Abu Dhabi – Lidando com a censura

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Fevereiro no Brasil é sinônimo de verão, Carnaval, a Globeleza na TV, cerveja, namoro e muito mais. Nessa época, a censura parece tirar folga e ir pular atrás do bloco junto com os foliões. Os limites ficam mais largos e quase tudo é permitido.

Mas nos Emirados Árabes não é assim. Por aqui não há carnaval, nem nudez na TV, nem consumo de bebida alcoólica na rua, nem beijo, nem abraço, nem nada. E o mais grave: esses atos são profundamente censurados no país.

Já que nem todo lugar é igual, é importante conhecermos as regras e leis de onde pretendemos morar ou mesmo visitar. No caso do Oriente Médio e países muçulmanos, o conhecimento dessas regras além de evitar constrangimentos, garante a sua estadia no país e evita problemas de ordem mais graves, como prisões, deportações e até mesmo penas de morte.

Nudez e Vestimentas

Se há algo que não é visto com naturalidade por aqui é a nudez, seja nos meios de comunicação ou nas ruas.

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Foto: CC

Um dos princípios básicos para quem quer ter uma vida tranquila nos Emirados é se atentar para as vestimentas, se cobrindo o máximo possível. Ao contrário da vizinha Arábia Saudita, aqui as expatriadas não têm a obrigatoriedade de usarem abayas ou hijabs, mas é sempre recomendado se vestir com moderação, respeitando os costumes e as leis locais.

Nas portas de muitos shoppings, prédios e mesquitas há um “Código de Vestimenta”, tanto para homem quanto para mulheres. Sim, rapazes, a censura da roupa também é válida para vocês!

Para as mulheres, há uma regra de ouro simples de ser lembrada e entendida e que vale em praticamente todas as situações: ombros e joelhos cobertos e roupas folgadas. Caso se interessem sobre o assunto, fiz um artigo mais detalhado no Diário de Polly.

Álcool e Drogas Ilícitas

As leis e a censura sobre o consumo de álcool e drogas ilícitas são bastante severas. É ilegal comprar bebidas alcoólicas sem licença, mesmo em locais autorizados e o consumo de álcool só pode ser feito dentro de residências ou em lugares específicos onde a venda é permitida, como hotéis, por exemplo. É preciso ter pelo menos 18 anos para comprar cigarros e pelo menos 21 para consumir álcool em bares e restaurantes.

Em relação às drogas ilícitas, o controle é ainda mais rigoroso, já que elas são absolutamente proibidas no país. Pessoalmente, nunca observei o consumo ou a venda de nenhum tipo de droga por aqui, apesar de saber que existe de maneira velada. E que lugar não tem, não é mesmo?

Homossexualidade e Afetividade

A homossexualidade é proibida no país, apesar de existir e ser facilmente observada, claro. Entretanto, não há cafés, bares ou clubes nitidamente ou exclusivamente gays, como vemos em outros países. A homossexualidade e a sodomia são condenadas pelo Código Civil e pela Sharia e os seus praticantes estão sujeitos a prisão, deportação, castigos, multas e, em tese, até a pena de morte pode ser aplicada.

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Gay, nu e tomando álcool – absolutamente censurado na vida real. Foto: CC – Flickr

Há uma forte recomendação aos homossexuais (de ambos os sexos, vale lembrar) que se resguardem de manifestações óbvias de suas preferências sexuais, bem como de demonstrações públicas de carinho com pessoas do mesmo sexo. Não é incomum ouvir histórias de pessoas que foram presas e deportadas por esse motivo, portanto, todo cuidado é pouco.

Demonstrações públicas de afeto, mesmo que sejam entre casais heterossexuais são fortemente reprimidas pela polícia e pela população também! Andar de mãos dadas é OK, mas abraços, beijos e amassos nem pensar.

Internet e Comunicação

Qualquer serviço de comunicação, seja internet, telefones ou celulares são ou podem ser potencialmente vigiados. Uma vez que os dois únicos provedores desses serviços no país são as empresas Etisalat e Du, não é difícil para elas (e para o governo) monitorarem e censurarem as atividades de seus usuários.

Não raramente me deparo com sites que são bloqueados, inclusive vários blogs brasileiros de entretenimento. A mensagem que aparece é a seguinte:

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Mensagem que aparece quando o site é bloqueado – em árabe e em inglês, para todos entenderem.

Estão na “lista negra” da censura daqui sites com conteúdo criminal ou terrorista; sites de namoro; bate-papo e fóruns; conteúdo pornográfico e de nudez; jogos de azar; sites para download de spyware; venda de drogas ou substâncias proibidas; e, principalmente sites que ofendem a política, religião e os valores morais do país.

Serviços VoiP, como Skype, Viber, Facetime e as ligações do Whatsapp não funcionam. Para isso, há como “driblar” a censura utilizando o VPN, mas mesmo assim alguns serviços não funcionam corretamente. Um exemplo: a partir do momento que migramos o nosso número de Whatsapp para um número local, perdemos o serviço de ligação por esse aplicativo, mesmo usando VPN.

Imprensa, Mídia e Autocensura

A imprensa e a mídia locais, assim como esperado, também estão sujeitas à censura do governo. Porém, é raro que ocorra algum confronto, uma vez que a maioria já realiza autocensura. Na prática, você não vai ver críticas à política, à família real, à religião ou cenas de nudismo em filmes ou na TV.

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Foto: Flickr

Em um voo que fiz pela Qatar Airways para o Brasil, por exemplo, assisti ao filme “Velozes e Furiosos 7” (que por sinal foi filmado em Abu Dhabi) e em algumas cenas os “traseiros” das mulheres estavam censurados, com um efeito embaçado/desfocado, impedindo a nitidez. Achei engraçado que ao invés de eles retirarem a cena, optaram por alterar a imagem.

