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O primeiro dia de verão na Islândia é na primavera

Na minha percepção, a primavera é a estação mais esperada na Europa, principalmente nos países frios, onde todo mundo está cansado do cinza e dos dias de pouca luz. Nesses países, os primeiros botões de flores começam a brotar em março, às vezes só em abril, coincidindo com a Páscoa. E, se você vir as lojas e os anúncios de artigos Pascalinos, notará o amarelo e cores pastéis predominantes, muita grama artificial decorativa, coelhos (populares no norte da Europa; na Espanha, por exemplo, não são relacionados à Páscoa), ovos e até joaninhas de chocolate – pois,com a temperatura aumentando, elas também reaparecem…

Pois bem, essa imagem do coelhinho sorridente com narcisos amarelos sobre uma grama bem verdinha e flores de todas as cores renascendo com a Páscoa é coisa de TV aqui na Islândia. Com sorte, se a Páscoa cai em abril, pode ser que um ou outro botãozinho de “crocus” (uma flor muito comum no norte europeu e a primeira que brota na primavera) já tenha dado as caras em algum dia menos frio e mais ensolarado, mas pode crer que esse “crocusinho” ainda tomará alguns banhos de neve até o verão propriamente dito chegar.

Há um meme muito difundido nas redes sociais (veja aqui) que ilustra, com realismo, a situação climática aqui na terra do gelo. E não é exagero, aqui não existe primavera! O que temos são as duas estações clássicas do ano: inverno e verão. É quase como no nosso país tropical abençoado por Deus. E não pensem que estou querendo ser engraçadinha: os calendários escandinavos anteriores ao cristianismo eram solares e tinham essa divisão básica em seis meses de luz e seis meses de escuridão.

Há registros de que, no ano 930, quando da fundação do seu parlamento (o primeiro do mundo, a propósito), os islandeses usavam um calendário solar semanal semelhante ao norueguês. Nos séculos XII e XIII, sentindo a necessidade de reformas, unificaram a contagem paralela de meses e a de semanas e harmonizaram-­nas com o calendário cristão. Curioso é que, nesse novo calendário, os meses iniciavam sempre num mesmo dia da semana, e não na mesma data, como fazemos hoje. Esse calendário era, então, dividido em um semestre de inverno e um de verão, cujos meses tinham nomes específicos, relacionados a fenômenos da natureza, divindades nórdicas ou a trabalhos da respectiva época do ano, como “gormánuðr”, o mês do abate; “gói” ,o mês da neve, ou “þorri”, que vem de “seco” e indica que o inverno está terminando ou estava na sua metade. Este último, por exemplo, sempre começava numa sexta -feira em janeiro.

E daí vem a tradição de se comemorar, no mês Harpa, o primeiro dia de verão, que é, nos dias de hoje, a primeira quinta ­feira depois de 18 de abril. Apesar das temperaturas bem baixas, da probabilidade de neve, granizo ou chuva de canivete, a claridade é impressionante nesses dias e temos, praticamente, 16 horas de luz. No feriado deste ano, o sol nasceu às 5:34 da manhã e se pôs às 9:21 da noite, mas sinais da aurora aparecem bem antes disso no céu.

O primeiro dia de verão é um feriado festejado na Islândia. Com exceção de supermercados e lojas de conveniência, o comércio fecha, não há aulas, nem serviço público. Na véspera, à noite, as pessoas saem para beber ou simplesmente fazem um churrasco – à moda daqui, claro – para comemorar. As crianças recebem obrigatoriamente um presente de verão ­ isso também é mais antigo que a reforma do calendário, pois já havia “presente de verão” antes que houvesse presentes de Natal na Islândia. Os mais comuns são uma bola de borracha e o frisbee, mas pistolas de água, bambolês e gizes grandes para pintar as calçadas também são super populares. As famílias mais sofisticadas presenteiam com bicicletas, patinetes ou patins.

E há algumas superstições que se mantêm com os séculos. A mais conhecida é deixar uma tigela com água do lado de fora na noite da quarta para a quinta. Se ela amanhecer congelada, é porque o verão será bom e o resto do ano trará sorte, pois o inverno e o verão se “entrelaçaram” no gelo…

Outro costume é declarar-se para a garota/garoto por quem se está apaixonado, sem medo de ser feliz. Não sei se ainda fazem isso nos nossos dias, casei antes de descobrir…

Este ano, o feriado caiu no dia 21 de abril. Amanhecemos com 3°C e o dia foi bonito, com bastante sol. Isso basta para os islandeses tirarem as roupas claras e de mangas curtas do armário, independentemente da temperatura. As sorveterias ficaram cheias e as crianças não usaram gorro, afinal de contas, o verão começou!! E as piscinas públicas – ao ar livre, diga­-se de passagem, ­ ficaram lotadas; imagine, sol, feriado e sem vento…

A temperatura máxima no primeiro dia de verão deste ano fio 6°C.
A temperatura máxima no primeiro dia de verão deste ano foi 6°C.

