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A história de uma bailarina brasileira no Ballet de Santiago

Quando vivemos no exterior, temos a oportunidade de conhecer várias histórias inspiradoras de compatriotas que se reinventam ou que deixam o Brasil para realizar um sonho. Esse é o caso da Michelle Bittencourt, brasileira de Porto Alegre (RS), mãe de duas meninas, super simpática e talentosa bailarina da Companhia de Ballet de Santiago, uma das companhias mais importantes da América Latina cuja direção artística está a cargo de Márcia Haydée, também brasileira e uma das referências mais importantes no mundo da dança na atualidade.

Recentemente, tive a oportunidade conhecê-la e batemos um papo muito legal que, com certeza, vai render outros artigos. Aproveito para agradecer a Michelle por seu tempo e por me receber em meio a ensaios, apresentações e viagens. Posso afirmar, sem nenhuma dúvida, que foi uma experiência muito enriquecedora.

Apaixonada pela dança desde pequena, Michelle iniciou seus estudos em uma escola de ballet do seu bairro em Porto Alegre até ganhar uma bolsa para estudar em uma escola melhor onde, por meio de sua professora, foi incentivada a estudar em uma escola especializada. Assim, aos 11 anos começou a dedicar-se à dança de forma mais intensa na Escola de Ballet Vera Bublitz em que permaneceu até os 17 anos. A partir daí, Michelle iniciou seus estudos na Academia de Ballet Lenita Ruschel Pereira orientando toda a sua formação em ballet clássico.

Estudou Educação Física na universidade, que na época era o curso que mais se aproximava da dança. Como explica Michelle, no início do anos 2000 havia uma oferta muito escassa de companhias de ballet clássico profissional no Brasil,  existia apenas  uma no Rio de Janeiro o que dificultava o acesso aos estudos nessa área.  Além da pouca oferta de cursos, as provas para entrar e números de vagas eram bem restritos. As provas aconteciam, normalmente, a cada 5 anos para cerca de 3 ou 4 vagas apenas.

Muito decidida a seguir seus estudos em ballet, Michelle foi fazer um curso de aperfeiçoamento em Belo Horizonte com os professores cubanos, Rudy Candia e Maira Riveros, que rapidamente perceberam seu talento e a convidaram para participar de uma audição do Ballet Municipal de Asunción (Paraguai). Tomou um ônibus em uma sexta-feira para chegar no sábado, porém houve um atraso durante a viagem e o ônibus chegou no sábado às 13 h e sua audição estava marcada para às 10 h, perdendo assim a prova.

Desiludida, decidiu fazer aula na Companhia de Ballet Nacional do Paraguai que tem como orientação o ballet contemporâneo e voltou para casa em Porto Alegre. Na segunda-feira seguinte, a diretora desta companhia a telefona convidando-a para participar de uma audição no sábado seguinte. A partir daí, foi contratada pela companhia dando início a sua carreira de bailarina profissional. Com isso, Michelle se mudou para o Paraguai e trabalhou em companhias como a companhia de ballet da Universidad del Norte e o Ballet Municipal de Asunción.

Depois de 6 anos trabalhando como bailarina profissional no Paraguai, Michelle fez um teste para a companhia de ballet do famoso bailarino argentino Iñaki Urlezaga que foi integrante do Royal Ballet de Londres e foi convidada para trabalhar aí por uma temporada.  Com isso, Michelle participou de várias turnês ao redor do mundo se apresentando em países como Grécia, Espanha e Itália, além de se apresentar em toda a Argentina. Uma dificuldade grande que encontrou nesta época foi conciliar a maternidade, as viagens e a exigência que seu trabalho como bailarina demanda.  Neste período, se criou uma companhia de ballet nova na cidade de Salta (Argentina) que abriu audições para a contratação de profissionais de dança. Michelle decidiu participar dessas provas e foi selecionada onde trabalhou por 5 anos.

Quando ficou sabendo de um teste para o Ballet de Santiago, Michelle decidiu participar já que sempre havia sido sua aspiração desde que começou a dançar. Dentre 86 candidatas para 5 vagas, Michelle foi uma das selecionadas para trabalhar por um mês como reforço de corpo de baile o que para ela foi muito difícil, pois em seus trabalhos anteriores apresentava-se, na maioria das vezes, como bailarina principal. Depois de substituir uma bailarina que se machucou em um ensaio, Michelle foi contratada em forma definitiva. Michelle explicao que lhe chamou a atenção nesta companhia:

Sempre considerei a Companhia de Ballet de Santiago como a melhor da América Latina, o nível dos bailarinos sempre foi muito alto e a companhia tem um renome internacional, é reconhecida internacionalmente pela qualidade do trabalho. Sempre as montagens que são feitas aqui, são feitas com aquela pessoa especialista naquele ballet no mundo inteiro. Vem o indicado para montar para a gente. A nossa diretora é a Márcia Haydée, que é brasileira, e é uma lenda da dança, então também tinha mais essa oportunidade de trabalhar com ela, vivenciar toda a história da dança moderna, ela é parte de toda a dança do ballet neoclássico.”

Foto de Patricio Melo cedida por Michelle Bittencourt em Lago de los Cisnes de Márcia Haydée,Pas de Quatre

Há algumas produções que somente são realizadas pelo ballet de Santiago em toda América Latina justamente pela qualidade dos bailarinos, dos coreógrafos e pela qualidade da montagem. É uma companhia que apresenta uma variedade de obras de diferentes estilos. Para Michelle, é um orgulho integrar uma equipe de tanto talento e tão diversa com bailarinos de diferentes partes do mundo o que torna a experiência e o trabalho muito enriquecedores. Toda a equipe desde fisioterapeutas a responsáveis pelos camarins estão dedicados ao cuidado com os bailarinos.

Neste momento, Michelle está em turnê pela Argentina com a obra Zorba, el Griego, estiveram o ano passado no Brasil com a mesma obra e na volta para Santiago já começam os ensaios para a obra Raymonda em uma nova versão criada por Luis Ortigoza.

A história do ballet de Santiago começa em 1959, em que se criou o Ballet de Arte Moderno dirigido por Octavio Cintolesi incorporando a técnica do ballet clássico com elementos de dança moderna e nacional. A partir de 1982, com a direção de Iván Nagy, o então denominado Ballet de Santiago começou a incorporar artistas e professores de primeiro nível, em pouco tempo foi possível incluir no repertório obras de ballet de grande dificuldade o que elevou a qualidade do ballet transformando-o em uma das melhores companhias da América do Sul.

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2 comentários

Gislaine Dezembro 4, 2017 at 10:50 pm

Que legal, Renata! Moro aqui e nao tinha ideia de bailarinas brasileiras dessa relevancia. Muito informativo. Alem de uma dica cultural super bacana .

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Renata D'onofrio Janeiro 5, 2018 at 3:47 pm

Obrigada, Gislaine!

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