A mesma censura das imagens acontece em revistas impressas, onde é comum que as imagens sejam manipuladas antes de serem distribuídas.

Outros tipos de censura

  • Pessoas que são HIV positivo não podem residir no país. Esse controle é feito através de um exame de sangue para conseguir o visto de residência. Sendo turista, esse exame não será cobrado, mas caso a pessoa seja hospitalizada e conste em seus exames a presença do vírus, ela será embarcada no próximo voo de volta ao seu país.
  • Israelenses não são permitidos no país.
  • O consumo da carne de porco e seus derivados é proibido para os muçulmanos. Porém, alguns supermercados possuem uma seção específica para a venda desses produtos.
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Supermercado Waitrose e sua seção de produtos suínos. O aviso na porta alerta “Para não-muçulmanos”.
  • Outro tipo de censura, que também já comentei por aqui no artigo de dezembro, é sobre as restrições e os cuidados ao professar a sua fé quando ela é não-muçulmana.
  • Por fim, vale reforçar que há restrições especiais durante o Ramadã, como não poder se alimentar ou beber nada em público durante o dia.

E vocês, sabem de outras censuras que faltaram aqui? Compartilhe conosco nos comentários!

17 Comentários

  1. Oi Pollyane, muito bacana o seu texto, eu morei na Malásia- Kuala Lumpur por 3 anos que é um país muçulmano também mas nem se compara com as censuras de Abdu-Dhabi. Eu não sabia que Skype, FaceTime, Whatsapp e outros são censurados aí, que difícil deve ser não poder ver os familiares via video, né? Beijão pra você.

    • Olá, Simone! Muito obrigada pela visita e pelo seu comentário. Já ouvi falar muito bem a respeito de Kuala Lumpur, mas ainda não tive oportunidade de conhecer. Que bom saber que por lá não há tantas censuras quanto aqui, a vida deve ficar mais leve, não é mesmo? Mas como costumamos dizer: “é o que temos para hoje” e, apesar das restrições, aqui é um ótimo lugar para morar!
      Para usar o Skype utilizamos o VPN, agora quanto aos outros serviços, eu fico só na vontade! Hehehehe. Algumas pessoas mantêm o número de Whatsapp do Brasil para não perder a função de ligação desse aplicativo, mas eu optei por mudar o meu número. Vai de cada um 🙂
      Beijo grande e volte sempre.

  2. Oi, Pollyane. Que belo trabalho você tem feito. É uma forma de ocupar o tempo, registrar suas aventuras nas terras distantes por onde tem passado, exercitar seu talento para a redação e ainda levar informações às pessoas que não tem as mesmas oportunidades mas tem vontade de conhecer, assim como eu. Parabéns pela iniciativa.
    Beijos.

    • Muito obrigada pelo comentário e pelo carinho! Garanto que ele é recíproco, assim como a vontade de que conheças esse e outros lugares por onde passo! Se puder, acompanhe também os outros artigos das outras brasileira por esse mundo! Beijo grande e volte sempre 🙂

      • Ola tudo bem?? Pollyanne eu gostaria de saber se pode viver nesse Pais em Abu Dhabi sem ser legal?? E possivel um brasileiro viver la illegal ??
        E vc sabe me da esta informacao?? Obrigada flor
        Tessiane Koster

        • Olá, Tessiane! Obrigada pela visita e pelo comentário. Sobre o seu questionamento: não é possível permanecer no país de maneira ilegal. A concessão dos vistos é muito criteriosa e o país possui penas rígidas às pessoas que desrespeitam as leis. Abraço, Pollyane.

  3. Bom dia Polly, já coloquei essa mensagem em um outro post da UAE mas resolvi postar aqui também com a idéia de alcançar mais pessoas…vamos lá.

    Você tem alguma informação/contato de algum FISIOTERAPEUTA brasileiro trabalhando aí para que eu possa trocar informações sobre a possibilidade de me conseguir um contrato de trabalho e poder ir para ai?
    Sou também formada em Ed Física, pós-graduada, e tenho lido que além da área da Fisioterapia, a área da Educação (e aqui inclui a Ed Física) é também muito extensa nos Emirados.
    Agradeço a sua ajuda ou de qualquer leitor que possa me auxiliar nessa minha busca.
    Abraços
    Patrícia G

    • Olá, Patrícia. Muito obrigada pela visita e pelo comentário. Sobre o seu questionamento, sei que há fisioterapeutas brasileiros em Abu Dhabi, mas não tenho nenhum contato para te passar. Você já procurou no grupo do Facebook dos brasileiros em Abu Dhabi? Boa sorte e beijo grande.

  4. Depois de ler o seu post, principalmente após saber do tratamento a portadores do HIV (e a proibição de comer em público no Ramadã, entre outras), aconteceu uma coisa comigo que eu detestei: Eu comecei a sentir uma leve simpatia pelo Donald Trump.
    Não, isso não!
    Nada contra a religião, totalmente pelo contrário, mas, por conta dessas coisas eu nunca poderia morar em países rigidamente mulçumanos, por nenhum dinheiro do mundo ou mesmo promessa de promoção a CEO,

    • Olá, Francisco. Muito obrigada pela visita e pelo comentário. De fato, não são todas as pessoas que têm facilidade em se adaptar a uma nova cultura, por isso toda informação é válida antes de pensar em se mudar. Ainda bem que somos livres para decidir o que acreditamos ser melhor para nós, inclusive a liberdade de avaliar qualquer promessa de emprego que seja. Para uns vale a pena, para outros, não. É natural! Obrigada mais uma vez e espero que possa acompanhar os outros artigos do site.

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