Interessante é que o corpo realmente se adapta a essas mudanças climáticas; quando se vive há mais tempo num lugar frio e se pode vivenciar um ciclo inteiro das quatro estações, qualquer solzinho já inspira calor e uma sensação térmica “psicológica” maior do que a real. As crianças, então, nem se fala… saem de cabelo molhado, bermuda e querem guardar os casacos pesados de inverno. Não há quem as convença a sair mais agasalhadas, “coisa mais chata, mãe!” O difícil é colocá-­las na cama com os dias cada vez mais longos até chegar o sol da meia­-noite.

É tão difícil, que existe uma regulamentação da prefeitura e de um departamento da polícia (comparável ao nosso juizado de menores) sobre o horário para crianças circularem sozinhas na rua: no inverno, menores de 12 anos só podem transitar sem acompanhante adulto até as 20:00h e, no verão, até as 22:00h. Sim, crianças brincam sozinhas na rua até as dez da noite na Islândia, mas isso será tema para um outro post.

Tomando sorvete no primeiro dia de verão, não interessa a temperatura...
Tomando sorvete no primeiro dia de verão, não interessa a temperatura…

Gleðilegt sumar! Feliz verão!  Esta frase, aqui na Islândia, tem quase o mesmo peso de um “feliz Natal”, bem, eu disse quase, hehe..

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16 comentários

Luciane Horton Abril 30, 2016 at 8:38 pm

Show de matéria ????????

Resposta
Erika Martins Carneiro Maio 1, 2016 at 1:31 pm

Muito obrigada, Luciane!
Fico feliz que gostou, mês que vem tem mais!

Resposta
Renata Salas Collazo Maio 1, 2016 at 7:58 am

Adorei!!!! E esse verão com altíssimos 6 graus…. Muito protetor solar,,,,,kkkk Nao vejo a hora de conferir todas essas curiosidades e dicas de perto!!!!

Resposta
Erika Martins Carneiro Maio 1, 2016 at 1:30 pm

Obrigada, querida Rê!
Eu também não vejo a hora de poder mostrar a terrinha aqui para vocês!
Beijo grande

Resposta
Aline Arruda Maio 4, 2016 at 4:54 am

Hahaha Rê, pensei igual “máximo de 6C”?
Igual aqui em Perth hehehe

Quero muito ir passar frio com vcs na Islândia xx

Resposta
Erika Martins Carneiro Maio 4, 2016 at 10:49 am

Meninas queridas,
venham, que não é tão frio assim, sensação térmica bem maior, hehe…
Beijos e obrigada por ler e comentar.

Resposta
Tatiana Maio 2, 2016 at 9:47 pm

Adorei! Ler seus textos trazem lindas lembranças da Islândia! Não perco um 😉

Resposta
Erika Martins Carneiro Maio 4, 2016 at 1:06 am

Obrigada, querida Tatiana!
Fico feliz! Você tem que voltar aqui! Beijos

Resposta
Juliana Brandão Maio 7, 2016 at 10:43 pm

O mais lindo de tudo são essas crianças lindas tomando sorvete!

Não vejo a hora de ir tomar sorvete com elas 🙂

Feliz verão pra gente!

Beijoo

Resposta
Erika Martins Carneiro Maio 12, 2016 at 12:32 am

Obrigada, Ju querida!
Espero você aqui para tomar sorvete conosco.
Beijão

Resposta
Andreia Maio 17, 2016 at 7:47 pm

Oi, Erika! Tinha que passar por aqui para agradecer pelo super roteiro que você nos deu quando estivemos na loja, no dia 10. Seguimos tudo direitinho – exceto o Blue Lagoon, que não tivemos tempo de curtir, mas visitamos. Adoramos a Islandia!!! Quem sabe possamos voltar algum dia… Muito obrigada! Tudo de bom para você e sua família!

Resposta
Erika Martins Carneiro Maio 18, 2016 at 12:36 am

Que bom, Andrea! Fico feliz que deu tudo certo e que gostaram da Islândia. É realmente um país lindo! Espero poder revê-los um dia aqui.
Um abraço, muito obrigada por ler o blog!

