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Hungria

O que perdi ao mudar para a Hungria

Perder é sempre uma consequência das nossas escolhas. Tomamos decisões o tempo todo sobre a vida, desde as mais simples, sobre o que será o jantar, até as mais complexas, envolvendo moradia, relacionamentos e, principalmente, o futuro.

Poderia citar aqui muitas das perdas que tive desde que pisei em solo europeu, começando pela saudade imensa da família e todos os aniversários que acompanhei por chamada de vídeo. Outra grande mudança que me impactou foi a alimentação, que falta faz um açaí completo com frutas, granola e leite condensado… E a água de coco que tomava olhando o mar? Nem se fala!

O lado bom é que sempre nos adaptamos, parece que de alguma forma vamos aprendendo a administrar as emoções e seguir adiante, ainda que estar longe da nossa zona de conforto nunca seja tão fácil, o tempo mostra que com muita resiliência a gente chega lá.

Resolvi observar tudo com uma nova perspectiva e esse texto é sobre os hábitos que perdi, mas que perder nem sempre é ruim.

1) Vergonha

Aqui as pessoas são como elas querem ser, ninguém se importa com a sua roupa ou se aquele sapato já está um pouco sujo. Mais do que perder a vergonha de ser e sair como quiser, é entender a simplicidade que está por trás disso. No próprio ambiente de trabalho, cada um tem seu próprio estilo e ninguém julga o seu look do dia.

Não quero aparentar que todo mundo anda desleixado porque não é verdade, inclusive considero os europeus no geral super estilosos e bem arrumados. Só que se você estiver com preguiça, ou quiser ir de moletom no supermercado, está tudo certo, sabe? Ainda que em todos os lugares existam um certo padrão de beleza imposto, me sinto confortável com isso. Infelizmente, muitos ambientes corporativos no Brasil viram uma competição de moda, o erro não está em se arrumar, e sim quando isso começa a ser necessário só para impressionar e agradar (ou se destacar) diante da opinião alheia.

2) Olhar para os dois lados

Esse é um hábito que ninguém deveria perder, concorda? Eu também. No entanto, o trânsito aqui é tão organizado que preciso confessar, já atravessei sem nem olhar para o lado quando o verde de pedestres acendeu (mais de uma vez). Já dizia o provérbio: “O seguro morreu de velho”. Atenção é requisito básico para a segurança de todos, o que quero demonstrar é que alguns aspectos do trânsito no Brasil podem até acontecer aqui, mas são incomuns. Quer um exemplo? Semáforo amarelo, freia ou corre? Aqui eles respeitam muito, é comum pararem para pedestres atravessarem.

As bicicletas foram o que mais me impressionaram, a maioria dos ciclistas anda com apetrechos de segurança, são respeitados quando precisam seguir junto com os carros e ônibus nos trechos sem ciclovia e durante à noite estão equipados com refletores na parte de trás da bicicleta, que pisca para chamar a atenção dos motoristas.

3) Abrir a porta para dentro do estabelecimento

Além daquele clássico para quem lê a placa em inglês escrito PUSH (empurre) e tenta puxar (atire a primeira pedra quem não tem que refletir para acertar), a maioria dos locais você puxa a porta para fora e entra.

4) Deixar tudo pelo caminho e bagunçar

Esse hábito foi, na minha opinião, minha maior conquista. Era um defeito que eu precisava melhorar urgentemente, só que bagunçar é sempre mais fácil. Morar longe de casa me obrigou a ser mais organizada, o melhor conselho que recebi ao chegar foi: se seu quarto estiver organizado, a sua vida também estará. Se isso é psicológico ou real, o importante é que funciona!

Outro fator é a responsabilidade, eu sou a única responsável por organizar e manter todos os documentos importantes em ótimo estado de conservação e de fácil acesso. No Brasil, era muito fácil pedir outro RG ou uma segunda via de cartão, aqui o banco me cobra 100 reais e nem quero imaginar a dor de cabeça na imigração para que eles emitam a minha permissão de residência novamente.

5) Esperar pelo transporte público

Um dos principais critérios ao escolher onde iria morar foi a distância para um transporte público. São apenas 3 minutos até o metrô ou até o tram (uma espécie de VLT – Veículo Leve sobre Trilhos). Meu deslocamento até o trabalho exige que eu utilize o tram diariamente e ele passa a cada 2 minutos. O transporte público também fornece opções noturnas, garantindo que eu chegue em segurança a qualquer hora e sem esperar muito.

6) Medo de ser assediada

Quando penso em segurança, não é só pelos bens materiais, sendo mulher, precisamos pensar também na integridade física.

Infelizmente, eu tinha muito medo disso no Brasil, pois os homens mexem o tempo todo (não importa a roupa) e é tão normal que virou parte da rotina – sinto muito que isso seja visto como banalidade.

Aqui posso usar qualquer roupa e nos últimos 3 meses não ouvi nada desrespeitoso. Já utilizei shorts várias vezes e muitos homens sequer olham, não poderia escolher lugar melhor para viver!

Olhando como a vida mudou, o saldo é sempre positivo e fico feliz em poder compartilhar bons relatos sobre perder hábitos e ganhar qualidade de vida.

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5 comentários

Danilo Imperi Setembro 6, 2017 at 10:34 pm

Show parabéns , continue nos mandando os Links…. acompanho todos .

Resposta
Mayra Di Domenico Outubro 27, 2017 at 11:23 pm

Muito obrigada pelo incentivo! 🙂

Resposta
Solon Mota e Silva Outubro 8, 2017 at 1:23 am

Muito bem ! és espontânea e tens experiencia internacional.Porém não mencionaste a grande dificuldade de aprender a língua húngara e o clima muito frio.

Resposta
Mayra Di Domenico Outubro 27, 2017 at 11:25 pm

Muito obrigada!!
Nenhum lugar é perfeito, realmente o idioma e clima influenciam bastante. Estou pensando em um post para falar desse outro lado, continue acompanhando 🙂

Resposta
Thiago Szabo Novembro 24, 2017 at 9:39 am

Uau! Seus posts são muito bons! Acompanho todos e repasso aos amigos! Continue por favor!!

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