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Outono na Áustria

Outono na Áustria.

Geralmente fala-se bastante das estações mais intensas, como verão e inverno, mas garanto pra vocês que o outono na Áustria vale um artigo.

De início, esqueça tudo o que você sabe sobre outono no Brasil. Não é possível fazer comparação entre um outono ou outro. Aqui, há pontos bem definidos como o início da falta de sol e as temperaturas muito baixas.

Logo que vim morar aqui e passei meu primeiro outono portanto, eu sentia uma coisa estranha que custou a internalizar meu software cerebral: anoitecia por volta das 16:00. Desavisada, eu começava a correr e ajeitar o nenê para dormir, além de iniciar os preparativos para a janta. Olhava no relógio e? 17:30! Parava tudo, respirava e quase desenvolvi um mantra para assimilar aquela alteração da natureza pela qual eu – no Brasil – nunca havia passado: “estou em outro continente; estou em outro hemisfério; estou em outro continente; estou em outro hemisfério”. Agora, já há 7 anos aqui, é automático. Já sei que por volta das 15:30 começa a escurecer e pelas 17:00 é noite fechada.

Outra situação que me surpreendeu nos primeiros tempos foi o fato de as temperaturas – no outono – já chegarem abaixo de zero. É bastante comum e, dependendo de onde se more, até nevar, neva. Mais uma vez, no início, aquilo chegava a me irritar – pura idiotice, porque não é possível se contestar a natureza -, mas depois, fui ambientando e, hoje, já acostumei. Mas, até processarmos a informação de que é necessária uma jaqueta térmica para sair de casa em pleno outono, custa.

Leia também: Tudo que você precisa saber para morar na Áustria

Uma terceira circunstância bastante característica dessa época do ano é que as folhas das árvores mudam de cor e, após, caem todas: só ficam os galhos para suportar o rigor do inverno. O colorido e a vegetação normal renascerá na próxima primavera. Para nós, brasileiros, acostumados com vegetação inclusive no inverno, é um choque olhar para a paisagem outonal austríaca: apenas galhos secos, aparentemente sem vida, tristes e cinza. Soa um pouco depressivo, pois não cresce mais nada, não floresce mais nada, não brota mais nada.

A natureza se autoprotege em preparação à estação mais rigorosa do ano. A única beleza que existe nesse ritual é a alteração de cor das folhas das árvores. Os bosques e florestas se cobrem de um verde escuro, marrom, laranja, amarelo e, dependendo da árvore, roxo. É um verdadeiro espetáculo aos olhos o que a mãe natureza é capaz de nos apresentar.

Para a minha pessoa e para todos que tem grandes árvores em seus jardins, essa fase do ano é um pesadelo, pois é necessário limpar as folhas que caem, de minuto em minuto, de hora em hora, por dias a fio. Há quem diga que se pode deixar as folhas acumuladas no chão e só voltar a mexer no jardim na primavera. Ok, pode servir de material de adubo, mas até se transformar em adubo, elas estão agregadas em altura considerável (10, 15 cm do chão, mais ou menos), em montes e úmidas, molhadas, pastosas com a decomposição.

Nessa etapa imagino que o jardim passe a qualidade de pântano. Eu, particularmente, prefiro varrer, sugar e triturar as folhas. Armazenamos nos sacos próprios e levamos o material ecológico ao depósito verde da prefeitura do nosso distrito. Aqui, não podemos jogar restos de vegetação, galhos ou poda em qualquer lugar sob pena de multa.

É um trabalho hercúleo, mas graças a Deus, há o sugador/triturador, que ajuda bastante na tarefa. Temos uma cerejeira de 6 metros de altura no pátio. O que cai de folhas é inacreditável e intermitente. Eu passo uma hora limpando e, quando termino, já está tomado delas novamente. Um trabalho de Sísifo até cair a última folhinha. Quando isso ocorre, é sinal de que o inverno já está na porta e retornaremos ao jardim somente no próximo ano, na primavera.

Em contrapartida a esses “dissabores”, há obviamente a parte boa: as casas ficam constantemente iluminadas, dando um ar acolhedor a quem chega; é tempo de começar a tirar as receitas de sopas, chás e biscoitos da gaveta e colocar a mão na massa. Há festas tradicionais como a Festa da Colheita (Erntedankfest) em que o país inteiro, em cada comunidade, celebra o que a natureza ofereceu durante a primavera e o verão, enchendo a mesa e as gôndolas de supermercados de alimentos e bebidas, produzidos pelos agricultores austríacos.

É um momento de reflexão, sobretudo na esteira do Fridays for Future, a respeito do que fazemos com a mãe terra e as consequências disso. A representante nacional dos agricultores austríacos, em discurso na Festa da Colheita do nosso distrito, indagou às crianças (Jardim de Infância e Escola Primária sempre fazem suas apresentações musicais no evento) e a toda a comunidade do bairro: “é realmente necessário que tenhamos morangos em dezembro (aqui, o tempo natural de morangos se inicia na primavera, ou seja, entre maio a junho/julho)? É realmente vital que façamos alimentos atravessar o oceano para que os tenhamos o ano inteiro, sem pausa, nas nossas mesas?

Não seria mais fácil, barato e cuidadoso com o clima que voltássemos a consumir aquilo que a terra nos dá quando ela nos dá?” Bastante lúcida e corajosa a posição da fazendeira. Nem todos os agricultores têm a mesma opinião, mas é, no mínimo, um alívio tomar conhecimento de que a representante de todos os agricultores do país partilha dessa convicção.

Ainda na parte boa do outono local, há as maravilhosas confeitarias. Nada mais agradável que entrar em um café ou uma confeitaria, sentar-se e pedir um pedacinho de torta, uma bebidinha quente e ler o jornal ou a revistas que esses locais dispõe aos clientes. Sem pressa, sem correria.

Como última dica sobre o positivo do outono, as temporadas de teatro, ópera e concertos já estarão reiniciando suas atividades. Tire um tempinho para procurar alguma atração que lhe agrade e vá, mesmo que você não entenda alemão. Vá! Museus e galerias de arte também são excelentes entretenimentos nessa época do ano.

Aproveite!

Até o próximo mês!

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