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Como lidar com a perda de familiares no Brasil?

Como lidar com a perda de familiares no Brasil?

Quando decidi escrever sobre como lidar com a perda de entes queridos que deixamos no Brasil, estava eu mesma passando pela perda de mais um familiar enquanto morava do outro lado do mundo, na Inglaterra.

Perder alguém é umas das coisas mais naturais e, ao mesmo tempo, difíceis pelas quais passamos e viremos a passar em nossas vidas. E, é justamente por essa razão, que criamos alguns rituais que têm a intenção de nos ajudar a lidar com esse fato de estar vivo, que é a morte.

Tais rituais vão desde pedir licença do trabalho e ir abraçar os familiares queridos, como passar para ajudar com necessidades burocráticas até chegar aos tão desagradáveis, mas necessários, velório e enterro.

São em momentos como esses que nos reunimos com aqueles que amamos para falar dos últimos momentos da pessoa amada que nos deixou e, também, para falar de todas as lembranças boas que temos daquela pessoa.

Tudo contribui para nos darmos conta do que acabou de acontecer e, tanto pessoal quanto coletivamente, aceitar aquela dor e eterna saudade.

O que muda quando moramos fora

Só que, quando moramos no exterior, a primeira diferença que sentimos quando recebemos a noticia da morte de alguém é que essa pessoa geralmente não fazia parte do nosso cotidiano e, algumas vezes, era alguém com quem nem conversávamos seguidamente, ainda que amássemos muito.

Desta vez, que perdi minha última e querida avó (que, por sinal, eu lembro como saudável, inteligente e presente) já fazia alguns dias que não nos falávamos – o que era comum, pois ela não se sentia à vontade com tecnologia – o que dificulta muito o contato entre pessoas que estão em países distantes.

E, dessa maneira, meu dia a dia não mudou em absolutamente nenhum aspecto! E essa sensação é estranha e desconfortável.

Mais uma vez, a dor e o choro que vem com uma perda desse tipo, foram confrontados com clientes para atender, filho para buscar no colégio e até academia para ir.

E, por mais absurdo que isso tudo possa parecer, é bem assim que a gente se sente, quando perdemos alguém muito querido e estamos fisicamente muito longe daquela pessoa e da vida que ela levava.

Se eu estou fisicamente bem, se eu não tenho que pegar o carro e ir ajudar com a parte burocrática do falecimento, se não tenho nenhum velório para ir, a pergunta que me fiz, foi: mas por que não ir na academia? Por que pedir para alguém buscar o meu filho na escola? Por que cancelar, ou reagendar clientes?

A sensação de que tudo continua igual, unida à tristeza profunda de se dar conta de que aquela pessoa não continua mais nesse mundo e que a próxima vez que você for para casa não terá mais aquele alguém para visitar, deixam as coisas realmente muito confusas.

Leia também: Morar fora: é possível parar de se questionar sobre a escolha tomada?

Aquilo que mais incomoda (além da saudade)

Mas a verdade é que – assim como me aconteceu nos primeiros anos que morei fora – chegar de volta no Brasil e ver que pessoas que amamos se foram e pessoas que estamos aprendendo a amar chegaram (novos agregados e recém nascidos), nos leva a um grande choque de realidade. A gente percebe que a vida continuou por lá também e ninguém está apenas te esperando voltar.

Ou seja: aquilo que deixamos no Brasil, quase sempre fica no passado. E perceber isso pode ser avassalador.

Não, o fato de que mantemos contato com alguns amigos e familiares através da tecnologia, não elimina a  verdade de que deixamos aquela dinâmica de relacionamento que costumávamos ter para trás.

Ou seja, o que temos hoje com essas pessoas, a distância, pode ser suficiente para que sejamos gratos e felizes por ter, mas não elimina a grande mudança na realidade desses relacionamentos.

Existe algo que possa ajudar?

Para minha sorte, a dor de cabeça que se seguiu rapidamente ao choro e ao choque, resolveu minha dúvida sobre a academia. Ou seja, o corpo e a saúde me ajudaram a entender do que precisamos em momentos como esse: ficar quietinhos com nossos sentimentos e nossa dor.

No meu caso, ao contrário da primeira vez que perdi uma avó enquanto morava aqui, agora sou autônoma e possuo um relacionamento de confiança mútua com meus clientes – o que me permitiu reagendar sessões. Mesmo me sentindo estranha o fazendo, uma vez que não tinha nenhum velório para ir, recomendaria a todos que pudessem que também o fizessem.

Mas aquilo que me trouxe maior conforto foi mesmo fazer uma ligação de vídeo para minha mãe, chorar com ela e com mais todo mundo que estava ao seu redor. Eu achei que não poder abraçá-los me deixaria pior, mas a verdade é que poder me fazer presente de alguma maneira, foi o que fez mais sentido naqueles primeiros momentos.

Leia também: Existe uma etiqueta para visitar a família no exterior?

A vida que segue

Porém, meus amigos, não escrevo aqui com nenhuma receita pronta do que fazer em momentos como esse. A minha intenção, é apenas que você saiba que o estranhamento que possa estar sentindo, ou vir a sentir, são bastante comuns em situações como essa.

Eu espero que, racionalizando um pouquinho sobre esse sentimento, eu e você consigamos respirar fundo e seguir em frente, carregando em nosso coração e nos nossos valores, um pouquinho da pessoa amada que acaba de partir.

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