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Uma brasileira na Alemanha

Neste artigo, falo sobre minhas experiências enquanto brasileira na Alemanha. Ademais, desejo abrir aqui um espaço para discussão e troca de experiências sobre o que significa ser uma mulher brasileira ou um homem brasileiro neste país. Por isso, deixe seu comentário ao final e divida suas próprias impressões.

Esclareço que este é um relato pessoal. Portanto, minhas opiniões são baseadas nas minhas vivências e, no máximo, me apoio em experiências relatadas por amigos. Não espero, nem pressuponho, que todos se sintam como eu ou tenham passado pelas mesmas coisas. Além disso, ressalto que minhas críticas não desconsideram nem invalidam o apreço que tenho pela Alemanha.

 

De um lado, a terra do carnaval, da luxúria e da alegria. Do outro, um país assolado pela violência, corrupção e pobreza. Dificilmente, a imagem do Brasil na Alemanha ultrapassa esses dois quadros que, se não estão de todo errados, com certeza não fazem jus à riqueza de um país tão multifacetado.

Dessa visão sobre o Brasil, nascem os desentendimentos com os quais podemos ser confrontados. Eu realmente não me ofendo quando me perguntam se no Brasil falamos espanhol ou Brasilianisch (“brasileiro”). Apesar da generalização implicada, considero tais erros inofensivos e estou disposta a explicar algumas coisas sobre meu país aos interessados.

Porém, existem alguns preconceitos – juízos preconcebidos que não envolvem, necessariamente, uma atitude discriminatória. São ideias sobre o Brasil e os brasileiros que nascem tanto da falta de informação quanto de certas arrogâncias eurocêntricas.

Para entender melhor, um exemplo: certa vez, uma amiga me contou como, ao conversar com um rapaz alemão, ele ressaltou o quão maravilhoso era ela estar na Alemanha e ter a oportunidade de visitar museus. Como paulistana frequentadora das numerosas e ótimas exposições que a Cidade da Garoa oferece, ela ficou chocada com a presunção de que, por ser brasileira, nunca havia estado num museu antes!

***

Na minha experiência, os alemães costumam ser bem curiosos. Quando descobrem que sou do Brasil, querem saber como vim parar aqui, por que quis aprender alemão, se já me acostumei com o inverno e por aí vai. Às vezes, vem a pergunta: “Você quer ficar aqui para sempre?”. Em si, uma questão válida e pertinente, sem dúvida.

Porém, em algumas ocasiões, há aí também um questionamento de intenções. Por ser brasileira, alguns pensam que não posso estar aqui simplesmente para ter uma experiência internacional, como qualquer sueco ou canadense. Ao contrário, como latina, sou uma imigrante econômica, atrás de vantagens sociais e financeiras. Assim, é visível o espanto quando digo que meus principais interesses na Alemanha são Thomas Mann e Einstürzende Neubauten.

Outra ocorrência é ser observada com uma curiosidade antropológica. Sem gostar de futebol nem conseguir sambar, aqui me sinto mais brasileira do que jamais antes. E isso é muito bom, pois descobri que minha identidade nacional é mais profunda do que uma série de esteriótipos. Contudo, minha nacionalidade não define minha personalidade. Nem tudo que eu faço, cozinho, leio tem a ver com o Brasil. Por isso, algumas vezes aviso, no bom humor, que não sou um espécime de outra civilização cujos modos podem ser interpretados e analisados como um exemplo “típico brasileiro”.

Em contrapartida, também já ouvi que não pareço brasileira. Certa vez, um alemão até mesmo me perguntou como posso ser brasileira sem ser negra, “como os jogadores de futebol” [sic] . Respondi que tenho um avô negro de um lado e um avô branco do outro. O rapaz ficou então admirado, como se visse um criatura rara. Apesar de reconhecerem a diversidade racial do Brasil, muitos ainda se surpreendem com nossa riqueza de origens e culturas.

Em outro assunto, observo também a exotização da brasileira e suas consequências. Com frequência, reportagens, guias turísticos e cartazes de festas tratam o corpo da mulher brasileira como um pano de fundo ou um cartão de visita. Isso, desnecessário dizer, é extremamente desumanizante e problemático. Felizmente, nunca presenciei um assédio físico, mas vejo que essa mentalidade também se manifesta de outras maneiras, como olhares invasivos (vulgarmente dito, o famoso “secar” com os olhos) e comentários não requisitados sobre a sensualidade das brasileiras.

