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Cabeça-Aberta? Nem Tanto…

Quando a Ann me convidou para escrever para o “Brasileiras Pelo Mundo”, me senti muito honrada e fiquei muito feliz. Escrever faz parte da minha natureza e colocar em um papel (ou, neste caso, em uma página de Word) minha visão do mundo me ajuda a entender melhor todos os pensamentos que passam pela minha cabeça. Ter pessoas que se interessam pelo que eu escrevo é um bônus extra.

Escolher o tema que eu escreveria… Bem, isso era um pouco mais complicado. Com tantos pensamentos e ideias borbulhando na minha cabeça, eu não conseguia decidir por um… Por fim, decidi que um dos temas sobre o qual eu escreveria seria sobre os meus próprios preconceitos em relação ao mundo, sobre os choques entre como achava que o mundo deveria ser e como ele se apresentou para mim nesses últimos 5 anos e pouco desde que eu saí do Brasil.

Sou descendente de japoneses e minha família é de classe média de São Paulo. Cresci em um ambiente multicultural, com acesso a muitos museus, cinemas e estilos de vida. Convivi com pessoas de diversos círculos sociais e diversos pensamentos. Então, quando  saí do Brasil,  era cheia de ideias e acreditava que era uma pessoa cabeça-aberta, que pouco (ou nada me chocaria).

Claro que essa crença foi testada e reprovada muitas vezes. Quando morei na Irlanda e via, nas madrugadas de sábado, mulheres com suas saias curtas, cabelos anos 80 (desconfio que esse estilo nunca abandonou a terra dos Leprechauns), super maquiadas com seus saltos 15cm sentadas, às portas de lojas, bêbadas como perus antes do Natal, ficava chocada. Para mim, embora uma mulher pudesse beber e passar mal (quem nunca passou do limite?), parecer boneca de pano no meio da rua era horroroso, além de ser perigoso. Afinal, quando se está sem consciência em um lugar público, qualquer coisa pode acontecer com você.

Entendi que não era tão cabeça-aberta quanto eu imaginava. E, durante três anos e pouco, minhas ideias foram reorganizadas, fiz uma limpeza mental e entendi que nem tudo que eu acreditava era uma verdade incontestável: as ideias mudam e o nosso conceito de “normal” se adapta às nossas novas experiências.

Quando eu me mudei para as Filipinas, para essa ilha de Lost perdida no meio do Oceano Pacífico, me deparei ainda mais com meus próprios preconceitos. Entre muitas coisas que me chocavam, ver Filipinas de 20 e poucos anos que pareciam não ter mais que 14 (os filipinos são pequenos) com homens ocidentais de 40 e poucos, que pareciam ter mais de 50, foi uma delas.

Ver esse tipo de casal é muito normal nas Filipinas. Em alguns bares ou restaurantes de Manila e Boracay (uma das praias mais lindas do mundo, segundo os eleitores do Trip Advisor), se pode ver meninas lindas com homens mais velhos que não tem o charme de um George Clooney ou um Sean Connery. São homens mais velhos, normais e barrigudos, que estão saindo com mulheres muito mais jovens e bonitas do que eles.

Como a maioria dos meus amigos pensariam, eu também pensava “essa só está com ele pelo passaporte ou pelo dinheiro… Não é possível!”. Mas, com esse pensamento preconceituoso e sem ideia de como era o país, eu não conseguia ver a imagem completa. O engraçado da vida é que nos deparamos com situações momentâneas e prejulgamos, com base nas nossas ideias e conhecimento do mundo, como aquela história é. Não tomamos o tempo necessário para ler ao menos um capítulo daquela história e muito menos para ler o livro todo. É como se entrássemos em uma sala de cinema, ficássemos 3 minutos e saíssemos acreditando que sabemos o final do filme, com base em todos os outros  que já assistimos.

