Cinco coisas que eu levaria da Polônia para o Brasil

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Monumento em memória ao Levante de Varsóvia de 1944. Foto: Acervo pessoal.
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Cinco coisas que eu levaria da Polônia para o Brasil

Esta é a primeira vez que vivo no exterior e logo de cara aportei em um país tão diferente do meu, com uma história milenar e tão cheia de conflitos. Aprendi e venho aprendendo que o jeito fechado e desconfiado dos poloneses se deve sobretudo a fatores históricos, ainda muito presentes na constituição do caráter do polonês como um todo.

E após a visão turística, típica dos primeiros meses, fico cada vez mais fascinada e instigada a conhecer mais e mais sobre este país. Além disso – não que já não tivesse esse sentimento antes de sair do Brasil, sinto-me cada dia mais brasileira; feliz e orgulhosa por minha amada terra, mas que ainda tem tanta coisa a aprimorar. Pois bem, se hoje voltasse definitivamente à terrinha, vejamos o que levaria comigo dessa minha atual morada, a Polônia.

1.Segurança

A primeira sensação chocante para mim aqui foi poder andar dia e noite tranquilamente pelas ruas da cidade, e não qualquer pequena cidade, mas a capital da Polônia! Em parques não muito iluminados, à beira do rio, passando por viadutos, pontes ou passagens subterrâneas, que jamais passaria em São Paulo. Pegar trem noturno ou andar de táxi sozinha. Usar o celular, a câmera fotográfica ou qualquer outro ‘acessório chamativo’ -como diria minha mãe, e nada acontecer. Crianças andam sozinhas. Os idosos também.

É lógico que não é em toda Europa que essa sensação é vivenciada, mas de fato, Varsóvia e a Polônia como um todo, é um dos lugares mais seguros para se viver. Do alto dos meus 36 anos, essa foi a primeira vez na minha vida que senti isso. Gostaria que o Brasil pudesse entender e cada um pudesse ter essa mesma sensação.

Passear sozinha ou ficar despreocupadamente contemplando o rio Vístula não é um problema.
Passear sozinha ou ficar despreocupadamente contemplando o rio Vístula não é um problema. Foto: Acervo pessoal.

2.Respeito à mulher

Outra constatação impactante foi perceber que os homens, em geral, respeitam as mulheres. Não há assédio, nem supostas cantadas -como ouvi, inclusive em outras cidades europeias. Aqui não é apenas o fato do menor assédio ser crime e facilmente denunciado, o que inibe o homem de fazê-lo, mas é algo mais profundo, é cultural.

A sociedade polonesa (oriunda dos povos eslavos) é ancestralmente matriarcal. O peso e o valor da mulher é muito importante. Assim como o já mencionado fator da segurança, foi a primeira vez na minha que nunca ouvi qualquer tipo de cantada ou sofri assédio. Isso, definitivamente, levaria para o Brasil para todas as brasileiras.

3.Transporte urbano

Venho da caótica e gigantesca São Paulo. Ultimamente, mesmo após a implementação de ciclovias, ainda há muito a ser feito. Infelizmente somos fruto da cultura do automóvel – modelo individualista e ineficaz. O transporte público das grandes cidades brasileiras mas especificamente de São Paulo, não é dos piores, mas a demanda é gigantesca e sem planejamento, fica inviável melhorá-lo.

Embora já tenha visitado outras grandes cidades europeias, foi aqui que me encantei por esse sistema, uso-o diariamente: Ônibus, bondes, metrôs e trens funcionando no horário, com seus itinerários e conexões expostos nos pontos e disponíveis na internet. Táxis e Uber são ótimas soluções quando há a necessidade de se locomover de carro. Sem contar o sistema de ciclovias. É bárbaro cruzar a cidade de bicicleta e de forma segura.

Leia algumas curiosidades sobre a Polônia!

Realmente, não precisamos de carro em Varsóvia! O sistema de transporte não é dos melhores: também temos engarrafamentos ou ônibus e metrôs cheios, mas de fato, essas pequenas e eficientes estratégias, fazem toda a diferença. Menos carros, Brasil, mais transporte público e bicicletas!

Tramwaj: uma das melhores maneiras de se locomover na cidade.
Tramwaj: uma das melhores maneiras de se locomover na cidade. Foto: Acervo pessoal.

4. Conhecimento de sua própria história

A Polônia é uma nação antiga, milenar, e que em certos momentos da história deixou de existir no mapa. Como é imaginar isso, para nós, brasileiros? O senso de preservação de identidade e lembrança da história dos poloneses é simplesmente fascinante. Há monumentos (preservados) em memória aos mortos nas guerras e batalhas, aos poetas, artistas, reis, figuras políticas, ou simples cidadãos que fizeram a diferença para o país, e até mesmo as placas falando sobre a história das ruas e dos bairros, alimentando a memória coletiva dos poloneses.

