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A briga na pracinha em Viena

Narrarei o ocorrido em um dia comum, quando levei meu filhinho a uma pracinha em Viena. Dia normal de qualquer mãe ou pai, mas o que eu iria levar dali – isso, sim – não estava dentro da caixinha daquilo que conhecemos por corriqueiro.

Vamos lá!

Quando:  um dia qualquer em 2013.

Onde: Viena, em uma pracinha infantil.

O quê: conflito infantil por bonequinhos em uma caixa de areia.

Personagens: 2 menininhas de, no máximo, 3 anos de idade.

Leia também: Tudo que você precisa saber para morar na Áustria

Estou sentada em uma das bordas da caixa de areia. Meu pequeno, contando ainda meses de vida, estava dentro, brincando com seus bichinhos.

Do outro lado, vejo duas meninas, brincando com suas bonequinhas e pazinhas de areia. Uma delas estava acompanhada da mãe. A outra, até aquele momento, sozinha.

Percebo certa tensão quando uma delas disse: “essa pá é minha. Me dá!”

A receptora da ordem, já indignada: “Isso não te pertence. Isso é meu. Não vou te dar! É meu.”

Segundos de eletricidade no ar e a mãe que estava junto não moveu um músculo. Eu, observando aquela cena achei o cúmulo da falta de cuidado, pois a escalada de “violência” era iminente. Ingênua eu, que estava prestes a receber uma das minhas primeira lições de maternidade na prática, aqui na Terra de Mozart. Eu era mãe por alguns meses apenas, inexperiente até o fio dos cabelos. Vamos adiante.

Conforme previsto, a tensão aumentou entre as duas pequenas, a ponto de começarem a puxar os brinquedos uma da outra. Nesse exato momento, prestes a começarem as “agressões físicas”, a mãe presente fez uma orientação a sua pequena: “minha filha, diga a sua amiguinha que, por favor, devolva o brinquedo, porque ele te pertence”. A guriazinha assim o fez. Repetiu exatamente o que a mãe lhe houvera dito. Não obteve sucesso. A outra continuava a agarrar as coisas como se suas fossem.

Nesse meio tempo, vejo a mãe da “agressora” também sentar junto a caixa de areia, também sem mover um músculo, e dizer: “minha filha, devolva imediatamente o brinquedo da amiguinha.” A pequena ainda insistiu e a ordem veio como um machado: “devolva imediatamente por favor. Isso não te pertence!” Com lágrimas nos olhos, ela entregou os pertences da coleguinha, que agradeceu e começou a guardar suas coisinhas numa sacola. Ambas mães se olharam, sorriram, pegaram suas duas filhas e foram – todas, mães e filhas – tranquilas para casa.

Após essa aula de diplomacia aplicada à infância, peguei-me estonteada, pois meu ímpeto de mãe latina seria já tirar o brinquedo da mão da pequena revolucionária e devolvê-lo, eu mesma, ao meu filho se fosse o caso.

O soco que levei na boca do estômago foi pelo fato de ver, com meus próprios olhos, que crianças muito pequenas – com auxílio, claro – conseguem sozinhas dirimir seus conflitos.

Tentei projetar minha reação àquela cena recém vivida. O que eu estaria ensinando ao meu próprio filho se eu tivesse pego o brinquedo da mão da menininha? Que ele não precisa lutar pelas suas coisas, porque, afinal de contas, a mamãe resolveria. O que eu estaria deixando de ensinar? Que voz própria não é tão importante assim, afinal de contas, tem a voz da mamãe. Que mensagem eu estaria passando a ambas crianças com essa minha atitude primitiva? Que qualquer diferença se resolve na base do autoritarismo, da falta de diálogo e do desrespeito!

Fiquei quase estarrecida com a quantidade de implicações negativas que a minha atitude “militar” teria, caso eu fosse uma daquelas mães. Nenhuma das respostas acima eu gostaria de incorporar à educação do meu filho, mas, por força do condicionamento trazido da minha terra natal, seria esse o resultado.

Ali, naquele singelo dia, aprendi que criancinhas pequenas podem ser autoras da sua própria história de vida. Elas são sujeito, não objeto dos pais ou responsáveis. Elas conseguem se expressar quando a ocasião lhes exige. O exercício constante de solucionar conflitos de forma civilizada e pacífica começa exatamente nessa idade e requer a presença firme, mas “invisível”, das mães e pais para que melhor conduzam a educação desses pequenos nesses momentos ainda difíceis e confusos para eles.

Ali, naquele singelo dia, aprendi que, quanto mais autonomia saudável e consequente se proporcionar aos pequenos, tanto melhor adultos serão. E isso funciona muito bem!

Por experiência própria, agora, utilizo-me dessas mesmas ferramentas para aplicá-las na instrução do meu filho. Quando situações dessa magnitude acontecem, atuo no sentido de empoderá-lo a agir e falar por si mesmo, embora meu impulso – ainda e sempre – latino tente me demover desse projeto para resolvê-lo à força.

Meu pequeno já está com 6 anos, então, já me peguei, em algumas circunstâncias, desempenhando o mesmo papel daquelas mães da pracinha em Viena, com quem aprendi uma lição de vida, de maternidade e de respeito ao próximo.

Em uma das palestras de formação de pais no Jardim de Infância do meu filho, foi-nos “ensinado” exatamente o resumo dessa minha narrativa: as crianças podem muito mais do que nós, adultos, as permitimos fazer. Em muitas vezes, os adultos projetam a reação da criança, o que não significa que ela irá reagir exatamente como o adulto projetou.

O grande desafio é aprender a aprender com os pequenos (isso mesmo). Não digo aqui para liberarmos todos os limites e invertermos papeis. De forma alguma, pois são os limites e os papeis claramente definidos que formam o caráter de nossos pinguinhos. O que proponho é não termos medo de deixá-los experimentar, por si – toda vez que possível e quando saudável for – vivências seguras e positivas. Vale a pena a tentativa!

Abraço e até a próxima!

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2 comentários

ana costa Abril 4, 2019 at 12:51 am

bem, se vc disse q a ordem veio como um machado… entao foi autoritario, militar, sem diálogo, exatamente como vc disse q seria a sua reação. vc esta idealzando o comportamento das maes europeias…. a atitude delas é exatamente a minha.

Resposta
Ana Dietmüller Abril 4, 2019 at 8:53 am

Alô, Ana!

Obrigada por ler e comentar.

Não se trata de idealização, porque se você recorrer ao texto, quando eu registro que a ordem “veio como um machado”, essa expressão nada mais quis dizer que se tratava da segunda vez que a mãe solicitava algo à pequena e, dessa vez, teve de se utilizar de firmeza.

Se fosse, “militar” como tu referiste, não haveria um “por favor” na frase da mãe. A expressão “por favor” não pode coexistir com militarismo ou autoritarismo. A mãe foi firme. Militar e autoritária teria sido a minha pronta reação em tirar o brinquedo da pequena e entregar ao meu filho se fosse o caso.

A intenção do artigo não foi dar lição a ninguém ou ensinar coisa alguma e nem fazer comparativos mães brasileiras x mães austríacas. É uma crônica, o retrato de um aprendizado meu e isso está bastante claro no texto.

Abraço e até a próxima!

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