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Mercado de trabalho para mulheres no Chile

Mercado de trabalho para mulheres no Chile.

Sempre quando me perguntam se me adaptei ao Chile respondo tranquilamente que sim. Morei nove anos fora da minha cidade natal e longe da minha família quando vivia no Brasil. Adaptar-se ao clima e a uma cultura diferente nunca foi um problema. Mas algo que me incomodou muito em quase quatro anos de Chile foi a questão laboral.

Acredito que ter um trabalho estável é um fator determinante quando se vive em outro país. Ganhar seu próprio dinheiro e ter sua independência, além de uma vida social a partir do trabalho, é fundamental no processo de adaptação.

Desde que cheguei ao Chile sempre trabalhei e procurei manter minha independência financeira. Apesar de ter sofrido uma considerável redução de 80% no valor do meu salário na comparação com o que eu ganhava no Brasil, nunca desisti de procurar uma colocação na minha área de atuação, a comunicação social.

Esse ano, finalmente, consegui um emprego numa agência que trabalha com marketing digital e atende a clientes brasileiros. Perfeito! Não desanimei com o salário bem abaixo do que estava acostumada, nem com a intensa carga horária (no Chile, são 45 horas semanais). Esse é um aspecto bem importante no meu caso porque tenho uma filha de um ano e três meses que ainda mama no peito.

Conciliar a maternidade e o trabalho é um dos tantos desafios que nós, mulheres, enfrentamos aqui. Para resumir a situação no Chile: com todos os estudos que tenho (Mestrado), vários anos de experiência profissional (mais de 15) e falando três idiomas, ganho metade do que o meu marido, que não tem nada disso, mas é um talentosíssimo fotógrafo no jornal mais importante do Chile.

As condições de trabalho para as mulheres no Chile ainda são bem desiguais, pelo menos, essa é a sensação quando você é mulher aqui. Apesar dos números mostrarem outra realidade, em especial, quando comparamos com o Brasil. O Chile tem uma mulher na presidência que governa o país com o apoio de uma equipe de 23 ministros, dos quais oito são mulheres.

Leia também: custo de vida no Chile

O país ocupa a 73ª. posição no Índice Global de Desigualdade, elaborado pelo Fórum Econômico de Davos, enquanto o Brasil amarga a 85ª. posição, correndo o risco de cair para 107ª. depois da atual reforma ministerial. O índice avalia a situação das mulheres na sociedade, subdividindo-se em categorias como Participação Econômica e Oportunidade; Conquista Educacional; Saúde e Sobrevivência; e Empoderamento Político.

Considerado um dos países mais estáveis da América Latina, o Chile tem uma grande preocupação com a inserção das mulheres no mundo laboral. O país apresenta uma das taxas mais baixas de participação feminina no mercado de trabalho no mundo.

Uma das razões para que isso aconteça é justamente a falta de condições para que as mulheres possam trabalhar e estar tranquilas com relação ao cuidado dos filhos. Conseguir uma creche aqui é uma novela. Muitas pessoas optam por contratar “nana” (babá), mas a realidade é que essa é uma alternativa bem cara e pouco acessível do ponto de vista econômico. Por isso, algumas mulheres preferem ficar em casa cuidando dos filhos diante da falta de incentivos para que elas possam trabalhar fora.

De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatísticas chileno, entre novembro de 2014 e janeiro de 2015, 48,3% das mulheres maiores de 15 anos se declarou trabalhando ou em busca de emprego. Na mesma pesquisa, contrasta a participação masculina no mercado de trabalho: 72%.

Em Iquique, no norte do Chile, uma iniciativa está preparando as novas gerações para tentar mudar esses números. Trata-se da oficina de “Desprincesamiento” promovida pelo Escritório de Proteção de Direitos da Infância. A atividade é voltada para meninas entre 9 e 15 anos da idade.

O objetivo é oferecer ferramentas para que as meninas cresçam livres de preconceitos, empoderadas e com a convicção de que são capazes de mudar o mundo, sem precisar necessariamente de um homem ao lado para isso.

A oficina tem seis módulos e acontece na Casa de Cultura da cidade com debates, aulas de defesa pessoal, cantorias e atividades manuais. Durante os encontros, as garotas refletem sobre o conceito de ser mulher, beleza e felicidade, sem alimentar velhos clichês como o da “metade da laranja”.

Essa experiência conquistou o Chile inteiro e o “Servicio Nacional de Menores” (Sename) também promove as oficinas desde março. O Brasil também entrou na rota do projeto. Em maio, Belo Horizonte sediou a oficina “Não preciso ser Princesa”, inspirada na oficina de “Desprincesamento” de Iquique.

