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Textos coletivos

Profissional no Brasil, dona de casa no exterior – Parte 2

Neste texto coletivo, que é a parte 2, algumas das colunistas do BPM contam como foi e está sendo a mudança no estilo de vida depois que foram moram em outro país. Elas são profissionais e tinham carreiras de sucesso no Brasil, mas hoje em dia são donas de casa e estão se redescobrindo. Algumas delas, além de aprender o idioma local estão fazendo cursos; outras, mudando de área ou se tornando mães. Veja a Parte 1 aqui.

Vamos ver alguns relatos:

Gabriela, EUA – Poderia me lamentar, dizer que sinto falta dos meus projetos, dos meus anseios profissionais e das minhas tantas conquistas a alcançar, mas prefiro olhar o copo meio cheio e perceber que, hoje, minha reunião mais importante é na escola da minha filha, onde serei apresentada aos seus professores e também ao complexo sistema de notas e avaliações. Tudo nessa vida pode ser contabilizado em perdas e ganhos e acredito que ganhei, de uma certa maneira. Preparo a marmita de almoço das minhas filhas todos os dias, assim como eu preparava os e-mails que tinha que responder. Acho tempo para meus cursos e enriquecimentos pessoais e às vezes, muito cansada, chego em casa onde uma pilha de roupas e louças ainda está a minha espera. Deixei de cuidar de artistas e exposições para cuidar de adolescentes, compras e cachorro e sou obrigada a confessar: essa tarefa, que é tão desvalorizada no Brasil, exige muito mais de mim do que minha antiga profissão. Deixei de ser produtora/curadora para ser psicóloga, economista, motorista, faxineira, enfermeira, cozinheira e por aí vai…. Prefiro dizer que saí ganhando: deixei de ser apenas uma para ser várias! Felizmente, aqui na terra do Tio Sam isso é visto como um emprego e na minha casa, o rendimento que é conquistado pelo meu marido é igualmente meu e não me sinto menosprezada por isso. Espero que um dia o Brasil também alcance essa maturidade e que ser dona (o) de casa seja uma atividade tão respeitada quanto qualquer outro emprego. 

Cíntia, Holanda – Sou de São Paulo e foi lá que desenvolvi minha carreira profissional. Aos 27 anos já havia terminado o mestrado e lecionava em diversas universidades, algumas delas de bastante renome. Paralelamente às aulas, também prestava consultoria em desenvolvimento de projetos, além da participação em palestras, cursos, etc. Ou seja, eu tinha uma carreira profissional movimentada. Ao me mudar para a Holanda, vim morar na área rural de uma pequena vila onde o supermercado mais próximo fica a 4 km de distância – uma mudança drástica. Porém o grande impacto veio com o nascimento da minha filha e foi quando me tornei dona de casa e mãe 24/7. Se eu disser que encarei tudo com tranquilidade e positividade, estarei mentindo. Foi um baque enorme: senti-me perdida e sem identidade. Eu já não era a Cintia professora, ou a amiga de infância, ou a colega de trabalho; eu passei a ser “a brasileira esposa do …..”. Ou seja, minha identidade se apagou e passei sempre a estar vinculada a outra pessoa e além, é claro, das inevitáveis perguntas na linha: “você pretende voltar a trabalhar logo?”  Resumindo, basta dizer que essa “crise” durou um período razoável, mas foi justamente encarando-a de frente e consequentemente refletindo e me questionando que consegui me harmonizar comigo mesma e perceber que, independentemente do papel social que eu exerça nos diferentes momentos da vida, o importante é me sentir segura e plena como indivíduo.

Polly, Abu Dhabi – A menina que nunca brincava de casinha acabou se tornando dona de casa. Antes disso, ela cresceu, estudou, se fez graduada e mestre, passou no concurso público que sonhava, casou e, quando tudo parecia ter chegado onde queria, percebeu que a felicidade completa não estava nos títulos que possuía, mas no que ela era capaz de ser, além do que era capaz de fazer. A menina, que vos fala, é extremamente feliz por ter encontrado em si as possibilidades de ser quem ela quiser e se esforça em extrair a melhor lição que a vida lhe dá, em cada fase diferente que está. Não há papel mais importante além do que o que você pode fazer agora. E não há gratificação maior em fazer o que quer que seja, sabendo do seu próprio valor e colocando sempre muito amor e boa vontade no que é feito. As oportunidades de crescimento, realização e serviço são infinitas, seja no ambiente de trabalho ou no lar sagrado. Em mim reside uma infinidade de meninas, e a elas dou o direito de escolher ser e brincar com o que quiserem. Hoje, elas escolheram a casinha. Amanhã, elas ainda possuem um mundo de descobertas e possibilidades.

