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A cultura do corpo livre na Alemanha

Minha primeira vez foi num domingo frio, em dezembro de 2010. Como estudante de intercâmbio em Leipzig, havia me inscrito numa excursão da organização estudantil da universidade, responsável por integrar os alunos estrangeiros. O destino era uma pequena cidade vizinha, onde aprenderíamos a esquiar. Porém, apesar das temperaturas congelantes daquele inverno, não havia neve suficiente.

Por isso, ao chegar à entrada da estação central, o ponto de encontro marcado, a organizadora da excursão propôs uma nova atividade: que tal um dia de spa? Os spas na Alemanha são incríveis, prometeu, além de se caracterizarem como uma atividade típica alemã. No inverno, passar algumas horas, ou mesmo um dia inteiro num spa é uma prática especialmente popular. Uma maneira de se esquentar, relaxar e se revigorar quando o tempo lá fora não está nada convidativo.

Nosso pequeno grupo feminino, formado ainda por duas francesas e uma italiana, concordou que uma sauna quente e uma piscina coberta não eram as piores coisas num domingo. Logo, partimos para um “centro de bem-estar” localizado a alguns minutos do centro.

De fato, o spa não era somente muito bom, como também super divertido. Escorregamos por um longo tobogã, relaxamos na jacuzzi, nadamos na piscina. Até que a organizadora, uma mulher alta e loira, original de Leipzig, disse que estava indo para outra parte do spa, a textilfreie Zone, isto é, a “zona a livre de tecidos”. Perguntou se queríamos acompanhá-la ou não, a escolha era nossa.

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Dividi com as francesas e a italiana alguns olhares de espanto e curiosidade. Então, todo mundo fica pelado e misturado? Homens e mulheres? “Sim. Isso é bem normal, ninguém fica olhando para ninguém. Todos se respeitam”, confirmou a organizadora. Intrigadas e curiosas com esse fenômeno alemão, enchemo-nos de coragem e deixamos nossas roupas de banho no armário.

Os primeiros minutos, confesso, foram bastante constrangedores. Eu vi mais do que gostaria de ter visto, não sabia onde colocar meus olhos e senti um certo desconforto envergonhado por mim e por todos ali. Mas, depois de um tempo, comecei a me aclimatizar. Ao final, a experiência foi, em todos os sentidos, naturalíssima.

Em Um brasileiro em Berlim, leitura recomendada a todos os interessados pela cultura alemã, João Ubaldo Ribeiro narra alguns pequenos choques sofridos na recém-reunificada capital. Após encontrar um bando de gente nua se banhando no Halensee, o autor compara a relação dos norte-americanos e dos alemães diante da nudez.

Segundo ele, os norte-americanos exercem um respeitável autodomínio quando confrontados com a pele exposta, o que não quer dizer que não voltem para a casa com coceiras nas orelhas. Já os alemães parecem não precisar de autocontrole algum. Na verdade, nem ele mesmo sente necessidade de se autocontrolar, experimentando o que chama de “assombrosa obliteração da libido”. Em consequência, declara: “Não há sexo aqui, só gente nua” (Ribeiro, 2014, p.108).

Tanto a naturalidade da minha experiência na “zona livre de tecidos” do spa quanto o desaparecimento da libido relatado por Ribeiro podem ser explicados pela FKK – Freikörperkultur, a “cultura do corpo livre”. Geralmente associada à parte oriental do país, devido à sua grande popularidade na República Democrática Alemã, a cultura do corpo livre tem uma história antiga.

O costume de nadar pelado em rios e lagos já existia no início do século XVIII em vários países da Europa Central. Porém, foi em Essen, na Alemanha, que surgiu a primeira associação da cultura do corpo livre em 1898. Anos mais tarde, no final da República de Weimar, diversas associações somavam cerca de cem mil integrantes.

A cultura do corpo livre deve ser entendida dentro do movimento naturista, que busca o retorno do ser humano à natureza e defende a nudez corporal livre de sentimentos de vergonha e de teor sexual. O objetivo não é o exibicionismo, uma vez que essa cultura é praticada apenas em espaços devidamente reservados. Além disso, demonstrações de excitação sexual e insinuações sexuais não são toleradas.

