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Mudanças em Myanmar

Mudanças em Myanmar.

Estamos todos bem!

Essa frase me lembra o filme italiano com Marcello Mastroiani. Conhece?

Lendo muito do que tem saído por aí sobre a intervenção militar em Myanmar, um sentimento recorrente em todos os textos: a surpreendente constatação de que tudo é mutável e impermanente (princípio budista bem observado em Myanmar).

Sonhos numa noite e pela manhã tudo por água abaixo

Um dia estávamos todos levando nossas vidas adiante. Esperançosos pela vacina e eu até arriscava planejar uma mini festa de aniversário com uma das amigas daqui. Havia planos de viagens pelo país, de produção de um fashion show e até uma festa latina de celebração do fim da pandemia e o início da vacinação.

Nós realmente acreditávamos que tínhamos o controle sobre nossos dias, mas não.

Em uma noite fui para cama com todos os sonhos do mundo, parafraseando Fernando Pessoa, na manhã posterior tudo veio por água abaixo.

Em certos momentos da vida, ditos populares falam tudo. Um que gosto muito diz que o silêncio responde até mesmo o que não foi perguntado. Me veste como uma luva, então presta atenção no que eu não digo.

Semana passada recebemos os primeiros informes sobre uma possível intervenção militar em Myanmar.

A ONU nos advertiu a evitar as ruas nos dias anteriores a posse de Suu Kyi, Nobel da paz e “presidente “eleita do país, e nos orientou a manter comida estocada.

Em tempos de pandemia

Não levamos muito a sério. Nas redes sociais da comunidade expatriada também havia rumores. Eram entrecortados por análises políticas falando da improbabilidade de um golpe e chistes sobre a importância de não esquecermos de estocar vinho.

Dormi rindo dos pessimistas, acordei sem graça com todas as previsões confirmadas.

Presidente eleita presa com sua equipe de governo sob alegação de fraude eleitoral (efeito Trump que deve também ser nosso pesadelo em 2022). Militarem no poder. Que déjà vu!

Em um primeiro momento, a internet foi cortada e as TVs e rádios saíram do ar (em alguns locais já voltou a normal). Tanques nas ruas e povo em casa, mas estávamos levando tão a sério o slogan “Fique em casa” pela COVID-19, que a diferença nem foi tão gritante. Fomos orientados a ficar em casa, mas nós já estávamos.

No entanto, outras medidas surgiram. Os bancos foram fechados, o aeroporto invadido e fechado também, com previsão de abertura apenas em maio.

Primeira sensação de pânico: Estamos presos aqui! Segunda: Por que nos fecharam dentro do país?

Mudanças em Myanmar

A cabeça foi a milhão. O corpo internacional aqui é basicamente formado por empresas de petróleo e construção (e umas poucas multinacionais) e trabalhadores humanitários. Eminentemente uma grande massa de profissionais das áreas de mediação de conflitos, transição democrática e Direitos Humanos.

De novo, uma diferença que a olhos distraídos pode parecer sutil. Os aeroportos estão praticamente fechados desde março passado, quando começou a pandemia por aqui. Apenas voos esporádicos e de evacuação a países de origem eram permitidos. Também o eram os voos domésticos.

Agora é diferente. O aeroporto está fechado, mesmo! Com militares armados até os dentes, e todos os voos cancelados. Por que fechar o país dessa forma?

Uma corrida louca aos mercados para comprar comida.

Pela primeira vez nessa pandemia, vi as pessoas furando a distância social e se acotovelando por arroz, açúcar e até cerveja! Nas filas dos caixas outro mini-caos. Os cartões não estavam passando.

Os bancos foram fechados pelos militares até segunda ordem. Com isso não adiantava correr para o banco para pegar dinheiro e pagar a conta do supermercado. Nem para nada mais.

Tensão e apreensão sobre o futuro

Isso significa que cada um de nós, não vai poder tirar dinheiro até a liberação dos bancos. Para uns isso significa não ter dinheiro para comprar itens necessários como fralda, alimento e remédios.

É angustiante estar no país dos outros sem acesso ao portão de embarque e sem dinheiro algum. Graças a Deus, minha neurose de manter sempre a geladeira cheia vai nos prover (e a alguns mais que necessitem de ajuda) alimentos por vários dias.

Ao longo do dia lojas foram fechando, aplicativos de entrega de refeições, mantimentos e remédios, também.

Foi um dia de extrema tensão e apreensão sobre o futuro de todos nós, expatriados e locais. Embora tenha sido anunciado que apenas líderes do governo anterior tenham sido presos, a extensa lista de civis aprendidos, inclui estudantes, ativistas e até um cineasta.

Estamos aqui vivendo um dia de cada vez. Com comunicação limitada pela tecnologia e optando pela discrição. e pelo receio de falar demais.

Não sabemos a extensão dos danos, mas ainda não fomos afetados.

Situação dos brasileiros em Myanmar

Por enquanto, nós brasileiros estamos bem. Desfrutamos do privilégio de sermos expatriados, vivendo em lugares supostamente seguros, desde que cumpramos as regras e obedeçamos ao toque de recolher (que existia a partir de meia noite, por causa da epidemia, e agora começa as oito).

Eu estava muito otimista com o início da era de aquário e com o fim do meu inferno astral que acaba com meu aniversário daqui a dois dias, mas mercúrio retrógado me surpreendeu.

Não pensamos em partir no momento. Primero porque não tem como. Aeroportos fechados e voos cancelados até maio. Segundo, porque talvez ainda possamos contribuir com esse país e seu povo apaixonante. Terceiro, porque não vou a lugar algum sem meus bichos.

Sem nada mais a dizer, encerro essa postagem dizendo que estamos todos bem e aproveito para compartilhar uma receita de mohinga, uma deliciosa iguaria local.

INGREDIENTES:

1 robalo, eviscerado e limpo, água, açafrão, pasta de camarão, capim-limão, cebola, alho, gengibre, ovo cozido, molho de peixe, farinha de grão de bico, limão, feijão verde, cebolinhas, pimentas frescas.

INSTRUÇÕES:

Coloque os temperos e a água em uma panela em fogo alto. Quando estiver fervendo, mergulhe o peixe inteiro, retire, coe o caldo e mantenha.

Aqueça o óleo frite a cebola e o açafrão, adicione o peixe e cozinhe por mais alguns minutos. Ferva o caldo da sopa e adicione o peixe com a mistura aromática. Misture a farinha de grão de bico com um pouco de água e adicione à sopa. Adicione sal e molho de peixe e deixe ferver. Escalde o macarrão, adicione a essa mistura e sirva.

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