BrasileirasPeloMundo.com
Curiosidades Pelo Mundo Japão

Banhos públicos no Japão: você teria coragem?

Banhos públicos no Japão: você teria coragem?

Nunca esqueço a primeira vez em que levei os meus pais e a minha irmã em um banho público no Japão. Eles estavam fazendo uma visita de duas semanas — a segunda vinda dos meus pais e a primeira da minha irmã — e, logo de cara, eu tive a ideia de levá-los em um complexo de águas termais, para que pudessem aproveitar as maravilhas dos banhos quentes e saunas que o Japão oferece.

Como os banhos são separados em dois espaços, um para mulheres e outro para homens, decidi que era uma boa ideia chamar o meu namorado, que na época vivia na mesma cidade, para acompanhar o meu pai na ala dos homens. Detalhe da história: era a primeira vez que os meus pais se encontravam com o meu namorado, que vou chamar aqui de “J”. Outro detalhe é que ele é sueco e não fala português e os meus pais não falam inglês…

E lá fomos nós. Escolhi um lugar grande em Osaka, chamado de Spa World e nos reunimos na recepção. Instrui o meu pai, que não conseguia falar uma palavra sequer com o J, a imitar tudo o que ele fizesse, assim não teria erro. Depois desta orientação, nos separamos no elevador e combinamos de nos encontrar na recepção uma hora mais tarde.

Confesso que nos meus primeiros anos de Japão eu tinha um certo receio com os banhos públicos. Tinha vergonha de ir sozinha ou de ficar pelada na frente de pessoas estranhas e é claro, não sabia muito o que fazer e como me comportar. Ficava impressionada com as senhorinhas que pareciam ter uns 150 anos e ficavam longos minutos torrando em uma sauna de 80°C para depois se atirar em uma banheira de água fria sem morrer de choque térmico.

No começo eu colocava um pé na sauna e saía. Depois de alguns meses evolui: dois minutos de sauna e banheira gelada jamais. Até que experimentei, gostei e evolui tanto que cheguei no nível das vovós, a ponto de ficar uma hora inteira me revezando entre a sauna e a água fria. Quem diria?

Mas, naquele dia em que eu levei a minha família para um lugar desses, não pensei muito no óbvio: eles eram que nem eu antes de me acostumar com os banhos públicos e sauna. Não pensei muito no que aconteceria com o J e o meu pai depois de nos despedirmos no elevador e guiei minha mãe e irmã até os armários, onde deveríamos ficar nuas para seguir ao espaço de banheiras e saunas.

Enquanto tirava a roupa e guardava no armário como se estivesse no banheiro de casa, notei o nervosismo estampado na cara das duas e logo as dúvidas começaram: “Temos mesmo que tirar a roupa?” — diziam elas, quase em uníssono, estarrecidas. Encorajei as duas a seguir em frente e avançamos, apenas com as nossas toalhas de rosto (só o que é permitido) em mãos.

Leia também: 10 curiosidades sobre o Japão

Eu não sabia se ria ou chorava. De tão acostumada que eu estava, prendi a toalha na cabeça e sai caminhando nua, ignorando as dezenas de mulheres japonesas sem roupa ao meu redor, além de crianças e meninos pequenos. A minha mãe e irmã não paravam de se entreolhar, rir e fazer o esforço que podiam para esconder o corpo com a pequena toalha que tinham em mãos.

Eu havia alertado sobre a presença de meninos pequenos antes de entrarmos. Fiz algum comentário do tipo: “São bebês de um ou dois anos, não se preocupem”. Até que nos deparamos com um menino, que devia ter uns 5 ou 6 anos, e a minha mãe arregalou os olhos, em uma expressão que me obrigou a engolir uma gargalhada. “Tem certeza que esse menino tem dois anos?”, ela queria saber, incrédula.

Poderia ter sido um desastre, mas não foi. A timidez foi vencida pelas maravilhas das águas aquecidas e elas logo relaxaram. Eu pude aproveitar o meu ritual de sauna e a minha irmã, um tanto aventureira, até se motivou a experimentar a sauna e a água fria, deu alguns pulinhos em pânico e saiu da água em choque total, tentando convencer a nossa mãe a fazer o mesmo. “Experiência de vida”, dizia ela.

Quanto ao meu pai e ao J, pouco fiquei sabendo da experiência deles, mas o episódio virou algo comentado até hoje em família. “Nunca vi o marido da C. (minha irmã) pelado mesmo depois de 10 anos de namoro e 5 de casamento. O namorado da Ana Paula eu fui ver despido no primeiro encontro”, diria ele mais tarde.

Conheço muitos brasileiros que vivem no Japão há anos e nunca pisaram em águas termais, possuem vergonha ou medo de fazer algo errado. Para mim, é uma das melhores experiências da vida no Japão e acredito que é só uma questão de costume. Superar a fase da vergonha, das diferenças culturais para aprender a vivenciar isto de verdade, a relaxar e experimentar um dos melhores costumes dos japoneses.

Crédito: Ana Paula Ramos

Para encerrar esta coluna, deixo algumas curiosidades sobre os banhos públicos do Japão e a grande questão: você teria coragem?

1. Há dois tipos de banhos públicos no Japão, o “sento” (銭湯) que é artificial e está presente em qualquer bairro e o “onsen” (温泉) que são águas termais aquecidas naturalmente, instaladas principalmente em regiões vulcânicas.

2. É verdade que esses lugares são cheios de regras, mas nada impossível de se acostumar. Você terá que tomar uma ducha antes de entrar nas banheiras, amarrar o cabelo, cuidar para não molhar a toalha de rosto. Fazer o que os outros estão fazendo é uma boa dica para não cometer gafes.

3. Não se preocupe que ninguém fica encarando o corpo de ninguém. Mas se você não tem uma descendência asiática pode chamar a atenção das crianças e até ser perseguido (a) por elas (já aconteceu comigo).

4. A maioria desses lugares não permite pessoas tatuadas. E não, não estamos em 1950. O motivo é simples: os japoneses relacionam tatuagens com a máfia e ficam constrangidos se houver membros da Yakuza no banho público.

5. A maioria dos locais são divididos em alas separadas para homens e mulheres. Mas há os banhos públicos mistos, em que ambos ficam peladões e há os reservados, com espaços individuais para famílias. Eu nunca fui nos reservados, mas já experimentei um misto e… É assunto para outra coluna!

Related posts

Dez curiosidades sobre a Romênia

Bruna Roland

E por falar em saudade…

Juliana Platero

A cultura do corpo livre na Alemanha

Catia Pietro

2 comentários

Juhh Maio 28, 2018 at 11:24 pm

Fale dos mistos por favor!!! , fiquei curiosa

Resposta
Ana Paula Ramos Junho 6, 2018 at 11:31 am

Hahahahaha Foi bem constrangedor na real. No começo não tinha ninguém e eu fiquei tranquila, até que entrou um homem de uns 40 anos e foi uma correria para me enrolar na toalha e entrar e sair da água sem ele me ver…. Meu namorado dava risada

Resposta

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Este site ou suas ferramentas de terceiros usam cookies Aceitar Consulte Mais Informação