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COVID-19 Espanha

Como a Espanha enfrenta o COVID-19

Como a Espanha enfrenta o COVID-19

Quando entramos em 2020, o otimismo tomou conta e a esperança estavam presente nos cidadãos espanhóis, enfim novo presidente, novas medidas econômicas e sociais, uma oportunidade de alavancagem a um pais que ainda não se recuperou da crise de 2008. Ninguém naquele momento, imaginava que um ser microscópico iria fazer tamanho estrago e assombrar uma nação.

O CURSO DA CONTAMINAÇÃO

O primeiro caso conhecido no país com COVID-19 foi um turista alemão que chegou a pequena ilha de Gomera, em Canárias, hoje o primeiro local oficialmente livre de coronavírus. Nove dias depois detectou-se um segundo caso em Palma de Mallorca. Mas apenas no final de janeiro que o vírus saltou a Península, chegando a Madri, Barcelona e em Valência, onde resido.

Até então eram apenas casos isolados e rumores de contaminação, nada alarmante, e a vida seguiu normalmente por aqui. Os hábitos tão espanhóis de permanecer horas em uma mesa ao ar livre, tomando uma cerveja ou um café e “charlando” com amigos, demonstrava o quão (não) preocupados estavam com este tal inimigo.

Passou o Carnaval, com batucadas, desfiles e festas aglomeradas, entrou março, com queima de fogos na marina e burburinhos da Fallas vindouras, a maior festa tradicional da Comunidade Valenciana, que reune uma média de 900 mil visitantes anualmente, e vida seguia.

Como por aqui o futebol também muitas vezes é o norteador de caminhos, foi um dos responsáveis pelo anúncio da gravidade. Um jornalista esportivo que viajou a Milão (Itália) para cobrir a partida da equipe Valenciana, em 19 de fevereiro, foi o primeiro caso confirmado em minha cidade. O caso só começou a ser divulgado nas mídias 10 dias depois e dai, até o inicio do Estado de Alerta, em 14 de março, parecia realmente que a situação estava controlada por aqui.

A QUARENTENA

Em princípio, as decisões tomadas pelo Governo, sempre apoiadas por especialistas, pareciam drásticas e extremistas, mas hoje sabemos que foi a grande responsável pela queda brutal do número de infectados e mortos.

Leia também: Diário da quarentena – o mundo está fechado

A Espanha adotou uma das medidas de distanciamento físico mais restritas do planeta. Previsto por lei estatal, o Estado de Alerta é uma ferramenta que permite ao Executivo tomar uma série de medidas em situações de graves alterações de normalidade, medida esta imposta para todo o país. Com algumas exceções, a mobilidade de pessoas em vias públicas, foi proibida durante exatos 43 dias, quando por fim, permitiu-se que as crianças, acompanhadas de um tutor legal, pudesse brincar e passear, também com restrições.

A Espanha teve o seu ápice de contaminados em 31 de março e de mortos em 2 de abril. Até o momento o número de contagiados ultrapassou os 220.000, mas por conta da baixa diária de novos contaminados, o Governo divulgou o plano de desconfinamento.

O DESCONFINAMENTO

A redução do confinamento na Espanha se dará por fases porém, diferentes de outros países europeus, não será completa e sim por comunidade, ou seja, a partir de critérios pré estabelecidos, só progressão de fases as comunidades (até mesmo províncias) que corresponderem a estes critérios, caso contrário permaneceram onde estão. Como um jogo de vídeo game, confuso e complexo, sendo necessário entender bem as regras para seguir.

Estão previstas quatro fases, iniciadas oficialmente em 4 de maio e com data prevista para implantar a fase final, em 8 de junho.

O que difere as fases são praticamente a apertura de comércios, bares e restaurantes, hotéis e espaço de espetáculos e consequentemente a quantidade de pessoas que poderão frequentar e manter-se nos locais.  A circulação de pessoas também seguirá estes critérios progressivos: quantidade de pessoas, horários de circulação, perímetro, tempo máximo e divisão por idades.

Tudo dependerá do número de novas contágios e também da quantidade de leitos e profissionais sanitários suficientes para atendimentos. Assim, se a curva de novos infectados e mortos continuar regressiva, poderá haver aceleramento e antecipação das fases.

Não há um consenso quanto a prazos ou se será possível a volta a normalidade, ou como será esta normalidade. Abertura de espaço aéreo e fronteiras, retorno de turistas, fechamento de indústrias e comércios, aumento de taxa de desemprego e aumento de crise financeira; tudo é incerto.

AS INCERTEZAS E OS EFEITOS COLATERAIS DA PANDEMIA

Assim como todo o mundo, os efeitos econômicos foram e serão arrebatadores por aqui. O elevado peso do turismo no Produto Interno Bruto (PIB) espanhol, a alta sazonalidade do mercado de trabalho e a escassa margem fiscal da economia convertem a Espanha em uma economia mais vulnerável diante a pandemia.

Leia também: Reflexões sobre a quarentena do coronavírus

Além da economia, e também diante dela, outra colateralidade preocupante são o aumento das enfermidades mentais. O que todo este caos, todas as perdas sem um ritual de luto, todo o distanciamento fisico e social, os medos, as incertezas, a exaustão, enfim todo este conjunto de atos e fatos novos, abruptos e involuntários afetará a sanidade mental.

O aumento de casos de ansiedade generalizada, de crises de pânicos, de depressão já é visível. Por outro lado, o medo de que a liberdade não atenda às expectativas, medo do desemprego, de tomar decisões, de deixar a vida organizada por desconhecido. Para alguns, esse medo é muito menor do que o sofrimento de um pequeno apartamento e as dificuldades do confinamento. A evitação do exterior após um longo isolamento, também será um efeito colateral da pandemia.

Infelizmente o aumento do suicídio parece não ser inevitável, pois as possíveis conseqüências de uma recessão econômica sobre a saúde mental provavelmente serão profundas para as pessoas diretamente afetadas e seus cuidadores.

Tem-se em conta também que durante a quarentena há um aumento de abuso de álcool e substância, jogos de azar, abuso doméstico e infantil e riscos psicossociais (como desconexão social, anomia, sentimento de opressão, falta de moradia e relacionamentos desfeitos).

O que virá é incerto, mas o que esta pandemia e o confinamento trouxe de positivo por aqui, ou ao menos de mudança, foi o respeito do cidadão à saúde e aos profissionais envolvidos, a colaboração as medidas impostas, mesmo contrariando toda uma cultura de comportamentos sociais e exteriores, e a solidariedade. A redução do isolamento muito se deve a participação ativa e unânime dos espanhóis, ao comprometimento e a crença fiel às pesquisas científicas e aos especialistas. Isto é um motivo de orgulho e de aplausos a um povo que não se rende e que mutuamente se motiva. 

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