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Material de divulgação da Oficina do Sename

O objetivo era oferecer às meninas e adolescentes a oportunidade de refletir sobre o que é ser mulher, sobre as possibilidades e oportunidades que podem ter, para que cresçam livres de preconceitos, empoderadas e com a certeza de que são capazes de mudar o mundo, começando pela realidade que as cerca sem precisar de um príncipe ou qualquer homem para se realizarem.

A leitura de trechos de textos literários com meninas e mulheres protagonistas, além da apresentação de personagens femininos importantes da literatura, das artes e da ciência são os meios utilizados para desenvolver a consciência nas meninas.

Estimular a participação e o protagonismo feminino nas mulheres chilenas é algo extraordinário nesse pequeno país. E que essa experiência seja levada a outros países é ainda mais surpreendente.

É claro que muita coisa ainda precisa mudar. Esse é um passo de formiga para um país que tem muitas diferenças de gênero e onde o machismo impera, infelizmente. Não é apenas na questão do mercado de trabalho que fica evidente a força dos homens.

Mujeres Trabajadoras 7

As agressões físicas contra as mulheres chilenas, lamentavelmente, ainda são muito comuns. O mais recente foi a agressão sofrida por Nabila Rifo. A chilena de Coyhaique foi atacada e teve a mandíbula e o crânio faturados e os olhos arrancados. Os agressores (ou o agressor) ainda não foram identificados, mas há fortes indícios contra seu ex.

A história de Nabila ganhou as manchetes graças às manifestações em frente à Posta Central, o pronto socorro da capital. Todo os dias passo por ali a caminho do trabalho. Enquanto os manifestantes protestam, penso em tudo o que ainda precisamos conquistar e mudar para preparar essa sociedade para as futuras gerações.

Penso também na minha filha, Gabriela. Espero que ela cresça vendo o exemplo da mãe trabalhando e batalhando numa sociedade onde nada é fácil para a gente, mas onde também nada é impossível.

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Isabela Vargas

12 comentários

Ricardo Freitas Julho 11, 2016 at 3:49 pm

Parabéns a Isabela. Acompanho sua trajetória faz alguns anos e o que mais percebo são suas conquistas. Ela é um grande exemplo de empoderamento feminino.

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Isabela Vargas Julho 11, 2016 at 3:59 pm

Obrigada Ricardo! Já são oito anos desde que nos conhecemos e você acompanhou muita coisa mesmo nesse período! Agradeço de coração pelo carinho e incentivo!

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Caroline Keller Julho 11, 2016 at 6:19 pm

Minha amiga guerreira. Você é uma fortaleza! Texto excepcional, pra ler e reler, encorajar outras mulheres e, ainda, demonstra o quanto nós mulheres latino-americanas precisamos nos unir para vencer o mercado de trabalho predominantemente masculino. Parabéns pela sua coragem! Beijos

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Isabela Vargas Julho 11, 2016 at 6:58 pm

Obrigada, amiga! Realmente temos um longo caminho pela frente para desbravar. Mas foi por isso mesmo que a gente saiu da nossa terrinha, certo? O bom é que temos as redes sociais que nos ajudam a alimentar a nossa forca interior mesmo nos momentos mais difíceis! Beijão

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Paola Julho 11, 2016 at 8:51 pm

Olá Isabela! Não a conhecia e nem a sua história, mas, já admiro você! Parabéns pelo texto! Muito do que você comentou tenho observado de perto desde que vim viver no Chile. Queira o destino que esse quadro mude o quanto antes, afinal, esse tema já deveria, há tempos, ser assunto do passado! Abraço.

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Isabela Vargas Julho 11, 2016 at 9:59 pm

Oi Paola! Obrigada pelo carinho! Como mulher, tenho certeza de que você sabe do que estou falando. Quanto mais a gente puder falar sobre ese assunto e valorizar as nossas conquistas, mais perto estamos de diminuir as diferenças salariais e todas as demais que envolvem a questão de gênero. Um abraço para você também!

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Carla Julho 11, 2016 at 9:40 pm

Oi Isabela. Tenho alguns amigos jornalistas no Brasil que me relatam exatamente o mesmo que voce esta vivendo aqui no Chile, porem no Brasil. No geral, noto que é mais uma questao de oferta e demanda do que uma discriminacao por genero. Sou da area de TI e arrumei trabalho aqui depois de apenas 1 mes procurando e meu salario é compativel com o mercado chileno. Veja, no Brasil eu ganhava um pouco mais. Mas, o mercado de trabalho é diferente. Sem duvida que ha discriminacao, mas acredito ser mais forte para quem nao tem estudo.

