em 2003 o vodu veio a ser reconhecido oficialmente como religião pelo estado. Hoje, diz-se que mais de 90% da população pratica o vodu de alguma forma, sendo que a grande maioria também se considera cristã (católicos e evangélicos). Além do Haiti o vodu é praticado também na Louisiana nos EUA e em países do oeste da África como Togo e Benin.

Durante uma apresentação musical do cantor James Germain, imagens relacionadas ao Voudou são projetadas na parede.
Durante uma apresentação musical do cantor haitiano James Germain, imagens relacionadas ao Voudou são projetadas na parede.

Para muitos haitianos o vodu é motivo de muito orgulho, representa sua identidade nacional, suas origens africanas e sua história de luta pela liberdade. Fora daqui, no entanto, há muitos mitos sobre essa religião que tem muitos pontos em comuns com o candomblé do Brasil e a santeria praticada em muitos países da América Latina. Infelizmente, Hollywood fez um grande desfavor à religião e ao povo haitiano ao representar o vodu como uma espécie de magia negra. Esse estereótipo está muito longe de representar a realidade. É verdade que sacrifícios fazem parte do vodu, assim como imagens fortes e violentas, mas acredito que a falta de conhecimento unido ao medo causado por algumas destas visões ajudou a construir este mito de que o vodu é mau. Na realidade, assim como no candomblé, o vodu lida com o bem e o mal, e as pessoas normalmente tomam parte de cerimônias para pedir favores dos deuses e oferecem algo material em troca desses favores.

Antes de continuar, preciso dizer que no Brasil eu jamais tive contato com candomblé, umbanda e afins. Isso se deve ao fato de que de maneira geral estas religiões não fazem parte da minha cultura. Venho de uma região fortemente católica e com pouca influência afro. Cheguei no Haiti sem saber nada de vodu ou candomble e foi aqui que tive a curiosidade de perguntar às pessoas e ler um pouco mais sobre o tema.

Assim que comecei a me interessar pelo tema passei a perceber varios detalhes os quais não era capaz de compreender, como algumas figuras esquisitas que estavam por toda parte em pinturas, bandeiras bordadas e fotos. Via esculturas um tanto assustadoras ou até mesmo chocantes com figuras humanas cheias de pregos no corpo. Ouvia pessoas falarem em sacrificios, estórias de zumbis, algo desconhecido que me causava estranhamento e um pouco de medo.

Foto de uma cerimônia do dia de finados. Por Flore Rossi
Foto de uma cerimônia do dia de finados. Fotografia por Flore Rossi

Ainda nos meus primeiros meses no Haiti, em agosto de 2014, tive a oportunidade de assistir parte de uma cerimônia que acontecia em um terreiro no meio de um bairro residencial de Porto Prícipe. Fui convidada por um chileno que vive aqui e que tem alguns amigos haitianos. A principio tive receio e disse que não queria ir. Depois de alguma insistência, acabei topando. Éramos os únicos estrangeiros e havia várias pessoas da comunidade sentadas assistindo. No meio estava um altar cheio de alimentos e bebidas, um grupo dançava e bebia rum ao redor do altar enquanto outros tocavam tambores. Estavam todos vestidos de branco e havia uma senhora idosa, sentada em uma cadeira, que parecia ser a mestre de cerimônia.  As pessoas que dançavam e tocavam tambores pareciam estar em transe, algo que me fez sentir que deveria haver semelhanças entre essa cerimônia e as cerimônias do candomblé ou umbanda (como as entendo). Fiquei bastante desapontada porque saí de lá sem entender nada do que havia acontecido, mas feliz por não ter presenciado nenhum sacrifício de animais. Esta é uma prática muito comum por aqui, a qual eu jamais gostaria de presenciar.

Dias depois tive a oportunidade de conversar com uma amiga brasileira que vivia aqui há quase cinco anos. Ela então procurou me explicar um pouco das semelhanças e diferenças entre candomblé e vodu. Segundo ela, a principal diferença entre ambas as religiões é que no candomblé o culto está focado nos orixás, enquanto que no vodu eles têm vários Loas (orixás) mas o culto está mais focado nos antepassados das pessoas.

Recentemente vi um livro que apresentava os Loas do vodu e finalmente descobri que as figuras estranhas que vejo nas bandeiras e nas fotos dos rituais são os Veves. Veves são desenhos que representam cada entidade e que são usados em cada cerimônia, de acordo com o Loa para o qual está sendo realizada. Fiquei curiosa ao ver nomes conhecidos no livro, como Ogun (Ogum) e Osun (Oxum). Pesquisando um pouco mais descobri que o candomblé e o vodu compartilham vários orixás em comum como Oxum, Ogum, Iemanjá e Xangô. Finalmente, depois de 1 ano e meio vivendo no país, estou deixando de ver o vodu com estranhamento e passando a compreendê-lo um pouco.

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4 comentários

Cintia Agosto 11, 2015 at 8:45 pm

Oi Ana ,

Bastante interessante e informativo o seu texto. Nada como informação para se acabar com o preconceito. Abs

Resposta
Jhon Agosto 12, 2015 at 2:42 pm

Acho incrível como as religiões conseguem explicitar o nível de desenvolvimento de um povo.

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Virginia Ladis Junho 22, 2016 at 1:21 am

Estou a amar ler seus posts e ver desmistificada toda negatividade em volta das religiões de matriz africana.

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Ana Pereira Junho 22, 2016 at 8:16 pm

Acho q há um longo caminho pra desmistificar estas religiões. Eu mesma só aprendi um pouco mais sobre o Candomblé depois de chegar aqui pq no Brasil via como um tipo de bruxaria somente. Acho que é muito importante entender e respeitar as religiões de outras pessoas. Crenças cada um pode escolher a sua, mas é importante respeitar que os outros tenham uma visão de mundo diferente da nossa.

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