***

Apesar dessas experiências, ser brasileira também abriu portas para novas amizades. Já fui muito bem recebida e acolhida aqui, especialmente por alemães interessados pelo Brasil. Há muita gente generosa, bem informada e tolerante.

No meu intercâmbio em Leipzig, em 2010, fui amparada por diversos alemães que me incluíram em seu círculo de amigos, me ajudaram a falar alemão com confiança e me convidaram para diferentes atividades, até mesmo um Natal em família em Hamburgo.

Em Berlim, uma cidade incrivelmente multicultural, minha nacionalidade mal entra em questão. O moço da lojinha de bebidas é turco, a garçonete é espanhola, o carteiro é polonês… Enfim, todos vêm de algum lugar e todos coexistem.

Para mim, uma experiência ruim não invalida uma experiência boa, assim como um acontecimento feliz não apaga uma situação constrangedora. É tudo parte da minha história e do meu aprendizado.

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13 comentários

Carla Setembro 9, 2016 at 9:27 pm

Com que clareza voce traduziu tantas coisas que penso e sinto. Otimo texto.!

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Catia Pietro Setembro 9, 2016 at 10:22 pm

Obrigada pelo comentário e continue nos acompanhando aqui no BPM! 🙂

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Andreia Setembro 10, 2016 at 6:33 am

Ótimo seu texto Cátia. Adorei e me identifiquei bastante.
Posso dizer que aqui na França vivenciei experiências muito parecidas.
Obrigada ????????????

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Catia Pietro Setembro 10, 2016 at 7:40 am

Oi, Andreia

Obrigada pelo comentário! 🙂

Resposta
Eliane Setembro 11, 2016 at 6:35 pm

Nossa incrível!!! Já passei por várias situações como as descritas em seu texto, desde as infinitas perguntas sobre porque estou aqui e principalmente por quanto tempo ficarei (com pre julgamento de imigração econômica), como também as suposições “irritantes” sobre a personalidade e interesses das brasileiras, entre outras…é claro que a experiência é incrível, inúmeros pontos positivos, mas como vc disse, um não apaga o outro…????

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Catia Pietro Setembro 12, 2016 at 11:57 am

Oi, Eliane,

Obrigada por dividir suas experiências. De fato, há muitas presunções chatas, mas nosso desafio é sempre olhar para os pontos positivos e continuar crescendo! 🙂

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wilgen Setembro 13, 2016 at 8:13 pm

Adorei o seu texto e a forma como você abordou alguns temas, pelos quais todos nos, que moramos aqui, já passamos.

Resposta
Catia Pietro Setembro 14, 2016 at 8:16 am

Obrigada pelo comentário, sempre bom saber que não estamos sozinhos! 🙂

Resposta
Marcio Setembro 15, 2016 at 9:07 am

Olá, nossa . Como você escreve bem . Essa leitura foi foi extremamente prazerosa.l, sabe não tenho a mínima vontade de sair do Brasil, não vejo em outro lugar . E sou considerado aqui da classe c, kk , mais sou muito cuirioso de como se vive em outros pais , não podemos cupalos de pensar assim sobre nós , pois na minha iguinorancia quando escuto fala é. Álemanha a minha visão e totalmente destorcida se comparado com que estou aprendendo lendo mais sobre esse país . Muito obrigado, Márcio de Curitiba. Pr.

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Catia Pietro Setembro 15, 2016 at 5:08 pm

Oi, Márcio

obrigada pela leitura! Sem dúvida, no Brasil, nós também temos muitas ideias sobre os alemães que nem sempre correspondem à realidade. Por isso, é sempre bom continuar aprendendo – sobre a nossa e outras culturas. Continue acompanhando o BPM para mais textos interessantes de vários lugares do mundo!

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helena Fevereiro 27, 2017 at 2:25 pm

me mudei para a alemanhã apenas há alguns meses, mas ainda estou entre lá e cá. comecei a procurar dicas de pessoas que já fizeram essa “travessia” e encontrei o seu texto (difícil encontrar textos bem escritos como o seu). com ele pude me preparar para o que está por vir, esclarecer sensações que já tive e entender que vamos encontrar pessoas com as quais podemos dividir as experiências. boa sorte para nós. 😉

Resposta
Raiane Hertel Wehrmeister Abril 24, 2017 at 11:10 pm

Olá Catia,

Obrigada por suas considerações, ajudaram em alguns pontos. Sou descendente de alemães e pretendo fazer um intercâmbio como au pair ou freelancer na Alemanha, você teria alguma dica sobre?

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Alexandre Teles Junho 16, 2017 at 2:29 am

No melhor do texto acabou… Bacanérrimo seu artigo!!!

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