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Mzungu e a desvantagem de ser branco no Quênia

Mzungu e a desvantagem de ser branco no Quênia

O texto de hoje aborda um tema polêmico e, por isso, merece uma notinha de esclarecimento:

Quero esclarecer que em momento algum o que escrevo é para incitar ódio, raiva ou mágoa entre as raças, muito menos exaltar ou justificar algum tipo de comportamento. O que escrevo é um relato bem-humorado do que realmente vivencio todos os dias no Quênia onde, de uma forma ou de outra, trato de me misturar ao máximo no ambiente em que vivo, afinal, somos todos do mesmo planeta.

Ao mudarmos para o Quênia, a última coisa que me passou pela cabeça foi a possibilidade de ter que lidar com questões sobre cor de pele, pois isso para mim no Brasil nunca foi algo que eu tenha percebido tão vividamente. Alguns podem dizer que nunca levei em conta por nunca ter sentido o racismo realmente, afinal, sou branca. Em minha família há uma grande mistura de raças mas, mesmo assim, quando me casei com um argentino, tive que conviver por anos com as piadinhas de meus amigos e familiares sobre o porquê de eu ter me casado justamente com um “hermano”. Por isso, creio que um pouco de discriminação pelo nosso costumeiro sarcasmo eu já havia vivido.

Nas primeiras semanas aqui as pessoas no geral me pareceram extremamente amigáveis e gentis, sempre muito educadas, pedindo desculpas e licença para tudo o que faziam. A cordialidade imperava e todos sorriam pra mim, o que me pareceu fantástico.

Porém, com o passar do tempo eu me inteirei de uma palavra em kiswahilli que era muito usada quando eu ia comprar algo ou quando caminhava pelas ruas: mzungu.

Mzungu significa pessoa de pele branca ou descendente de europeu. Me pareceu interessante que eles me chamassem, muito frequentemente e de forma depreciativa de mzungu, afinal, segundo o que me foi ensinado, nem no Brasil, nem em nenhum lugar do mundo é bacana usar termos pejorativos para nos referirmos a alguém tendo como base seu tom de pele ou características raciais. Por exemplo: em Londrina, onde fui criada, chamar alguém de “japonês” simplesmente por conta das características físicas asiáticas é sempre considerado pejorativo ou depreciativo.

Comecei a perceber a diferença nos preços das feiras livres quando não havia placas sinalizando valores. Para mim eram um, mas se um africano comprasse o mesmo produto e a mesma quantidade, o preço era quase 5 vezes menor! Os preços nos salões de beleza também são diferentes. Para cortar cabelo afro custa em torno de 6 dólares, para cortar cabelo caucasiano o preço já sobe para quase 15 ou 20 dólares.

Os policiais de trânsito quenianos são extremamente corruptos e a corrupção também tem alvo certo: pessoas de pele clara. Os motoristas quenianos podem muitas vezes cometer barbaridades no trânsito e nunca serão alvos dos policiais, mas no caso de pessoas com pele clara, somo frequentemente acossados por eles. Há cerca de dois meses, um mesmo policial me parou 3 vezes no mesmo dia, no mesmo lugar, sempre alegando diferentes e mentirosas infrações para conseguir que lhe pagasse algo. Como sou extremamente contra qualquer tipo de suborno, posso ir presa que jamais pagarei nada, comigo esse tipo de chantagem não funciona. A maioria de meus conhecidos que têm a pele branca e já foram parados pagam entre 100 a 150 dólares com medo do que o que os policiais possam vir a fazer.

Eu gosto de andar por diversos lugares e realmente me integrar com o lugar onde vivo, acho isso de suma importância para quem é expatriado. Quando ando no centro da cidade de Nairóbi, muitas vezes vou com meus filhos e as pessoas nos observam e riem pois não estão acostumados a ver brancos fora da zona de conforto dos expatriados. Isso definitivamente não me incomoda mais, mas admito que no começo eu me achava um ET andando por lugares onde brancos supostamente deveriam evitar. Muitas vezes os expatriados não saem dos seus bairros por estarem com receio deste tipo de discriminação que podem sofrer.

