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O que é “clasismo”, “arribismo” e aspiracional no Chile?

Foto: El Mostrador (reprodução)

06O que é clasismo, arribismo e aspiracional no Chile?

Se você é brasileira e mora no Chile, provavelmente, já ouviu falar de algum desses termos: clasismo, arribismo, aspiracional… Nunca? Pois hoje é seu dia de sorte. Vou explicar o que significam essas palavras, tentando responder a uma simples pergunta: será que o chileno é racista?

Sim, existe racismo no Chile e ele está fortemente misturado com o clasismo. Para não ficar apenas no achismo, vamos aos fatos. Uma investigação do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) constatou que quatro em cada dez chilenos sofreram discriminação nos últimos anos devido à classe social, ao lugar onde moram, às roupas ou ao trabalho.

Isso acontece porque no Chile existem três perguntas básicas que definem quem você é:  onde você mora, onde estudou e qual o seu sobrenome? Se você mora no setor oriente da capital, em comunas (bairros) como Las Condes, Vitacura ou Lo Barnechea, você está no topo da pirâmide social. Se leva os seus filhos a determinadas escolas onde apenas interagem com os seus pares, bom pra você. Se tem um sobrenome estrangeiro, melhor ainda!

Clasismo chileno

Parece piada, mas é a pura verdade. Desde a década de 80, o Chile utiliza uma convenção internacional que divide as classes sociais em ABC1 (topo do sistema), C2 e C3 (classes médias), D (pobreza) e E (pobreza extrema). Obviamente, o clasismo procura garantir que não haja nenhum tipo de mudança nessa estrutura. Isto é: quem nasceu nas classes D e E, provavelmente, continuará aí, assim como os que estão no topo do sistema, vivem numa espécie de bolha onde apenas convivem com seus pares.

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E onde entra o racismo? Essa estratificação social é apenas uma herança do racismo que perdura há séculos no país, desde a chegada dos espanhóis que dizimaram quase totalmente os povos originários do Chile. Aliás, dizer que alguém se parece a um índio é uma grande ofensa aqui.

Um dos episódios que retrata super bem o clasismo chileno aconteceu em 2019, antes da convulsão social que assolou o país de norte a sul. Foi durante o verão, quando três mulheres foram expulsas de uma praia pelo presidente de uma importante empresa de gás chilena. Apesar de estarem em uma área pública, às margens do Lago Ranco (no sul do Chile), as mulheres foram abordadas pelo empresário que exigiu que elas se retirassem do local. Uma delas gravou a abordagem e o vídeo viralizou nas redes sociais gerando grande comoção no país.

Na opinião do astrônomo José Maza, popular divulgador científico e um atento observador da realidade chilena, o episódio foi um dos elementos que contribuíram para a convulsão social no Chile em outubro de 2019: “No Chile há quem considere que quem não tem dinheiro também não tem dignidade e o mal-estar adormecido há muitos anos é o que está causando esse surto social”, analisou o científico numa entrevista.

Arribismo e aspiracional

Como se isso não fosse suficiente, a classe média também contribui especialmente para alimentar o pensamento elitista chileno. E como isso acontece? Através do que é conhecido aqui como arribismo e aspiracional.

Separei esses dois termos porque eles classificam dois tipos diferentes de integrantes da sociedade chilena, embora ambos sejam parte a classe média (C2 e C3). O arribista pode ser considerado aquela pessoa que conseguiu ascensão social, sem necessariamente ter nascido numa família tradicional da elite chilena, mas que faz questão de ignorar suas origens e, para isso, ostenta bastante sua riqueza.

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Conheci uma pessoa assim aqui, o gerente geral de uma empresa onde trabalhei. O pai dele era representante comercial no principal jornal do Chile e com esse emprego conseguiu pagar bons estudos ao filho. Apesar de não ter origens ou sobrenome pomposo, o filho conseguiu um importante cargo no ramo financeiro e fazia questão de esbanjar.

Numa ocasião, ele trouxe uma professora particular de inglês para os seus filhos diretamente dos Estados Unidos para um rápido intensivo antes das férias. Certamente, não havia necessidade porque no Chile há excelentes professores de inglês, inclusive nativos.

A necessidade de ostentar pode ser explicada pela difícil missão de furar o bloqueio da elite chilena que faz de tudo para que a pirâmide social não sofra interferências. É muito comum encontrar entre aqueles que ocupam cargos importantes no Chile (seja de esquerda, ou de direita) maridos, filhos, irmãos, primos ou cunhados, ligados a uma árvore genealógica que pode parecer impenetrável para o resto dos cidadãos.

Chileno aspiracional

Além do arribista, ainda existe o que se chama chileno aspiracional. São pessoas de classe média também, mas com menor poder aquisitivo, que conseguiram um emprego razoável, moram em bons bairros – apesar de não estarem em Vitacura, Las Condes ou Lo Barnechea. Não têm sobrenome pomposo, mas como conseguiram cumprir com alguns requisitos no rigoroso código social chileno, fazem questão de humilhar os demais.

Essas pessoas se sentem melhor convivendo entre seus pares, de preferência, fechado numa bolha porque, como o próprio nome diz, aspiram subir alguns degraus na sociedade chilena, sempre fechada. O aspiracional é alguém que não tem identidade própria, pois está sempre se olhando no espelho da classe alta. A publicidade no Chile retrata a classe média tal como ela se vê: loira, com a pele branca e grande influência cultural dos Estados Unidos da América e não da Europa.

Desigualdade social

Talvez você esteja pensando que isso não tem importância, pois acontece em qualquer lugar no sistema capitalista. Mas é por conta dessas diferenças sociais que o Chile hoje vive uma grave desestabilização social. De fato, é um dos países com maior desigualdade do mundo, com 0,52 no índice de Gini (medida de desigualdade desenvolvida pelo estatístico italiano Corrado Gini).

Vários outros números desnudam as diferenças sociais no Chile. Por exemplo, entre duas pessoas com a mesma formação profissional, uma pode ganhar até o duas vezes mais que a outra por conta da classe social de origem. E entre as pessoas que sofrem algum tipo de preconceito no país, em 43% dos casos, isso acontece por razões de classe: pela maneira como o indivíduo se veste, como se expressa ou por sua aparência física. Mesmo que você não concorde com esse panorama, provavelmente, os números mencionados vão fazer você repensar sua visão do Chile.

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