Existe uma frase que diz que se você não conhece os caminhos que percorri, as pedras nas quais tropecei e as decisões que eu tive que tomar durante a minha vida, você não tem o direito de me julgar. Um dia, eu que sempre acreditei que ninguém tinha o direito de me julgar, comecei a ver a vida dessas mulheres através de outro ponto de vista: o do delas. E, de repente, entendi que eu não tinha a menor ideia do que elas tinham passado e os motivos pelos quais elas tomaram a decisão de estar com alguém muito mais velho, muito mais feito, algumas vezes absurdamente gordo e asqueroso.

A verdade me atingiu como um tapa na cara. Eu não conhecia suas historias. De repente, aquela mulher que caminha na rua com alguém com o triplo da sua idade não consegue ver outra saída para a situação de vida de merda que ela vive. De repente, ela foi vendida, quando criança, pelos seus pais para um clube de prostituição para que eles pudessem pagar a comida do resto dos seus irmãos que ficaram na casa. De repente, depois de tanto sofrer, ela não via nenhuma outra saída para ter uma vida um pouco melhor, com comida na mesa e roupas melhores.

O que me assusta é que essas minhas suposições, do estilo de vida que essas mulheres levam, são apoiadas por reportagens e por números. Segundo Dario Agnote (International Labor Organization. “Sex trade key part of S.E. Asian economies, study says,” Kyodo News, 18 August 1998) “existem entre 400 mil e 500 mil pessoas prostituídas nas Filipinas. Pessoas prostituídas são em sua maioria mulheres, mas existem homens, travestis e crianças prostitutas, entre estes meninos e meninas”. Segundo um artigo impresso pelo CATW (Coalition Against Trafficking in Women – Asia Pacific), existem notícias de pessoas que se prostituem por comida e água. E esses números fazem parte de muitos outros números levantados por agências não-governamentais e estudos sobre o tráfico de pessoas no mundo, em especial nas Filipinas.

O mundo é como um livro, com diversas facetas e pontos de vista. Mas, infelizmente, não conseguimos ver toda a imagem, ter uma visão de tudo. Acredito que vemos o mundo através das nossas próprias lentes e ângulos de visões, sempre em um mesmo plano. Mas, se pudéssemos ampliar um pouquinho esse ângulo e subir em uma montinho, perceberíamos que existe muito mais coisa ao nosso redor do que acreditávamos. E, ainda acreditando que ninguém tem o direito de me julgar, estou dando pequenos passos a caminho de tentar não julgar o outro também.

Bom, a gente se vê por aqui… Ou pela vida! =) Um beijo!

 

 

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12 comentários

Dany Novembro 26, 2012 at 6:37 pm

Parabéns pelo texto, sua descrição das pessoas que jugam um livro pela capa foi perfeita…

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Tati Sato Dezembro 4, 2012 at 5:25 pm

Oi Dany, obrigada pelo feedback! Um beijo! =)

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Tays Novembro 26, 2012 at 11:57 pm

Tati… minha querida….. realmente precisamos tirar as cataratas que nao nos permite ver certas coisas….. bjs te adoro….

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Tati Sato Dezembro 4, 2012 at 5:27 pm

Ta, minha linda!!! Obrigada por ler meu texto e pelo seu feedback! Ser cidada do mundo nao eh nada facil (como voce jah sabe) porque temos que limpar nossas lentes constantemente, lembrando-nos que tambem nao somos perfeitos… =) Te adoro tambem! Nos vemos logo!!! Beijos

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John Novembro 27, 2012 at 4:47 am

Bravo Tati. Sempre existe mais de um lado de vista. Assisti o filme “Rashomon” de kurasawa que me impressionou tambem assim. Escrevendo seus pensamentos e um ato que precisa coragem.

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Tati Sato Dezembro 4, 2012 at 5:27 pm

John, obrigada pelo feedback. Eu sempre escrevo o que penso, ainda que tenha que enfrentar as consequencias. 😉 Mas eh disso que vale a vida, nao eh mesmo? =)

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fabi mesquita Novembro 27, 2012 at 11:50 am

Amiga, vai escrever bem assim lá em Manila viu? rs
Amei seu texto. De uma precisao!
Super orgulho de voce!

