A Bósnia e Herzegovina e a Diáspora

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Foto: Pixabay.com
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A Bósnia e Herzegovina e a Diáspora.

O termo “diáspora”, em grego clássico, significa dispersão e está comumente associado ao deslocamento involuntário de um povo ou etnia para várias regiões do mundo. A diáspora mais famosa talvez seja a judaica. Contudo, muitas outras ocorreram ao longo dos séculos como a diáspora africana – quando os africanos eram enviados para outros países como escravos – a diáspora armênia – que teve o seu auge em 1915 quando o governo otomano massacrou milhares de armênios no episódio que ficou conhecido como Holocausto Armênio – e a diáspora brasileira – ocorrida no final da ditadura militar e que parece estar se repetindo nos dias atuais quando milhares de brasileiros têm saído do país em razão da recessão econômica e do aumento da violência.

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Apesar de ser pouco mencionada por estudiosos, houve também a chamada diáspora bósnia. Durante a Guerra da Bósnia (1992-1995) houve um verdadeiro êxodo para outros países da Europa. Muitas famílias literalmente entregaram todos os bens que possuíam para conseguir atravessar a fronteira e chegar a um lugar seguro, perseguidas, principalmente, por questões étnicas. No início do ano de 1994, já era praticamente impossível sair do país. As fronteiras haviam sido fechadas e eram bem vigiadas. Quem teve sorte, conseguiu escapar nos dois primeiros anos da guerra. Infelizmente, muitos ficaram.

Na época do conflito, países como Alemanha, Suécia, Suíça e Áustria foram os que mais receberam refugiados. Assim, não é de hoje que a Alemanha possui a política de acolhimento que demonstra com os refugiados do Oriente Médio e, não é de hoje, que o país recebe muçulmanos (vale lembrar que a Bósnia e Herzegovina sempre foi um país metade cristão e metade muçulmano).

Após a guerra, muitas famílias retornaram à Bósnia e Herzegovina. Algumas porque o visto havia expirado. Outras, por escolha. Reconstruíram suas casas e, da melhor maneira possível, também reconstruíram suas vidas. Quem optou por ficar no novo país, o fez por escolhas particulares. Algumas pessoas preferiram a nova vida, em um lugar mais economicamente avançado e que oferecesse mais oportunidades de emprego. Outras, tinham medo de sofrer perseguição ao retornarem. Para muitas, retornar era algo extremamente doloroso. Era ver o algoz de seus familiares caminhando impune pelas ruas da cidade. Era olhar para um campo florido e se perguntar se era ali que estava enterrado o seu irmão. Era ter uma lembrança dolorosa a cada esquina.

Retornar ou não ao país de origem após um conflito armado é algo particular de cada um. Só o próprio indivíduo sabe se possui a estrutura emocional necessária para voltar e ver sua terra natal dilacerada. Conheço pessoas que retornaram e são felizes hoje vivendo aqui. Outras, não pensam nunca mais em morar aqui e só vêm para visitar os poucos parentes que ficaram. Outras, nunca mais nem colocaram os pés no país. Não nos cabe fazer qualquer juízo de valor. Cada um sabe pelo o que passou. Cada um sabe dos seus próprios sentimentos.

Após a guerra, a Bósnia e Herzegovina ficou destroçada e o país afundou economicamente. Essa situação se perdura até hoje e a nação está bem atrás dos seus vizinhos Sérvia e Croácia, por exemplo. A falta de emprego e os baixos salários fazem com que os jovens abandonem o país em busca de uma vida melhor. Muitos já entram na faculdade – de medicina ou enfermagem, por exemplo – com o intuito de mais tarde imigrar para os países da União Europeia. A saída do país de mão de obra jovem é tamanha que a situação já vem preocupando alguns estudiosos.

Na pequena cidade onde moro, essa situação é latente. A maioria dos jovens que conheço, ou estão se mudando para outros países, ou pretendem fazê-lo, ou têm um irmão, primo, parente que já tenha se mudado ou esteja se mudando. Muitos são incentivados pelas próprias famílias a saírem do país. O destino mais procurado atualmente é a Alemanha.

Entretanto, existe um fenômeno curioso. Da mesma forma que muitos habitantes da Bósnia e Herzegovina anseiam por saírem do país e terem uma vida melhor, essas mesmas pessoas anseiam por retornarem nas férias. De fato, há um verdadeiro êxodo inverso e o país, no verão, fica lotado. São filas e mais filas de carros na fronteira com placas da Croácia, Eslovênia, Áustria, Suíça, Alemanha…Todos aguardando a sua vez para adentrar na prima pobre Bósnia e Herzegovina.

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A minha pequena cidade, que costuma ver seus habitantes indo embora, recebe de braços abertos esses mesmos filhos pródigos no verão. O número de pessoas entre julho e setembro chega a triplicar e você se surpreende como uma cidade tão pequena consegue comportar tanta gente. As ruas, bares, restaurantes… Tudo fica lotado. A cidade, tão pacata e que sofreu com a guerra no passado, ganha vida e se torna um lugar extremamente alegre.

Acredito que essa alegria seja reflexo daqueles que chegam para passar o verão na cidade. Parece que “o pessoal da diáspora” – como são chamados – aguardam o ano inteiro por esse momento: quando finalmente podem voltar para sua terra natal, para tudo o que lhes é familiar. De fato, a alegria daqueles que regressam é visível. Está estampada em seus rostos.

Entretanto, assim como tudo na vida, o retorno dessas pessoas também traz algo negativo: tudo encarece. Como é a época em que a cidade ganha mais dinheiro, os preços sobem. De tudo. Desde alimentos até varal de roupas. Os habitantes daqui já sabem: é preferível esperar até o pessoal da diáspora ir embora para comprar as coisas não imediatas.

O que eu pude observar nesse tempo aqui é que não importa o motivo que tenha levado a pessoa a ir embora: uma guerra ou falta de emprego. A verdade é que sempre doloroso abandonar a sua terra natal.

Você pode sair do seu país, mas o seu país nunca sai de você.

Até a próxima!

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