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Gabriela, Arábia Saudita – Já sabia que ao ir morar com meu marido na Arábia Saudita as chances de conseguir um trabalho em minha área de formação seriam praticamente nulas. Mas ler o termo “housewife” no meu documento foi de doer o coração. No Brasil eu estava fazendo minha segunda faculdade e tive que largar tudo. Recém casada, vim com uma ideia fixa: não parar no tempo. Eu ia dar um jeito de me ocupar mesmo não trabalhando: aprimorar o inglês, fazer cursos on line, fazer unhas, fazer doces… Qualquer coisa. E por mais restrito que seja esse país, eu acabei me realizando por aqui. Fiz cursos na área de fitness, que sempre foi uma grande paixão, e hoje em dia trabalho com isso. O último curso que fiz foi o de instrutora de Pilates. Jamais poderia imaginar que aqui conseguiria tantas conquistas. Dar aulas em inglês é o que mais me realiza, pois vejo meu vocabulário e minha confiança crescendo cada dia mais. Superou todas as minhas expectativas. No fim o fato de vir PARA ser dona de casa me fez conseguir atingir objetivos que estavam adormecidos.

Tati, Canadá – No Brasil eu era produtora de televisão e uma máquina de trabalhar. Trabalhava no mínimo 14 horas por dia, sendo 11 oficiais e mais 2 de deslocamento pro trabalho, já mandando e-mails e falando ao telefone, e mais uma em casa, estudando para o dia seguinte. Hoje eu estou em casa pelo menos 20 horas do meu dia, curtindo meus gatos, cuidando da casa e fazendo comida para receber a namorada e os amigos, enquanto mando centenas de milhares de e-mails à procura de um novo emprego. A verdade é que se não precisássemos de dinheiro, poderia viver assim pra sempre e me dedicar a algum projeto meu. Amava meu trabalho, mas ter um tempo para si é fundamental. Meus gatos agradecem. E olha que eu não tenho filhos ainda. Digo “ainda”, por que aqui se tem a sensação de que dá tempo de tê-los.

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6 comentários

Maila-Kaarina Rantanen Outubro 18, 2016 at 6:28 pm

Adorei o texto! Acho muito importante e inspirador mostrar que ser dona de casa é tão grandioso quanto qualquer outra opção que façamos em nossas vidas. O conceito de carreira é muito mal colocado quando associado somente a um emprego, somente à vida de profissional assalariada. Carreira é desenvolvimento de todo o trabalho que você realiza em seu dia a dia, em sua vida. É tudo com o que você aprende produzindo e produção vai muito além de se ter um emprego. Parabéns a todas vocês por terem tido coragem de deixar para trás, recomeçar e a redescobrir os sonhos.

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Carmem Galbes Outubro 18, 2016 at 7:19 pm

Show essa iniciativa! Quantas mulheres se perdem na amargura, queixas e desânimo e deixam passar uma das experiências mais extraordinárias que se pode ter: viver em outra cultura.

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Alana Outubro 19, 2016 at 3:20 am

Muito legal ver as opiniões de todas essas mulheres… Estou há um mês com meu marido na Austrália. No Brasil tinha acabado meu mestrado há pouco tempo, mas era dona de casa… Por aqui não sei o que me aguarda… Mas estou confiante que tudo dará certo 🙂

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Maria Laura Outubro 19, 2016 at 4:40 pm

Interessante todos os comentarios. Mudar de pais e adaptar-se aos costumes de outros povos è um desafio que nao è facil de conquistar. Moro na Italia faz dez anos. Sempre trabalhei e adorava minha profissao de advogada, em Sao Paulo. De repente tudo mudou. Deixar tudo e vir aqui viver a vida do namorado italiano foi um estalo de dedos, e em seguida o casamento. Por que deveria obriga-.lo a ir morar no Brasil, se eu podia ,perfeitamente, fazer as malas e me transferir pra Italia? Para nos mulheres adaptar è uma constante. Afinal, nascemos nos adaptando a tudo. Vcs. se perguntarao se valeu a pena. Obvio que valeu, e muito. Conheci um lado meu que nao sabia existir. Vivo a calma, a tranquilidade, aprendi a pensar por dois e nao so por mim, a dividir tudo, bem como aprendi a viver um dia de cada vez, sem ansiedade. Quanto aos costumes da gente da pequena cidade onde vivemos, anda estranho alguns. Porem nao me rebelo, so me faço respeitar.

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Evelyn Julho 9, 2017 at 10:42 pm

Eu AMO esse blog!

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