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Mulheres no Japão

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No dia 3 de março, comemora-se o Dia das Meninas no Japão (também conhecido como Hina-matsuri). Nessa data, as casas são enfeitadas com altares de bonecas tradicionais e ora-se pela saúde e felicidade das meninas da casa. Para comemorar, as meninas vestem quimono (traje típico japonês) e várias iguarias são servidas.

Contudo, não existe nenhum tipo de comemoração no Dia Internacional das Mulheres. Não me recordo de ter visto alguma alusão à data em qualquer local. Comentei com uma amiga japonesa que era comum no Brasil, empresas e lojas presentearem as mulheres com flores nesse dia: ela ficou encantada, disse que gostaria muito de ganhar uma flor.

Ainda que no passado, como herança da cultura xintoísta, a mulher era vista praticamente como uma divindade e as japonesas terem conquistado o direito de voto em 1946, ainda há muito a ser conquistado nessa área. No idioma japonês existem palavras ou expressões exclusivamente masculinas, ou seja, não devem ser ditas por mulheres. Inclusive há templos, locais e cerimônias que restringem a presença feminina.

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A imagem que temos da mulher japonesa é de uma mulher recatada, submissa e educada. Bem, isso está mudando, aos poucos…Se por um lado vemos uma mulher super moderna que trabalha fora e luta para conseguir o seu espaço, por outro lado, encontramos mulheres ainda arraigadas aos antigos costumes.

Mas quem é a mulher japonesa no Japão atualmente? Bem diferente do que imaginei, respondeu um amigo quando visitou o Japão recentemente. Já ouvi essa frase muitas vezes. A imagem que se carrega da mulher japonesa é que ela deve ser modesta, falar baixo, simpática, habilidosa no preparo do chá, confiante e possuir uma beleza delicada. 

As mulheres que vejo nas ruas são vaidosas, magras, riem com a mão na frente, não usam blusas sem mangas tampouco roupas transparentes ou decotadas. No entanto, há uma grande variedade de estilos, desde as mais clássicas, ousadas, ingênuas e modernas. Mas quase todas são vaidosas, não é a toa que o Japão possui uma das maiores indústrias de beleza do mundo. Elas costumam proteger a pele dos perigos do sol exaustivamente, dificilmente usam biquíni e quando usam, colocam outras roupas junto para não expor a pele ao sol e manter a pele branca.

Quando vejo casais passeando na rua, normalmente sempre o homem está um passo à frente da mulher. Raramente andam de mãos dadas ou manifestam qualquer tipo de romantismo. Lembro que uma vez fui passar o final de semana na casa dos sogros japoneses de minha prima e me surpreendi quando ela falou que havia uma sequência para tomar banho e o uso do ofurô (banheira tradicional japonesa). Como as pessoas normalmente tomam banho antes de entrar, é comum a família compartilhar a mesma água da banheira, já que a mesma se mantém aquecida. Primeiro eram os homens da casa e por último as mulheres, por ordem de idade, ou seja, do mais velho para o mais novo. Por isso, quando chegava a vez da minha prima, a água já estava um pouco escura…

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Pelo fato de não existirem babás, empregadas ou diaristas, normalmente a mulher para de trabalhar logo após o nascimento do primeiro filho. A elas cabe a tarefa de cuidar da casa, dos filhos e até do orçamento doméstico. Muitas vezes o marido entrega todo o salário para a esposa e recebe de volta apenas uma pequena mesada, geralmente algo em torno de 10% do salário, para suas despesas pessoais, tais como cigarro, bebidas ou  saída com os amigos. O restante do ordenado vai para as despesas da casa e da família.

Para conquistar o seu espaço, atualmente muitas mulheres optaram por não casar. No entanto, elas ainda encontram muitas dificuldades no mercado de trabalho, uma vez que existem poucas oportunidades de promoção e além disso, muitas empresas japonesas ainda pagam salários diferenciados para homens e mulheres, no exercício da mesma tarefa ou função. Sem falar que o Japão possui a terceira maior disparidade salarial entre os 36 países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, com as mulheres ganhando 24,5% menos que os homens.

De acordo com o último relatório sobre igualdade de gênero do Fórum Econômico Mundial, em 2018, houve uma melhora em 89 dos 144 países analisados, sendo que o Japão subiu quatro posições, mas ainda assim está apenas no 110º lugar (o Brasil ocupa o 95º lugar). Ou seja, continua sendo o pior de todos os países do G7 (Grupo das sete economias mais avançadas do mundo: Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido).

Recentemente ganhou destaque na mídia internacional a notícia de que a Universidade de Medicina de Tóquio estava preterindo as mulheres em seus processos de admissão com a alegação de que elas teriam menos sucesso na profissão do que os homens.

Todos esses resultados cooperaram, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), para gerar um prejuízo estimado de 89 bilhões de dólares ao ano aos países da Ásia.

Com todos essas notícias e a falta de mão de obra ativa, o país se vê obrigado a rever seus conceitos. Parte disso é a criação de políticas facilitadoras (tais como incentivo às empresas para promoção do trabalho feminino e aumento de creches) e a criação do Escritório de Ligação da Organização das Nações Unidas (ONU), Mulheres do Japão, estabelecido em Tóquio, em abril de 2015.

Sinceramente eu acho muito difícil ser mulher no Japão. São muitas cobranças e para alcançar a independência é preciso ir muito além, pois o salário imposto é baixo quando comparado ao masculino. Cargos de chefia são raros.  E caso a mulher se separe, mesmo com filhos maiores, é muito difícil retornar ao mercado de trabalho.

O maior desafio, no entanto, é a recuperação da autoestima e a confiança das mulheres, tão mutiladas com o passar do tempo e as regras impostas. Uma das consequência é o fato de muitas mulheres optarem por não ter filhos ou casar. Por conta disso, no Dia dos Namorados, é comum muitas mulheres reservarem parte do orçamento para se auto presentear, afinal, já que não existe um dia exclusivamente para elas, se elas não fizerem algo para si mesmas, quem o fará?

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