Todo polonês tem orgulho e sabe de sua história. Outra coisa que me chamou a atenção também é o senso de cidadania e consciência política dos poloneses. Isso é algo que não vejo muito na maioria dos brasileiros. Levaria isso para o Brasil: não um sentimento infantil e vazio de nacionalismo e pseudo consciência política, mas o sentido profundo e real de preservação das origens; da história da formação de nosso povo e país, despertando em todos o sentido de cidadania e real consciência política. Ainda mais agora, quando boa parte da população parece ignorar totalmente fatos da história recente de nosso país.

5. A cultura do não disperdício

Outra marca daqui é cultura do não disperdício. Desde um eletrodoméstico que você usa até acabar a um casaco de inverno, que pode ser comprado em lojas de segunda mão, passando por carros usados. Tudo é reaproveitado, usado até quebrar, e caso não mais necessário, repassado para frente. Aqui não há demérito algum em fazer isso. Eu acredito que esse fator cultural se deva à história recente do país no século 20, onde o país passou por uma escassez de produtos durante a II GM, e alguns itens não eram tão diversificados durante a Polônia socialista.

Outro fator histórico-cultural é o fato da Polônia ter longos invernos. Isso muda a atitude com relação ao cultivo e colheita dos alimentos, onde é necessário se adaptar as estações do ano. Vale lembrar que hoje tudo é relativamente mais fácil, mas nas décadas e séculos anteriores, isso fazia toda a diferença para a sobrevivência durante o inverno. Isso tudo me faz pensar – e muito – sobre o atual modelo em que vivemos. Talvez fosse hora de todos nós repensarmos nossos hábitos consumistas.

Um hábito ainda muito presente: comprar roupas de segunda mão, por peso.
Um hábito ainda muito presente: comprar roupas de segunda mão, por peso. Foto: Acervo pessoal.

Vou visitar o Brasil agora, levando essas ideias comigo e esperando que algum dia, possa vê-las também por lá.

Até a volta!

14 Comentários

  1. Està ai um pais que me encanta….

    Texto perfeito…

    De tudo o que você citou se eu pudesse priorizar uma seria a segurança…
    Com certeza ela abriria as portas das demais…

    Obrigada por compartilhar conosco a sua experiência…
    Ainda tenho esperança de ver um Brasil melhor..

    Um abraço

    • Olá, Linda!

      Obrigada pelo seu comentário!

      De fato, a segurança é o mais importante. É impressionante como no Brasil nos acostumamos a ela e ainda elaboramos formas de como evitá-la. Espero, mesmo, que isso mude um dia.

      Abs,
      Vivian

  2. Parabéns Vivian ! sou descendente de poloneses, mas nunca fui à Polônia, mas já ouvi falar muito bem deste País, tenho amigos lá,e tem que trazer sim esses valores pro Brasil e passar pros políticos brasileiros, quem sabe algum deles capta essas ideias !

    • Olá, Danuta!

      Pois é, são valores, questão cultural mesmo. Espero que nessa troca, aprendamos mais com os poloneses.
      Espero que em breve você possa conhecer esta terra linda de seus ancestrais.

      Obrigada pelo seu comentário!

      Abs,
      Vivian

  3. Oi prima adorei o texto. Para o Brasil chegar a esse nível acho difícil. O problema do nosso País é cultural. Não adianta querer reclamar do governo, de um partido se nós não fizermos a nossa parte. O que vejo é só pessoas espertas, as leis que não funcionam, que só beneficiam os mais ricos. Exemplo, eu trabalhei em uma empresa por quase 2 anos. 8 meses desse tempo não fui registrado. Me mandaram embora por eu ter adquerido 3 érneas de disco. Coloquei na Justiça do Trabalho para receber os 8 meses que fiquei sem carteira de trabalho. É um valor pequeno, mas era meu, fora que peguei 1 parcela a menos do seguro desemprego. Resumindo, a audiência foi essa semana, na frente de uma juíza a empresa falou se pagasse os impostos do INSS, daria um pouco mais de R$ 800,00, para acertar minha carteira, ou se eu quisesse me dariam R$ 1.000,00, mas não acertariam a carteira. A pergunta é o seguinte: – Como um valor deu 5 vezes mais do valor que me ofereceram com carteira assinada, e para mim, a juíza teria que mandar na hora acertar o meu tempo de carteira, depois conversar sobre valor que me deviam. Era que eu achava prima, a juíza foi bem clara: – Se eu não aceitasse os R$ 1000,00, ia passar para a frente o processo e quando voltasse novamente ela iria negar o meu pedido, ou seja eu não acertaria nem, a carteira e nem receberia nada. Isso só me deixou um recado: – Vale a pena não fazer as coisas certas no Brasil, registrar um funcionário para que; volto que falei, como querer cobrar algo se essa cultura não mudar, esta tudo errado, a lei teria que estar ao lado do povo, e ser justa para ambos os lados.Para mudar um País tem que mudar principalmente a sua cultura, e aqui no Brasil acho difícil. Vejo o que você escreveu, como eu queria que o Brasil fosse assim, é um sonho isso. Parece que roubar as pessoas, sonegar imposto, é normal, é assim que funciona. Quem sabe com essa nova fase do Brasil mude um pouco isso. Pois esse escândalo da Petrobras é apenas uma parte do roubo nesse País, o sonegamento fiscal, bancos cobrando juros absurdos, etc,etc,etc..difícil mudar isso, pois parece uma cultura do nosso País tudo isso.

