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Áustria COVID-19

A pandemia e a infância na Áustria

A pandemia e a infância na Áustria.

2020!

Ano extremamente amaldiçoado por todos. Ano do surgimento de uma pandemia mortal! Não há canto do mundo que não tenha sido afetado!

Na Áustria não foi diferente!

Um primeiro panorama:

25 de fevereiro foram oficializados os primeiros dois casos de coronavírus em solo austríaco. Em 15 de março, o governo decreta um plano de salvação inexistente desde a Segunda Guerra Mundial: a vida normal desaparece e a palavra lockdown ocupa todos os corações e mentes de quem mora na Terra de Mozart.

O país foi reduzido ao básico de funcionamento: pode-se sair de casa apenas para:

1) trabalhar (quem não possa fazer home office);

2) para comprar alimentos (supermercados);

3) para se ir à farmácia ou;

4) auxiliar parente em estado de vulnerabilidade (pessoas idosas que moram sozinhas, por exemplo). Serviços bancário e de correios estavam, igualmente, disponíveis.

Sem essas 4 justificativas não era possível deixar a casa, sob pena de explicações à polícia e, no caso insatisfatório, multa. Literalmente nada mais estava aberto. Nada mais funcionava. Nada!

Veja aqui tudo o que você precisa saber para morar na Áustria

O anúncio à nação de medidas tão extremas veio inicialmente através da infância: “a partir de 18 de março, todas as escolas do país fecharão!”.

Assim começou a coletiva de imprensa que informou à Áustria a gravidade do momento e a necessidade de nos mantermos todos em casa, sem qualquer contato social.

Medo, muita apreensão e incerteza, mas o alento de que o governo estivesse fazendo o melhor que poderia para salvar a vida da maioria da população.

Acompanhávamos condoídos os acontecimentos dramáticos de nossa tão querida vizinha, Itália: mil mortos por dia. Temíamos por nossas vidas e pelas vidas de todos. 95% dos habitantes da Áustria seguiram à risca o plano traçado pelo governo.

Ensino à distância e isolamento

E isso passava também por manter todos os estudantes do país dentro de casa. Nós, pais, mães, professoras e professores não sabíamos, exatamente, o que ocorreria durante e após esse cenário tétrico.

Mas, ainda assim, cumprimos o que nos foi solicitado pelas autoridades: “pais, mães, assumam grande parte do ensino de seus filhos e filhas; docentes, assumam a tarefa de conduzir o ensino à distância da melhor maneira que puderem”.

Em cadeia nacional, o Presidente da República, dirigindo-se à nação em discurso de acolhimento, encorajamento e união, faz agradecimento especial às crianças do país pelo sacrifício de precisarem ficar, por um tempo, sem ver a vovó o vovô e os amiguinhos.

A infância afetada:

Meu filho estava, à época, na Primeira Série. Nossa escolinha primária decidiu não colocar as crianças que, nem alfabetizadas ainda estavam, em frente a um computador.

Tudo foi organizado da seguinte maneira: material impresso seria disponibilizado em ponto de coleta, do lado de fora da escola, para que pais e mães pudessem buscá-lo e devolvê-lo para a correção por parte dos professores.

Toda a sexta-feira, entregávamos o material trabalhado e buscávamos a nova grade de atividades com novos exercícios.

Ensinar sobre o corona em tempo record

É necessário ressaltar que ainda quando as crianças estavam em aulas presenciais, elas foram preparadas para o que estava por vir: foram ensinadas, em tempo record, sobre o “corona” e sobre como se proteger e quem proteger contra ele.

Como se proteger? Meu filho chegava em casa e ia direto para o banheiro. Começava a lavar as mãozinhas e contava até 20. E dizia que a professora havia ensinado a sempre lavar as mãos.

Nós, pais, compreendemos que havia sido dado, então, um treinamento relâmpago às crianças. Nós não tivemos tempo para isso. A escola o fez. Quem proteger? Os vovôs e as vovós, por isso, por um tempo, era preferível que eles – crianças – não os visitassem. O básico sobre covid-19 as crianças trouxeram para casa.

Stress, mas ainda assim, alguns privilégios

Preciso dizer que sou privilegiada, porque temos espaço suficiente dentro de casa para que meu filho possa aprender na privacidade de seu quarto e meu marido possa fazer seu home office também sem interrupções.

Temos equipamentos eletrônicos (computadores, notebooks, tablets e impressoras) suficientes para suprir a demanda exigida. Entretanto, não é e não foi assim para todos.

Fora a surpreendente circunstância de ter de auxiliar fortemente os filhos a aprender disciplinas escolares, havia o stress – relatado por muitos – de  não se ter computador para todos, de não haver espaço suficiente para todos da família na casa ao mesmo tempo.

Impacto da pandemia nas crianças

Casos de a criança perder completamente o interesse, de achar que estava em férias, de se negar a aprender, de apresentar comportamentos inusitados como medo demasiado ou raiva, e assim por diante.

Para nós, pais e mães, não estava sendo fácil, porém, para os pequenos, menos ainda.

Meu pequeno é muito tranquilo em tempos normais. Durante esse período eu perguntava se estava tudo ok, se ele sentia a falta dos amiguinhos e só recebia um “tudo ok, mami” como resposta. Ele tem apenas 7 anos.

Após 2 semanas de lockdown, elegeu seu ursinho de pelúcia como amigo inseparável e – literalmente – passou a fazer tudo com o boneco, coisa que nunca foi assim.

Comer, dormir, tomar banho, assistir TV, jogar videogame, brincar, andar de bicicleta (o urso ia amarrado ao guidão) nada se iniciava se o urso não estivesse presente.

