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Como me tornei estagiária em Portugal

Como me tornei estagiária em Portugal.

Depois de quase duas décadas trabalhando como jornalista, eis que me aventuro a descer alguns degraus e voltar a ser estagiária. Como isso aconteceu? É o que conto este mês. Espero que a leitura possa inspirar os bem-aventurados que, como eu, se jogam na vida e buscam viver em outras culturas. Não é fácil! Por isso, decidi compartilhar minha experiência em uma multinacional em Braga, Portugal. Saibam que essa é uma das oportunidades de ingressar no mercado de trabalho lusitano.

Faço questão de pontuar essa vivência porque quando iniciei meu percurso profissional, fui estagiária em um jornal de economia. Ainda na faculdade, sonhava em ser repórter. Ir para rua. Apurar matérias. Ficar trancada em uma redação. Até que o desejo se transformou em realidade e essa, em decepção.

Meu estágio naquela época não foi bom. Não recebi qualquer ajuda, mentoria, direção. Fui jogada ao mercado. Só não podia assinar matéria. Mesmo quando voltava com o trabalho de casa muito bem feito, duvidavam de minha capacidade. Sofri tanto que amargou.

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Mesmo assim, venci no jornalismo. Mas não em uma redação. Acabei namorando com uma outra área que me acolheu melhor: a assessoria de comunicação. Hoje somam-se 19 anos de profissão. E, finalmente, resolvi mudar. Voltei para a Universidade e me desafio na escrita científica. Foi graças a essa mudança que me tornei estagiária. Pela primeira vez, um aprendiz de verdade. Com muito orgulho.

Vejo muitas pessoas com dúvidas sobre o mercado de trabalho português; desanimando; indo embora sem conseguir oportunidade em suas áreas. Posso dizer que apenas distribuir currículo não funciona por aqui. Uma maneira de driblar o preconceito é estar matriculado em um algum curso, seja universitário ou em escolas técnicas. Outro passo é ter o diploma reconhecido e inscrever-se no IEFP.

Seja estagiário! Experimente

Bom, o estágio é uma das melhores formas para ingressar no mercado de trabalho português. Existem dois tipos (que eu conheça): o curricular e o profissional. Passei pelos dois, e existem diferenças entre ambos.

A começar, o estágio curricular, geralmente, não é remunerado e está vinculado a um curso profissional ou universitário. Isto é: para concluí-lo, é preciso trabalhar em alguma empresa e entregar um relatório. O tempo de permanência depende da ementa de cada curso, mas varia entre 6 meses a um ano. No meu caso, o estágio esteve relacionado ao mestrado, mas é possível em cursos técnicos e também em licenciatura.

Entretanto, algumas empresas fazem questão de pagar uma bolsa-estágio para os estudantes. Foi o meu caso. Mas isso é uma exceção. Para mim, foi uma excelente experiência. Pude conhecer o ambiente de trabalho de uma multinacional em Braga, fiz ótimas amizades e abri caminho para o mercado de trabalho.

Neste momento, voltei para a multinacional em que estagiei por seis meses, até abril deste ano, para implementar o estudo desenvolvido no âmbito do estágio curricular. Agora, sou uma estagiária profissional e tenho outras responsabilidades. Embora continue tendo um tutor que me acompanha em todo o processo, tenho mais autonomia e já sou vista como profissional. Tenho um contrato de trabalho com duração de 9 meses, e a remuneração é estabelecida pelo nível de qualificação. No meu caso, ocupo o grau 7, o penúltimo na escala de remuneração.

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Se fizéssemos uma comparação, poderíamos dizer que os estagiários profissionais estão no nível de um trainee no Brasil, mas o processo é completamente diferente. No Brasil, os trainees obedecem a um programa, treinamento, qualificação e, muitas vezes, são preparados para ocuparem altos cargos executivos. Aqui, não.

Essas vagas não são consideradas postos de trabalho, e não há prorrogação do tempo. No fim dos 9 meses, ou o estagiário ganha um contrato de trabalho ou deixa a empresa. Entenda que um estágio profissional contribui para a Segurança Social (previdência), o que quer dizer que conta como tempo para a reforma.

Como ser um estagiário em Portugal

Como já foi dito, o estágio curricular está ligado a uma instituição de ensino, estando relacionado à avaliação de fim de curso. Logo, nem sempre são remunerados e, consequentemente, não contribuem para a Segurança Social.

O estágio profissional é diferente. Em primeiro lugar, tem que estar cadastrado no Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), que coordena o programa. É o IEFP quem faz a seleção dos candidatos e acompanha o processo com as empresas. Há uma data para inscrição e os documentos estão disponibilizados no site.

Estão aptos a concorrer jovens até 30 anos e desempregados com no máximo 45 anos. Para os estrangeiros, exige-se reconhecimento do diploma em alguma instituição de ensino portuguesa e titulo de residência. O programa abrange outros beneficiários, o que está discriminado em portaria 131/2017 publicada no diário da república. Ao estagiário também é oferecido subsídios alimentação e transporte.

Embora o contrato não seja prorrogável, é sempre possível conquistar um contrato de trabalho. No entanto, lembre-se que as leis trabalhistas são bem diferentes em Portugal. Por isso, não pense que um trabalho é sinônimo de estabilidade. Aqui a coisa funciona diferente. Para ficar efetivo em uma empresa, a maioria percorre um caminho longo. Uma curiosidade que percebo é: enquanto tiver um contrato, se tudo correr dentro da normalidade, não ficará desempregado. As empresas não costumam dispensar funcionários como no Brasil. Isso ocorre, em muitos casos, porque não querem arcar com o pagamento dos direitos.

O papel do IEFP

Desde que iniciei o meu processo para concorrer à vaga de estágio profissional, tenho tido contato direto com o Instituto do Emprego. O trato não é fácil, mas não tenho do que me queixar. Pelo contrário! As vezes que precisei de orientação, fui bem atendida e aconselhada. Foi graças ao IEFP que soube que poderia candidatar-me, uma vez que não tenho mais 30 anos.

O meu processo foi demorado, porque o reconhecimento de meu diploma levou sete meses. Entretanto, depois de obter a certidão da Universidade do Minho com o grau de licenciado, o restante foi tranquilo e não houve muita burocracia. Entre o tempo de entrega da documentação e o início do estágio, passaram-se dois meses, o que aconteceu apenas porque apanhei as férias de verão, em agosto.

No IEFP, orientaram-me que enquanto estivesse no período de candidatura ao estágio profissional ou durante o decorrer do trabalho, não poderia prestar serviço, em hipótese alguma, para outra empresa. O estágio profissional requer dedicação a tempo inteiro e exclusiva. Quem descumprir a regra, perde o contrato e não pode mais inscrever-se no programa. Portanto, atente-se e não perca uma oportunidade como essa.

Para mim, tem sido uma incrível experiência de vida. Fui profissional por 19 anos. Agora, permito-me a voltar atrás e aprender. Sou estagiária aos 42 anos! E sou muito feliz. Sinto orgulho do estudo que produzi e que, hoje, tenho a oportunidade de implementar em uma multinacional alemã. Acredito que o tempo de estágio curricular foi crucial para o meu retorno para esta fase. Depois desses 9 meses, outras portas vão se abrir. Tenho certeza. O sucesso pertence a quem arrisca. Boa sorte a todos!

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1 comentário

leandro alves da cruz Novembro 17, 2019 at 5:43 am

Olá.brasileiras pelo mundo. Descubra como famílias estão deixando o Brasil para viver em Portugal
(Mesmo sem ter descendência Portuguesa)

http://bit.ly/DescubracomoviverPortugal

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