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Tati Sato Dezembro 4, 2012 at 5:28 pm

Fabi, amiga linda e irma de coracao!!! Obrigada por ler meu texto e pelo feedback!!! =) TE AMO!

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Ana Cristina Kolb Novembro 28, 2012 at 12:12 pm

Oi Tati, Gostei muito da sua honestidade e da partiilha de suas experiencias! Tenho a impressao que com a idade, a maturidade a gente se torna mais flexivel e começa a compreender as pessoas melhor, e pra gente que tem esta oportunidade de viver em culturas diferentes entao ainda mais, pois a gente experiencia muitas vezes valores morais que sao muito diferentes daqueles com os quais crescemos. Eu cresci eu em uma socidade bem tradicional, e ao mesmo tempo com uma situaçao familiar muito avant-garde pra epoca em que nasci, mas ao mesmo tempo a sociedade sempre foi muito etica, acima de tudo o valor pela pessoa, mais que pela moral! Talvez por ter crescido sabendo que minha condiçao familiar poderia fazer a sociedade me rejeitar ou julgar, me fez ter uma tolerancia enorme com todas as minorias. E depois de viver mais de 20 anos fora do Brasil, em um ambiente literalmente multicultural, foi pra mim uma libertaçao, libertaçao de etiquetas e libertaçao pra ser eu! e ser gente! simplesmente gente, existem leis que sao universais. Enquanto a moral é um sistema de valores criado por uma sociedade, etica cuida da VIDA!!!! E quanto mais nos desenvolvemos eticamente mais a gente ve que tudo tem um contexto, e que muitas coisas que nao compreendemos, foi uma forma de adaptaçao, de sobrevivencia. Tem um titulo de livro que reflete o sofrimento atras do julgar , chama “Juiz dos outros, carrasco de si mesmo”. Que possamos cada vez mais aprender a viver com o diferente de nos mesmos, de forma livre de preconceitos e nos libertamos cada vez mais do nosso proprio julgamento de si mesmo. Que possamos ser mais humildes. Namasté!!!!!

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Tati Sato Dezembro 4, 2012 at 5:54 pm

Oi Ana! Amei seu feedback. Estou de acordo que com a maturidade, ficamos mais flexíveis e, além de compreender o outro melhor, também nos aceitamos como somos. Esse, talvez, seja um dos meus principais desafios, me aceitar e aceitar as coisas como são, simples assim.

Ser uma expatriada é um aprendizado diário. Longe das nossas zonas de conforto, aprendemos a ser gente, por amor ou pela dor. E, de uma forma que ainda não consigo explicar, conquistamos uma liberdade imensa, algo que eu, particularmente, nunca pensei que houvesse. Hoje, estou livre para ser eu, e todas as conseqüências dessa decisão são minhas também, quaisquer sejam elas. Talvez, quando vivemos sob a moral de uma sociedade, simplesmente temos medo de enfrentar as conseqüências das nossas atitudes. Talvez isso aconteça porque, no nosso íntimo, associamos conseqüências a punição… E isso não é verdade. =)

Namasté!

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José Lopes [El Lobo] Dezembro 6, 2012 at 12:33 am

Olá Tati, eu tenho uma namorada filipina, e pretendo viajar para passar um ano por lá. Fiz vários pequisas, para descobrir brasileiros nas Filipinas, mas não consegui nada. Poderia me dá umas dicas?

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Daphne Dezembro 12, 2012 at 6:55 pm

Mto bom o texto, realmente é assim mesmo que pessoas como nòs, classe mèdia, crescemos “vendo” o mundo là fora: dentro de uma bolha! E quando a vida nos surpreende com a possibilidade de girar entre culturas diferentes das nossas , nos deparamos com a diferença e é esse o ponto que nos atingi, afinal ,tudo que nao està na NOSSA normalidade provavelmente a prejulgamos como incorreta. O que passamos, nossa transformaçao para a compreensao e aceitaçao do mundo afora sao nossas experiencias e ,claro, amadurecimento! Vc expos mto bem essa transiçao de “mundo da fantasia” à realidade nua e crua!
Bjs ,Daphne

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