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Como mãe, liguei meu radar de forma mais apurada. E, para resumo, quando ele não podia estar com o ursinho, eu precisava cuidar do brinquedo de uma forma bastante peculiar: ele precisava ficar dentro da minha blusa.

E não era aceita outra forma de cuidado. Perguntei, então, a meu pequeno por que razão o Teddy precisava ficar dentro da minha roupa. A resposta: “porque lá fora é muito perigoso pra ele, mamãe”.

Estava mais do que evidente de que meu filho estava sofrendo – silenciosamente – os efeitos negativos do confinamento. E, como ele, todas as crianças do país. O que viria a ser confirmado meses após o término do primeiro lockdown.

Controlada essa primeira fase da pandemia; os números de contaminação favoráveis, nosso primeiro lockdown teve fim em 01.05.2020.

A volta à vida escolar

Em 18.05, como os números continuavam baixos, o governo dá sinal verde para que escolas primárias e jardins de infância voltem a funcionar. Foram os últimos da cadeia estudantil a retornar.

Sob fortíssimo esquema sanitário, as crianças – cujos pais assim desejassem e não tivessem nenhum parente ou não fossem, elas próprias, membros de grupo de risco – voltaram sob uma realidade totalmente alterada.

Precisaram se acostumar a uma turma com apenas metade dos coleguinhas, aprender a usar máscara ou viseira, a se doutrinar a não tocar em ninguém, em nenhum amiguinho e nem pedir ajuda, pois contato físico era proibido.

Além disso, desinfetar suas mãozinhas na entrada, durante e na saída da aula começou a fazer parte da rotina. Também a se acostumar a fazer a pausa dentro da sala de aula, sentados em suas classes ou totalmente ao ar livre, distanciados, a pelo menos um metro, dos coleguinhas.

Por fim, precisaram a se acostumar a rumar sozinhas para dentro da escola, visto que pais e responsáveis tinham autorização de ficar apenas no estacionamento e não mais nas escadas de acesso do estabelecimento, sendo sua entrada, inclusive, vedada.

E, ao final de uma semana de treino, os pequenos  da nossa escolinha, já faziam todos os procedimentos sozinhos, sem auxílio de qualquer professor ou professora. Condicionamento, infelizmente, necessário

Para minha surpresa, nosso pequeno adorou o primeiro dia de retorno. Somente ele e a professora utilizavam uma viseira! Ele achou o máximo. Os demais coleguinhas usavam máscara.

Aos poucos, durante a primavera, as coisas tomaram um ar de “pseudo” normalidade. Tudo estava tão bem que era possível fazer visita e receber visitas. Para as crianças, o melhor dos mundos: brincar novamente com os amiguinhos.

Segundo lockdown:

Ocorre que o verão, a falsa sensação de segurança e extrema irresponsabilidade de alguns jogou a Áustria no pior dos cenários, agora, durante o outono.

O que o governo tentou evitar não foi possível: em 17 de novembro iniciou-se novo lockdown total no país. O que se tentou manter aberto, por questões de preservação da saúde mental infantil, também não foi possível: todas as escolas foram, mais uma vez, fechadas.

Todas as crianças estão, pela segunda vez, sem o convívio social na escola ou na vida privada. Não houve outra alternativa.

Mensagem para o Brasil

E aproveito para fazer um apelo a quem me lê no Brasil: por favor, não facilitem!

O sol e o calor são bons, trazem bom ânimo, mas o vírus não tira férias!

Por isso, NUNCA ESQUEÇAM: higienizem as mãos; não se aglomerem; mesmo que se use máscara, mas havendo contato muito próximo, ela não funciona (o vírus pode adentrar pela mucosa dos olhos ou dos ouvidos); não mantenham contatos sociais desnecessários; pensem na vida dos trabalhadores essenciais, sobretudo da saúde!

Pensem em quem precisa de um lugar no hospital, não por corona, mas por algum tratamento especial ou doença crônica! Sejam solidários, cuidem de si, dos seus e de todos.

Falo isso para que não tenham de passar pelo que a Áustria e toda a Europa está passando.

Leia também: E a tal vacina?

Sistemas de saúde modelo no mundo estão à beira do colapso. Não é apenas uma gripe e não é MENTIRA. É real e pessoas morrem! E os efeitos colaterais na economia são quebradeira de empresas e mais desemprego em massa!

A vacinação no país já está toda planejada. Se tudo correr bem, de janeiro até maio de 2021, toda a população estará imunizada.

Entretanto, todo o dia a mais que nossas crianças necessitam ficar sem contato social é um dia a menos de infância. Não faço crítica ao governo. Foi feito o que era necessário.

De toda parte, como mãe e adulta pensante, não há como fechar os olhos ao que virá dos pequenos mesmo quando a pandemia for declarada por vencida.

Uma nova etapa para todos nós, como genitores, docentes, profissionais de saúde e nação!

Cuidem-se!

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2 comentários

Marina Janeiro 12, 2021 at 5:34 pm

Bom Dia, Ana! Estou buscando os documentos necessários para ingressar em cursos bacharel na Áustria. Com isso, me deparei com o “Certificate of special university entrance qualification” e não consigo pesquisar sobre ele em Português para saber como conseguir. Você saberia qual o termo correto? Perdão pelo comentário fora de contexto.

Resposta
Ana Dietmüller Janeiro 15, 2021 at 7:52 am

Alô, Marina.

Obrigada por ler e comentar.

Infelizmente, não tenho conhecimento do termo correto em português, mas deixo o endereço da Embaixada da Áustria aí no Brasil, através do email de contato bem ao final da página.

https://www.bmeia.gv.at/br/embaixada-da-austria-em-brasilia/

Espero ter auxiliado.

Abraço.

Resposta

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