Resposta
Arthur Soares F. de Matos Julho 4, 2016 at 8:02 pm

Cara Érika,
primeiramente parabenizo-a por seus ótimos textos (li e reli todos) sobre a vida e os costumes na Islândia; ainda mais para àqueles, como eu, que não tiveram a oportunidade de conhecer a ilha, ainda (rs!). Conheço muito a Islândia e ao mesmo tempo não conheço nada, pois, como disse nunca fui ao país, mas meu amor pela ilha vem de anos.
Apesar de advogado, desde criança amo e estudo geografia e, lembro-me que num dia qualquer de estudo, folheando o meu Atlas mundi, observei essa pequena ilha nórdica no globo que aguçou o meu interesse em estudá-la especificamente. De lá pra cá (mais ou menos uns 10 anos) não parei mais! Floresceu um amor especial por essa ilha.
Tenho alguns planos em mente relacionados à estudo da língua “in loco”, que apesar do grau de dificuldade me encanta. Mesmo com o dia a dia corrido e a falta de material a respeito, agregada, ainda, com a dificuldade do idioma, vou caminhando com os estudos. Estou tentando aprender, pelo menos o basicão do idioma (o que já é muito complicado por diversos fatores, dentre as quais, julgo ser a principal, a falta de convívio com o próprio idioma).
Enfim, não sei como funciona bem o ingresso nos estudos do idioma na Islândia, vou até pesquisar melhor, não sei nem se tenho “direito”, mas, ainda assim é um projeto que vai me requerer muitas coisas, dentre as quais, tempo para amadurecer de várias formas este projeto, apesar de ter me relatado que não gostou muito do método de ensino no estilo “islenska fyrir alla”!
Apesar das diversas influências linguísticas de outros países nórdicos, o islandês me fascina por sua singularidade! Me espelho muito no gaúcho naturalizado islandês Luciano Dutra (não sei se o conhece), acompanho sempre que posso a editora Sagarana Forlag pela internet, nem que seja para adentrar no site e me familiarizar com os escritos islandeses no próprio site.

A Islândia pra mim é mais do que um simples país!

Aproveito para agradecer à você também pela atenção para com nós, os leitores e admiradores de seus textos e da ilha, não só por aqui, mas, também, pelas redes sociais.

Takk óg bless.

Resposta
Arthur Soares Julho 4, 2016 at 8:04 pm

Cara Érika,
primeiramente parabenizo-a por seus ótimos textos (li e reli todos) sobre a vida e os costumes na Islândia; ainda mais para àqueles, como eu, que não tiveram a oportunidade de conhecer a ilha, ainda (rs!). Conheço muito a Islândia e ao mesmo tempo não conheço nada, pois, como disse nunca fui ao país, mas meu amor pela ilha vem de anos.
Apesar de advogado, desde criança amo e estudo geografia e, lembro-me que num dia qualquer de estudo, folheando o meu Atlas mundi, observei essa pequena ilha nórdica no globo que aguçou o meu interesse em estudá-la especificamente. De lá pra cá (mais ou menos uns 10 anos) não parei mais! Floresceu um amor especial por essa ilha.
Tenho alguns planos em mente relacionados à estudo da língua “in loco”, que apesar do grau de dificuldade me encanta. Mesmo com o dia a dia corrido e a falta de material a respeito, agregada, ainda, com a dificuldade do idioma, vou caminhando com os estudos. Estou tentando aprender, pelo menos o basicão do idioma (o que já é muito complicado por diversos fatores, dentre as quais, julgo ser a principal, a falta de convívio com o próprio idioma).
Enfim, não sei como funciona bem o ingresso nos estudos do idioma na Islândia, vou até pesquisar melhor, não sei nem se tenho “direito”, mas, ainda assim é um projeto que vai me requerer muitas coisas, dentre as quais, tempo para amadurecer de várias formas este projeto, apesar de ter me relatado que não gostou muito do método de ensino no estilo “islenska fyrir alla”!
Apesar das diversas influências linguísticas de outros países nórdicos, o islandês me fascina por sua singularidade! Me espelho muito no gaúcho naturalizado islandês Luciano Dutra (não sei se o conhece), acompanho sempre que posso a editora Sagarana Forlag pela internet, nem que seja para adentrar no site e me familiarizar com os escritos islandeses no próprio site.

A Islândia pra mim é mais do que um simples país!

Aproveito para agradecer à você também pela atenção para com nós, os leitores e admiradores de seus textos e da ilha, não só por aqui, mas, também, pelas redes sociais.

Takk óg bless.

Resposta
Raíssa Março 9, 2017 at 10:54 am

Oi! Estou indo pra Islândia em julho deste ano. Sabe me dizer se a sensação térmica de frio é mais baixa do que o do termômetro? Vi que geralmente faz mínima de uns 6 graus, mas a sensação é de quantos mesmo? Quero me preparar! hahaah Obrigada, adorei a matéria. Um beijo!

Resposta
Erika Martins Carneiro Março 9, 2017 at 1:57 pm

Olá, Raíssa,
obrigada por ler e comentar, fico feliz que você gostou!
O verão é bem ameno, mesmo, escrevi outro post só sobre o verão, veja aqui. A sensação térmica depende do vento. Se é um dia sem vento, parece estar muito mais quente do que o termômetro diz, ou seja, 12°C são sentidos quase como 20°C. Entretanto, se há vento – e o vento aqui é sempre forte! – , prepare-se para uma sensação térmica polar!
Como eu disse aqui neste texto, traga roupas impermeáveis (sempre pode chover!) e gorro e cachecol. Se você tiver sorte, pode pegar dias lindos aqui, mas se não, é melhor estar agasalhada.
Abraço e boa sorte nos preparativos da viagem.

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