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A terceira onda feminista no Chile

A terceira onda feminista no Chile.

Este artigo pode parecer polêmico para alguns, mas falar de igualdade de direitos para as mulheres é algo que transborda as fronteiras das preferências políticas. É um assunto que vem aflorando muitas discussões e manifestações mundo afora e não é à toa! Cada dia mais, vemos notícias de mulheres que foram discriminadas e sofreram algum tipo de abuso, os quais muitas vezes, não chegam sequer a ser investigados ou levados a sério em muitas culturas.

Como imigrantes pelo mundo, somos alvos fáceis destes tipos de abusos, não somos discriminadas apenas por nossas origens, mas também por quem somos, pelo simples fato de ser mulher. Já mencionei esse tipo de conceito em outro artigo, mas aqui gostaria de ir mais a fundo no que diz respeito ao movimento feminista no Chile e a tomada de consciência dos seus próprios diretos pelas mulheres do país.

No dia 16 de maio, várias manifestações ao longo do país reuniram várias estudantes pelas ruas o que deixou muita gente de cabelo em pé, pois essas jovens saíram sem camisas reivindicando igualdade nas universidades. Por incrível que pareça, as universidades ainda estão repletas de uma estrutura hierarquizada e machista, são poucas as mulheres que ocupam algum lugar de destaque neste espaço. Além disso, é bem comum as próprias estudantes e funcionárias serem vítimas de comentários machistas e sexistas por parte dos professores.

Mas o estopim desse novo movimento foi a morte de uma bebê de um ano vítima de estupro, o abuso grupal de uma jovem de 28 anos e as condutas machistas de um famoso diretor de televisão. As estudantes chilenas começaram a se mobilizar em abril na Universidad Austral, seguida pela Facultad de Derecho de la Universidad de Chile, a instituição mais antiga e de maior prestigio em todo o país. Em poucas semanas, mais de 15 universidades aderiram ao movimento que exige uma educação igualitária e sem sexismo.

Leia também: A nova lei de inclusão e a gratuidade do ensino superior no Chile

Com isso, vários casos de abusos dentro das universidades vieram à tona. As estudantes de Direito da Universidad Catolica escreveram uma carta assinada por 127 alunas relatando algumas frases bem comuns que escutavam dos professores como, por exemplo “Senhorita, o que é esse decote? Você veio fazer uma prova oral ou a ser ordenhada?”. Pasmem! Há coisas muito piores descritas nessa carta, vou poupar os leitores de sentirem o estômago revirado.  Para mais detalhes, clique aqui.

Calar durante tanto tempo este tipo de abuso, só é reflexo de como ele estava enraizado na sociedade e como era considerado algo natural. Muitas mulheres só estão tomando consciência dos abusos que sofreram agora com o surgimento desse movimento e depois de muitos anos, porque estão sendo trazidas a público, práticas que antes eram consideradas normais pelo patriarcado. Era algo que antes estava restrito a esfera privada e simplesmente, era varrido para debaixo do tapete.

Segundo alguns estudiosos, esta é a terceira onda de mobilizações no país que envolve os direitos das mulheres. A primeira delas trata-se do movimento que levou à Ley del Sufragio Feminino Universal no ano de 1949 quando as mulheres passaram a ter o direito ao voto.

A segunda onda surge nos anos 80, depois de anos de ditadura militar, as mulheres decidem lutar pela democracia, pela igualdade dentro dos seus próprios lares o que inclui o tema da sexualidade, o acesso ao trabalho e a distribuição dos papéis na sociedade e na família.

Esse movimento atual é considerado a terceira onda e a maior de todas já que traz à público a violência e os abusos sofridos pelas mulheres desde pequenas, desde o início da sua vida escolar e se estende ao ambiente político seja reivindicando igualdade no sistema de saúde, de aposentadorias, igualdade de salário e no trabalho doméstico.

Este movimento vem ganhando cada dia mais adeptos já que abrange uma exigência pelo fim dos abusos e violência contra a mulher. Dificilmente, se conhece uma mulher que nunca sofreu nenhum tipo de abuso em sua vida ou que não caminhe pelas ruas com medo de que em algum momento possa lhe acontecer algo. As mulheres de distintas origens e classes sociais passam a se identificar e apoiar as estudantes.

Por outro lado, existe uma parte da população super conservadora que considera um escândalo a atitude dessas jovens, como o caso do político Tomás Jocelyn-Holt que fez comentários revoltantes nas suas redes sociais com o objetivo de depreciar o movimento referindo-se ao corpo de uma das jovens. Fato este que só comprova a atitude e pensamento sexista existentes na sociedade.

Já se nota alguns efeitos dessas manifestações, no final de abril entrou em vigência na comuna de Las Condes uma lei que proíbe o assédio contra mulheres em locais públicos e menos de um mês depois uma pessoa já foi multada por assediar uma jovem na rua. Segundo as instituições dessa comuna, desde que a lei entrou em vigor foram registradas muitas denúncias juntos aos órgãos competentes.  Esse tipo de lei também está presente em vários outros países.

Romper com esses velhos paradigmas implica abalar as estruturas do pensamento e comportamento que foram dominantes até agora. Ainda há muito por mudar, mas sinceramente, espero que esse movimento tenha vindo para ficar, já basta de violência contra as mulheres!

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2 comentários

Gisela Luiz Julho 22, 2018 at 10:37 pm

Sensacional…. Poderia ser assim em todos países… A mulher “necessita” deste apoio psicológico e não de julgamento. Cada pessoa sabe o que quer para seu futuro… Gravidez indesejada existe e não podemos carregar essa culpa… em muitos casos, há prevenção sim.. mas métodos anticoncecionais não são 100% confiáveis…
Excelente material….
Parabéns pelo seu trabalho…

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Renata D'onofrio Julho 26, 2018 at 2:36 am

Obrigada, Gisela! Fico muito feliz em saber que voce gostou da leitura!

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