    Parabéns pela materia, adorei prima

    douglas

    • Olá primo!

      Obrigada pelo seu comentário e por nos acompanhar aqui.

      Nos vimos pessoalmente agora, e de fato, vi um Brasil bem diferente do que deixei há 2 anos.
      Espero que as coisas comecem a mudar em breve.

      Continue nos acompanhando.

      Abs,
      Vivian

  4. Boa tarde, dos itens que vc gostaria de trazer ao Brasil, não nos tornaria um país de primeiro mundo mas com certeza nos ajudaria muito social, político e economicamente, embora infelizmente perderam-se os valores, os quais ninguém se preocupa mais c ninguém a não ser consigo mesmo. Culturalmente nosso país se perdeu lameado a cada noticiário de escândalos que aparecem dia a dia, nossos jovens estão perdendo a identidade, não vejo perspectiva de vida em alguns de seus olhares, porém sou brasileira e não desisto nunca, sonho ainda em ver minha terra próspera e c os valores que sempre respeitei.. Otimo texto ( escrever muito bem é de família ???? parabéns )

    • Olá, Ivania

      Sim, infelizmente tenho que concordar com essa perspectiva nebulosa, mas também não perco a esperança em nossos jovens.

      Obrigada pelo seu comentário e continue nos acompanhando.

      Abs,
      Vivian

  5. Ola Vivian, it’s interesting to read your impressions about Poland, change the point of view 🙂 I was feeling in Sao Paulo quite safe, the same in Santos, Brazilians were extremely hospitable, friendly, helpful, i love Brazil and hope to get back there someday 🙂 Hope that you have a nice time here in the centre of Europe, wild, gloomy country of always complaining people 😉 I’m surprised that you didn’t notice our Polish habit to complain 😉 Take care

    • Cześć Michal,

      Well, this is really a subjective analysis due to our personal cultural backgrounds be different: I’ll never be able to understand it fully because I’m not Polish and you as well, because you aren’t Brazilian; I’m a woman, you’re a man, so on… I surely love my country and know all those good points; I agree with you. However, all this doesn’t minimize our enormous historical problems and I know Poland is not a bed of roses too. The habit of complaining is not exclusiveness of Polish people because, usually, we are exactly the same (or even more, sometimes).

      I wish all the best for you there as well.

      Thanks for your comment.

      Regards,
      Vivian

      • Cześć Vivian 🙂 Thanks for your answer. To be honest i think about leaving Poland and Europe generally as i’m getting sick and tired about all these things that happen here, i feel strange here even if it’s my home where i live all my life. I was thinking about living in Argentina or Chile (it’s easier for me as i know a bit of Spanish) or Brazil which i madly love after my trip there and i wish to spend more time wandering through the roads and pathways of your huge, beautiful country. Europe seem to be so “spiritless” for me, people are selfish, distant and ignorant.
        You’re right, we both probably have a bit idealistic picture of our countries both have some things to hate and love, good and bad, and probably safety is a huge advantage comparing Poland to Brazil, especially for you as a woman…you kinow, “grass is always greener on the other side of fence” 🙂 Anyway, i’m really amazed that you’ve left sunny Brazil to live in this small, wild unknown country in the middle of nowhere 🙂 Have you had already chance to travel on south to Podhale region, near Zakopane and Nowy Targ? I’m oryginally from mountains and probably it would be something i would really miss if i would ever move to Brazil 🙂
        Send you my best wishes, wszystkiego dobrego i dużo uśmiechu Ci życzę 🙂
        Take care and be happy always 🙂
        michał

        • Michal,

          It saddens me to see what you think about Poland. I don´t think Polish are selfish, they just take care of own lifes, this is not possible in Brazil, when someone needs help does not appear anyone in your life,
          but to disrupt everybody comes. I think Polish aren’t distant, they are deep, introspective, and Brazilians are superficial and have a poor mind. I find everything that I need in Europe, there I always feed my soul and my brain. I’m sick and dying in Brazil, country dirty of bread and circus because this idiot people,

          Be yourself and follow your dreams!!!

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