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Copa do Mundo em Cuba

Foto Chevrolet conversível, 1957. Bauta, Cuba. Copa 2018

Copa do Mundo em Cuba.

Futebol é paixão, é emoção, é se conectar e se encantar por seu país e por mais um outro, se você for imigrante. É acender a chama, daquele amor difícil de ser cultivado e revivido, com tantas frustrações e problemas que batem forte a cada nova má notícia da terrinha. 

Em Cuba, eu revivi o amor pelo Brasil. E vi o quanto especial é ser brasileiro. Não há lugar no mundo que desperte tanta curiosidade, atenção e carinho. Podem me chamar de ufanista, mas o meu amor não me cega. Ele não diminui com os problemas. Eu já vivi o melhor jogo dessa Copa, e foi em Bauta, um município de Cuba.

Existe um senhor que vive nesta cidade, o Älbertiño, como está escrito e pode ser visto nas costas da sua camiseta oficial do Brasil, que é um apaixonado por nosso país e seu futebol. O Sr. Älbertiño chegou à Embaixada brasileira em Havana e perguntou se havia como receber fotos, cartazes etc, para decorar sua cidade para os jogos. Muito falante, contou que, certa vez, havia recebido para a ocasião de uma partida da equipe brasileira, com muita felicidade, um funcionário de lá. E, assim, despertou a ideia de reciprocar o carinho: o nosso Embaixador promoveu a nossa ida em caravana a essa cidadezinha, para vermos com eles o jogo Brasil x Sérvia.

Leia também: Como os países vão celebrar a Copa do Mundo? 

Todos muito motivados e curiosos para descobrir mais sobre esse caso de amor com o Brasil, chegamos a um vilarejo que está a menos de 1 hora de Havana. E, mais uma vez, eu me senti como se estivesse no meu país, mesmo estando em Cuba. Havia um calor humano e uma alegria demonstrados de forma muito espontânea e contagiante. Tive que acalmar a emoção e adrenalina para escrever minha história pra vocês.

Toda a cidadezinha estava mobilizada e enfeitada com bandeiras, as pessoas com os cabelos pintados de verde e amarelo, os rostos também, além de estarem uniformizados melhores do que eu! Foi uma emoção escutar o grito de “Brasil” por todas as ruas, com sotaque bem diferente do nosso. Uma oportunidade que jamais havia imaginado que poderia passar sendo imigrante.

Seguimos, após uma primeira parada para nos localizar, de comboio, até a casa do Albertiño. Ele nos esperava ansioso e com um boneco nas mãos, uma mistura de mascote e amuleto da sorte, feito por eles, numa tentativa de réplica do Ronaldinho gaúcho. Fomos chegando e admirando a decoração da rua, das casas, das pessoas, nos sentimos em casa, porque não havia formalidades, havia música, alegria e muita gente torcendo pelo Brasil.

Felizmente, por mil graças a essa gente, ao meu coração e garganta que sofrem a cada jogo, ganhamos! Durante o jogo, pipocavam celulares na frente da gente com vídeo ligações para parentes que vivem nos EUA ou, não sei, outros países, para quem nos mostravam dizendo, muito emocionados, que ali estavam o Embaixador e a Embaixatriz do Brasil e um grupo de brasileiros, assistindo ao jogo da seleção na cidade. E não, isso não era um incômodo. Me apresentavam à avó, mãe, tia como em uma festa de família quando chega seu namorado novo.

A cada gol corria até o fundo da casa pra gritar com a galera que estava lá, eu queria que todos se sentissem especiais e prestigiados. Eu sempre grito muito e fico bastante nervosa vendo os jogos, mas, nesta ocasião, estava bem mais, porque a seleção tinha que fazer bonito pra toda essa linda e amável comunidade. Deus me livre perder, seria um pesadelo. 

O sinal da tv surgia através de uma antena que vinha por um cabo do teto e entrava pela janela, passando por um vão perto de um sofá. Estava tão cheia a sala que quando um  “jovem” que se sentava neste lugar perto do cabo (um antigo jogador de futebol profissional, que com a seleção de Cuba enfrentou, durante os jogos Panamericanos de Santo Domingo, a nossa seleção, em uma época que tinha o Vágner Love no time) mexia o braço acenando e explicando taticamente o jogo, ia-se embora o sinal, mas logo voltava para nosso alívio.

E não só havia concentração de torcedores nesta casa, aí estávamos porque queriam nos dar comodidade e a possibilidade de ver e escutar melhor, e de mais pertinho. Mas existe um centro social em Bauta, chamado Primeiro de Maio, que estava repleto de pessoas assistindo e igualmente pintadas e vestidas de verde e amarelo. Enfim, todos se paralisaram diante da tv para esse grande acontecimento e para celebrarem essa identificação e amor que sentem quando vibram por nossa seleção.

Depois da vitória, seguimos em desfile pela cidade, a van da Embaixada de abre alas com batedores improvisados ao lado, vários carros, um deles um conversível, desses antigos, que turista ama passear em Havana, várias motos, “bicitaxis” e por último, eu e minha amiga Rose, para desespero de nossos maridos, na carroceria de um caminhão com a galera, gritando e pulando. Parecia caminhão de mudança, quando meus vizinhos do bairro se mudavam e todo mundo era convidado a ajudar, a meninada ia gritando atrás até chegar na casa onde tinha que carregar os móveis. E, nós, neste momento, em cima do caminhão, avistávamos os tetos das casas de Bauta, todas enfeitadas com a nossa bandeira. Nós estávamos embriagados de emoção. Não conseguíamos parar de gritar, cantar, rir e acenar. Um momento de êxtase para todos os presentes.

Foto torcida em cima do caminhão cidade Bauta, Cuba. Copa 2018.
Foto torcida em cima do caminhão cidade Bauta, Cuba. Copa 2018.

Fomos embora depois do desfile e do nosso Embaixador ter atendido a todos os pedidos de fotos. Com a fala do Sr. Albertiño de que a final será com o Brasil e que estamos convidados novamente para compartilhar esse momento único que o futebol nos traz, nos despedimos dessa grande celebração de Brasil em Cuba, mais precisamente, Bauta, essa cidade que entrou no mapa da minha história de vida. 

Na volta, já na estrada, não conseguia parar de falar, nem eu nem os outros. Era muita adrenalina misturada com alegria e um sentimento de pertencimento que para nós, imigrantes, é muito raro de se sentir estando longe das raízes.

Existem muitos estrangeiros que vivem em Cuba. Em Havana tem italianos, franceses, argentinos, chineses, mas penso que é pouco provável que algum deles possa vivenciar uma experiência assim. A identificação de Cuba com Brasil é muito grande e forte. Acontece culturalmente com as novelas, com a música, com o futebol, mesmo que o beisebol, ou a pelota como dizem aqui, seja a paixão nacional. Produzimos um encantamento que também vejo em amigos estrangeiros de outros países. Isso é ser brasileiro! Aguenta coração porque a Copa ainda não acabou!

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