Já com meus meninos, a situação é super diferente. Eles estudam em uma escola queniana; optamos por matriculá-los em uma escola local em vez de uma escola internacional, portanto eles são os únicos brancos. Como já era de se imaginar, nos demos conta de que o preconceito vem dos adultos. Na escola eles são queridos e amados como qualquer criança. Ninguém os chama de Mzungu e os amigos os tratam de igual para igual.

Isso de tratar brancos e negros de forma diferente tem um fundo cultural muito forte, uma vez que o Quênia foi colônia inglesa até 1963 e ter a cor branca era sinônimo de riqueza. Os brancos colonizadores realmente exploraram (e exploram) os negros, portanto ter um preço diferente e não se misturar muito foi a forma criada por eles para que pudessem sobreviver de forma digna. Isso não justifica a corrupção e os sorrisos sarcásticos para quem é branco, mas facilita o entendimento, já que historicamente, os donos do capital tinham dinheiro e influência para fazer o que bem quisessem.

Da minha parte eu entendo, respeito e trato de mostrar que, apesar de ser expatriada, não sou rica, sou ser humano e os trato como tal. Tenho amigos quenianos, meus filhos têm muitos amigos quenianos. Eu trato a todos bem assim como os trataria se fossem azuis ou amarelos. Para mim é indiferente. Com o passar do tempo o preconceito já não me afeta. Aprendi com minhas amigas quenianas quanto valem as coisas realmente aqui, portanto pechincho bastante. Prefiro lugares que têm o preço tabelado, assim é mais difícil ser ludibriada. Com relação à corrupção, jamais farei parte dela. Eu me recuso a pagar ou receber propina.

Sempre acreditei e ainda acredito que a cor da pele, o formato dos olhos e o sotaque que se exibe nunca deveria definir quem você é ou o tipo de caráter que tem. Portanto só podemos mudar o lugar onde estamos entendendo o porquê das diferenças, respeitando-as e mostrando que sempre há um caminho melhor a seguir.

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5 comentários

Angela M Ghisleni Maio 18, 2017 at 1:02 am

Oi Dani, ótimo texto. Relatar a sua realidade aí no Quenia é muito interessante. Assim a gente fica sabendo como é viver aí num pais tão distante do Brasil , povo diferente. E numa coisa tão igual: corrupção, propina…palavras tão presentes nos nossos dias aqui no Brasil. Abracão menina e continue escrevendo..sempre muito legais seus textos

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Daniela Milani Maio 31, 2017 at 11:18 am

Obrigada Ângela!!! Infelizmente a corrupção e o racismo exitem em todos os lugares, a nossa arma é a palavra e a educação. Um beijo grande !!

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Mayra Di Domenico Maio 22, 2017 at 2:39 pm

Que legal seu relato. Sofri muito com o gato de ser branca em Camarões durante o meu intercâmbio. Essa questão de cobrarem a mais então… Tinha 18 anos e não tinha muita noção, acabava sempre aceitando fazer o que haha
Me mudei esse mês pra Budapeste e é algo que até “esqueci”, mas vejo os olhares discriminatorios para quem é negro, infelizmente.
Tudo de melhor pra ti 🙂

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Daniela Milani Julho 2, 2017 at 8:56 am

Sim Mayra, obrigada, infelizmente o racismo existe, em todos os âmbitos. Escrevi pois é algo que muito pouca gente sabe que existe, todos pensam que só existem com os negros, acho triste de qualquer forma. tudo de bom pra você também.

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Ricardo Dezembro 27, 2017 at 7:01 pm

Muito interessante! Eu moro no Canadá atualmente e é até difícil imaginar uma pessoa branca sendo discriminada, já que a gente costuma pertencer ao grupo de privilegiados. Achei que você descreveu a sua experiência de maneira bem razoável e conciliatória. Parabéns!

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