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Como é trabalhar com TI em Québec? Parte 2

Falemos então sobre os bastidores do mundo do recrutamento de profissionais em TI. Sempre quis ser uma mosquinha para saber o que os recrutadores discutem entre si e o que passa pela cabeça dessas pessoas que detém o poder de veto inicial quando tudo que eles têm como referência sobre nossa digníssima pessoa é o CV.

No ano passado, representei minha diretora em reunião sobre estratégias de recrutamento em TI. Participaram desse encontro representantes de uma associação de empresas privadas do setor de TI, de um Cegep (uma espécie de centro de formação técnica) e de um serviço de recrutamento especializado na colocação profissional de imigrantes. O objetivo principal foi fornecer pistas sobre como empresas de recrutamento e centros de formação podem responder às exigências do mercado em matéria de competências e facilitar a integração dos imigrantes nas empresas de TI.

Conheça os pontos mais interessantes dessa discussão e avalie, conforme suas intenções e objetivos profissionais na área de TI em Québec:

  • Formação versus competências

É fato que a formação no exterior nem sempre é similar à formação canadense. Em alguns casos, diplomas podem nem ser reconhecidos como equivalentes. No entanto, as competências técnicas e comportamentais para desempenhar uma determinada função podem servir de base na hora de determinar se o candidato responde ou não às exigências de mercado.

Na prática, isso quer dizer que apresentar um bom portfolio de experiências, em que o candidato descreve os diferentes tipos de desafios que enfrentou e projetos que realizou, vale mais do que uma série de diplomas obtidos. Possuir certificações específicas da área ajudam, mas o que conta mais é a bagagem profissional do dia-a-dia.

Importante ressaltar que de nada adianta elaborar um CV sensacional que não corresponderá às expectativas do empregador na hora da entrevista. Os recrutadores mencionaram que esse tipo de situação é frequente, justamente porque os candidatos não conseguem destacar as competências utilizadas ao longo da carreira, o que torna o processo mais frustrante para todas as partes envolvidas.

Essa problemática se aplica tanto a imigrantes quanto canadenses. A falta de expertise pontual se dá em relação às tecnologias Java, .Net, C++ et Python. Por competências, entende-se: capacidade de análise, de conceber soluções e de compreender o contexto em determinados tipos de desenvolvimento.

  • Setor privado versus setor público

Pode-se dizer que existe uma diferença entre as demandas vindas do governo ou do setor privado. Empresas de TI voltadas a responder as necessidades do setor público costumam ser bem mais exigentes em seu processo de recrutamento. Contudo, a razão é bem evidente e ela se chama licitação (appel d’offres em francês).

Normalmente, tratam-se de projetos de grande envergadura e orçamento, o que determina que a empresa que responde apresente uma equipe extremamente qualificada em relação à expertise e à experiência (em anos) de seus empregados. Nesse caso, por mais contraditório que possa parecer, o CV pesa mais, pois normalmente não são feitas entrevistas com os membros da equipe durante o processo licitatório. Cabe à empresa que responde à licitação fazer a triagem das competências mencionadas no item anterior. Por isso pode ser mais difícil de responder exatamente às exigências específicas do setor público. Pode-se dizer que, nesses casos, o recrutamento se dá com base em critérios políticos que são menos contornáveis.

Mesmo que o candidato esteja buscando trabalhar no governo, como funcionário público, os critérios de seleção são igualmente intensos. Quando concursos públicos são lançados, os interessados podem se candidatar preenchendo seu cadastro/CV online. Uma seleção prévia é feita de forma bastante pragmática, visando a ranquear e eliminar conforme os perfis. Dada a quantidade de candidatos, não surpreende que essas buscas sejam feitas por sistemas automatizados com foco em palavras-chaves. Aqueles que passam por essa etapa, continuam no processo com a realização de uma prova de aptidões, como segunda etapa eliminatória. Na sequência, passa-se à fase de prova oral por meio de uma entrevista. Ou seja, até poder finalmente demonstrar as suas competências, o CV já falou primeiro por você.

Para quem pretende trabalhar na iniciativa privada, diria que existe um pouco mais de flexibilidade em relação a esses requisitos para contratação. Nesse contexto, é comum encontrar empresas que investem na formação do funcionário e que costumam valorizar o trabalho em binômio para acelerar a aprendizagem de quem é considerado junior. Como o objetivo não é apenas responder a licitações, as equipes podem ser mais heterogêneas do ponto de vista das experiências e conhecimentos técnicos.
  • Desafios de retenção de imigrantes no caso da província de Québec

No Canadá, cada província tem suas próprias leis e incentivos para atrair profissionais qualificados conforme suas demandas locais. No caso da província de Québec, oficialmente francófona, outras questões costumam dificultar a retenção de imigrantes:

  • idioma francês como barreira (não apenas na comunicação oral mas também na escrita);
  • integração cultural ( há quem nunca chegue de verdade por aqui, pois continuam com os mesmos modelos mentais de seus países de origem);
  • colocação profissional dos cônjuges (essa é a principal razão pela qual empregados desistem precocemente da nova vida profissional);
  • má gestão da diversidade cultural nas empresas (um elemento que não necessariamente é conhecido pelos RH’s);
  • adaptação da equipe québécois aos imigrantes;
  • vantagens pré-chegada oferecidas por outras províncias, normalmente anglófonas;
  • em razão das diferenças culturais, a idéia de benefício varia em relação ao que o empregador considera como tal.

Quando se trata de recrutamento, existem muitos não-ditos, ainda mais quando se trata de fatores culturais que podem pesar contra os imigrantes por uma evidente discriminação étnica ou ignorância cultural. Há um tempo atrás, os próprios clientes costumavam pedir para trabalhar com profissionais québécois. No entanto, esse cenário mudou, até porque é quase impossível de recrutar apenas locais.

No geral, pode-se afirmar que para algumas empresas, personalidade, atitude e conhecimento superficial de várias tecnologias não são suficientes. Entretanto, demonstrar o saber (savoir), o saber fazer (savoir-faire) e o saber ser (savoir être) não é algo assim tão evidente, razão pela qual o autoconhecimento é a arma fundamental para saber se vender e encontrar seu lugar nesse mundo profissional.

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2 comentários

Hugo Agosto 15, 2017 at 1:06 am

Muito bom tanto a parte quanto a 2. Estou buscando estudar o francês agora, tenho muito interesse em conseguir algo no Quebec, mas quero entender ainda mais sobre a cultura e qual área dentro de TI devo investir para chegar com mais chances de conseguir uma boa colocação.

Resposta
Ana Carolina Sommer Agosto 15, 2017 at 1:51 pm

Olá Hugo! Obrigada por deixar seu comentário. Você está no caminho certo. No mês de outubro eu postarei um artigo sobre o processo de francisation, que envolve tudo relacionado ao aprendizado do francês e cultura québécoise. Falarei sobre minhas impressões, mas também a de outros brasileiros que passaram por esse curso, oferecido pelo governo de Québec. Abraço forte.

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