Corpo livre ou não – eis a questão

Praticar a cultura do corpo livre levanta algumas perguntas existenciais. Trata-se de uma escolha íntima, que para muitos incluem questões morais, religiosas e físicas. Além disso, o objetivo é sentir-se bem na sua própria pele. Contudo, essa experiência pode ser profundamente angustiante para quem se incomoda com a nudez própria e alheia.

Além de autoconhecimento, é fundamental saber respeitar o corpo dos outros. Ir a um spa com uma mente maliciosa, a fim de ver gente nua, é completamente inaceitável. Qualquer atitude de conotação sexual só tem um resultado: um firme convite para se retirar das dependências do spa e nunca mais voltar.

Particularmente, essa experiência foi bastante libertadora para mim. Os spas alemães são verdadeiros centros de relaxamento. Assim, não é difícil entender por que são tão populares, sobretudo nos meses frios. Em Berlim, por exemplo, há vários spas incríveis e limpos por um valor acessível.

Termino dizendo que, vindo de uma cultura extremamente sexualizada e cheia de tabus em relação ao corpo, como é a brasileira, experimentar a cultura do corpo livre me ajudou a abrir a cabeça, a respeitar meu corpo e o corpo alheio. Afinal, somos todos seres humanos, de carne e osso, e – perdoem-me a redundância – não há nada mais natural do que nosso estado natural.

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4 comentários

Juliane Julho 11, 2016 at 7:27 pm

Adorei o seu relato, Catia! Eu tenho vergonha de ficar até de biquíni na praia.
Catia, qual foi a escola que organizou o seu intercâmbio? Moro aqui em SP e procuro por uma escola séria que ofereça intercâmbio na Alemanha.

Abraço!

Resposta
Catia Pietro Julho 11, 2016 at 10:00 pm

Oi, Juliane

Obrigada pela leitura e pelo comentário! 🙂 Sobre o intercâmbio, eu fiz como parte da minha graduação em Letras – Alemão na USP, então o processo foi todo feito por lá. Se você estiver na universidade, verifique com sua faculdade se há algum acordo com uma universidade alemã. Do contrário, geralmente também é possível se candidatar para um intercâmbio diretamente com a universidade alemã de sua escolha. Aliás, as inscrições para a bolsa do Winterkurs do DAAD (http://www.daad.org.br/pt/18311/) estão abertas. Se preencher os pré-requisitos, essa também é uma ótima oportunidade.

Boa sorte!

Resposta
Renata Julho 12, 2016 at 7:27 am

Oi Katia, texto excelente, eu também tive um certo choque da primeira vez que fui a uma sauna finlandesa, moro na Austria e aqui é muito comum a FKK também
E hoje em dia, estou viciada! A sauna é muito relaxante, o mel, o acucar, os esfoliantes deiaxando nossa pele um brinco na época do inverno! Concordo com tudo que voce expos no ultimo paragrafo. Realmente libertador.

Recentemente estive no Theme Erding que dizem ser o maior da Alemanha, e lá as áreas sem roupa sao muito maiores, eles servem inclusive drinks no bar aquatico, existem restaurantes na área tb. Tudo sem roupa. Bom, quando a nadar sem roupa ainda acho um pouco estranho. Mas aqui na Áustria é muito comum nadar pelado em rios também.

Gostei da recomendacao do livro, amo Berlin e já estive na cidade 3x e já planejando a próxima!
Sem dúvida um livro para minha lista.

Lg

Resposta
Catia Pietro Julho 12, 2016 at 8:57 am

Oi, Renata

Obrigada pelo comentário, aqui em Berlim tem o spa Vabali, que é bem grande, com saunas, áreas cobertas e ao ar livre, quartos de repouso… Uma delícia! No começo dá aquela estranheza, mas quando a gente vê como funciona é bem tranquilo! 😉

LG

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