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Isabela Vargas Julho 11, 2016 at 9:55 pm

Oi Carla! Realmente, os salários são bem baixos e o mercado é bem competitivo no meio da comunicação. Na área de TI, pode haver menos oportunidades para quem tem pouco estudo, como você afirma. Veja bem, no meu caso, tenho bastante estudos. Acredito que a questão de gênero pesa, sim, especialmente na questão salarial. Não apenas na comunicação, mas em outras áreas. Me candidatei a muitas vagas aqui desde que cheguei e participei de vários processos seletivos. Fico feliz em saber que na área de TI as mulheres têm as mesmas oportunidades que os homens. O ideal seria que em todas as áreas seja assim algum dia! Tomara!

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Carla Julho 14, 2016 at 6:50 pm

Diria que nao é bem pra quem tem pouco estudo….rsrs… nao é necessario um mestrado, por exemplo… o engracado é que na area de TI 97% é de homens… e as mulheres reclamam que nao tem oportunidades em TI pq sao mulheres…. e as de humanas dizem o mesmo…. no meu caso, falando 3 idiomas, com superior completo e 2 certificacoes internacionais nunca me faltou trabalho. No geral, nunca considerei questao do genero…. parti pro trabalho!!!!

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Isabela Vargas Julho 14, 2016 at 7:55 pm

Que bom, Carla! Seria legal saber em qual país você trabalha. Porque é um caso super positivo e que foge bastante da percepção geral das mulheres e de relatório da ONU e da OIT. As duas instituições divulgaram esse ano relatórios que corroboram a percepção que a maioria de nós, mulheres, temos quando se trata de mercado de trabalho. O relatório da ONU que investigou desigualdade de gênero no trabalho na América Latina e Caribe revelou, no início desse ano, que as mulheres na América Latina e no Caribe ainda são discriminadas no mercado de trabalho e recebem salários inferiores aos dos homens pelo mesmo trabalho. De acordo com o estudo, sob qualquer perspectiva, as mulheres dedicam mais do seu tempo ao trabalho não remunerado que os homens. A OIT foi mais longe ainda e afirmou que “no ritmo atual, são necessários mais de 70 anos para fim da desigualdade salarial de gênero”. O relatório examinou dados de 178 países, concluindo que persistem as desigualdades entre homens e mulheres no mercado de trabalho em todo o mundo. Não são apenas os números e estatísticas, mas vários relatos de mulheres passando pela mesma situação que confirmam que ainda há muito desigualdade de gênero. No caso do Chile, não apenas no mercado de trabalho, mas em vários outros aspectos da vida.

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Carla Julho 15, 2016 at 2:14 am

No Chile. Comecei a procurar emprego 02/01/2016 e dia 15/02/2016 foi meu primeiro dia de trabalho. Procurei emprego pelo trabajando.com

Isabela Vargas Julho 15, 2016 at 2:45 pm

Oi Carla! Achei super legal o relato da sua experiência, mas cuidado para não generalizar. Considero o seu caso mais uma exceção do que uma regra. Também consegui emprego aqui no Chile pelo trabajando.com. Um deles numa das maiores empresas chilenas, do grupo Falabella. Tínhamos seis gerências, quatro delas ocupadas por homens e duas por mulheres. No geral, a situação para as mulheres é bem desproporcional, não apenas em termos de oportunidades, mas de salários também. Com relação à área de TI, trabalhei para uma empresa aqui que é subsidiária do Google e os três gerentes eram homens. Nenhuma mulher. Escrevo não apenas do ponto de vista da minha experiência pessoal, do que vi e vivi no mercado de trabalho chileno, mas com base em relatos de outras mulheres e também em estudos todos recentes, nada antigo. Seguido publicam reportagens na revista “Ya”, suplemento feminino do jornal “El Mercurio”, sobre as desigualdades no Vale do Silício, a meca da tecnologia. Então, Carla, cuidado para não ignorar algo que precisamos conversar para mudar e melhorar, para que todas as mulheres tenham oportunidades e sejam valorizadas no mercado de trabalho, não apenas aqui no Chile, mas no mundo todo. Vou te deixar um link com uma entrevista, em espanhol, falando um pouco sobre a desvalorização das mulheres na área de TI: http://www.agenciasinc.es/Entrevistas/Silicon-Valley-ha-creado-un-ambiente-hostil-y-denigrante-para-las-mujeres. Espero que você goste! Um abraço e obrigada por acompanhar o blog! Todos os comentários são sempre bem-vindos porque são uma oportunidade para a gente continuar debatendo questões importantes para todas as brasileiras que vivem por aí, mundo afora!

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