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Semelhanças entre Panamá e Brasil

Provincia de Arraiján, Panamá. acervo pessoal.

Semelhanças entre Panamá e Brasil

Existe uma teoria que no Brasil algumas palavras que se usam, principalmente no nordeste do país, são derivadas do inglês. Por exemplo, a palavra “oxente”. Durante a Segunda Guerra Mundial houve um acordo para a instalação de uma base militar americana no Rio Grande do Norte. Os soldados americanos instalados lá diziam muito “oh shit“, e dessa expressão saiu o “oxente”. 

O que isso tem a ver com o Panamá? Aqui no país também chegaram muitos americanos, mais ou menos 100 mil deles, para a construção do canal que ligou o Oceano Pacífico com o Atlântico. Foi um período longo de presença estadounidense na zona do canal, e os nascidos neste território eram chamados de “zonians” ou “zoneítas”. Isso gerou vários tipos de assimilação e antropofagia cultural.

Nem todos falavam bem o espanhol e os panamenhos se defendiam como podia no inglês. O certo é que, depois de quase 20 anos da recuperação do controle do canal, os sinais dessa passagem ainda estão aqui, marcados pela arquitetura das casas da região e pelas palavras criadas a partir da mistura de espanhol e inglês. 

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Como aconteceu no Brasil, aqui também houve a criação de neologismos, como “cuara”, que é a forma como é chamada a moeda de 25 centavos, derivada do “quarter” em inglês. Em um país onde a moeda própria balboa convive com o dólar.

Moeda de Dollar chamada quarter. Fonte: Acervo pessoal.
Eu conheci um lugar a caminho da praia que achei bem difícil de falar e perguntei ao meu esposo, que é peruano, como era a pronúncia e ele me ensinou: Arraiján. Eu fiquei curiosa, porque nunca tinha visto essa palavra em espanhol e pensei que pudesse ser algum vocabulário indígena. Para nós, que falamos português, enrolar a língua para soletrar essa palavra é um verdadeiro trava línguas. Chegando ao nosso destino, uma praia maravilhosa no pacífico, lembro que perguntei ao atendente de um restaurante a beira-mar sobre a palavra que me deixou intrigada.

Daí vem história popular, ele me disse que é o nome dado a uma província daqui, porque quando se perguntava aos habitantes do canal, os zonians, sobre como chegar a região vindo da região de Colón, que está ao norte do país, eles explicavam e no final diziam: “at right hand” (do lado direito). E a derivação veio dai, a região do “at right hand” virou na espanholização, “arraiján”. 

Dentro desse universo de um idioma antropofágico, totalamente misturado e transformado em uma comunicação eficiente entre eles está “camarón“, ou seja, um trabalho temporário, que foi uma evolução de “come around“, que era a resposta dos americanos aos panamenhos que iam buscar trabalho ou ganhar um dinheiro com hora extra. Eles diziam algo como, esteja ou passe por aqui, ou fique de olho, e essa expressão ganhou o país como “camarón“. 

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Outro fato curioso é sobre o nome do lugar onde viviam somente os gringos proprietários. O nome da região era “Perry´s Hill” (colina de Perry), que virou “Perejil“.

Com a estadia deles também vieram as marcas gringas. Você pode imaginar que, como nós brasileiros incorporamos o Bombril, a Maizena, Gillete, em terras panamenhas também ocorreu o mesmo, mas com as derivações. Por exemplo, existia uma marca que veio nessa época e era muito usada pelos habitantes da zona do canal. Era uma marca dessas grandes latas de lixo que ficavam na rua. O nome dela era “Tin&Co” e hoje qualquer lata usada para jogar lixo na rua é chamada de ¨tinaco¨.

Dentro do vocabulário popular e do cotidiano existem tantas palavras em inglês que foram mescladas com o espanhol que eles nem percebem mais. É algo tão corriqueiro que parece que sempre fez parte do idioma nacional. E acredito que é uma maneira de eles se individualizarem do resto da América Central. Podemos citar várias, como “chifear” de “shift” significa mudar; “parisear” de “party”, festa; “frén” de “friends“, amigos; “priti” de “pretty“, bonitx; “pay” de “pie“, bolo; “charcot” de “shortcut“, atalho; “tof” de “tough“, duro; “guial” de “girl“, menina; “buay” de “boy“, menino; “porcón” de “popcorn” pipoca; “guichi guaiper” de “windshield wiper“, limpa parabrisas; “parkear” de “park“, estacionar.

Como estrangeira recém chegada, eu tenho a sensação que é um novo idioma. Estão vendo que não é nada fácil, mesmo que eu já tenha vivido em outros países de língua espanhola, eu sinto que é sempre um recomeçar, aprender palavras novas, escutar novas maneiras de dizer e de se usar uma mesma palavra. O idioma é o mesmo, mas existe a história de cada lugar, as influências, a maneira que um povo foi construído nos dá muita mais riqueza e alterações muito peculiares.

É a comprovação na prática que a língua é viva, sofre mutações. Temos esse exemplo em casa. Vejam o quanto o nosso idioma se diferencia do português de Portugal. O que faz muitos linguistas e pessoas da área defenderem que nossa língua é brasileira, já nao é mais português. Agora pensem que nosso país de dimensões continentais produziu várias maneiras de falar dentro do próprio território. Essa mesma lógica se transporta para diferentes países que falam o mesmo idioma. Vocês conseguiram ter a dimensão do quão diferente é os tipos de espanhóis em cada lugar?

Para quem permeia esse mundo de países latino americanos, vivendo aqui e ali, vê na prática o quanto isso de fato é real. Não é só aprender espanhol, é aprender o espanhol do Perú, de Cuba e agora do Panamá. Treinar os ouvidos para distinguir os diferentes tipos de sotaques e entender a palavra dita. E cada vez que me mudo é como aprender de novo. O que me ajuda muito é me misturar, conhecer a história de cada um deles e ver que ela pode ser fundamental na tradução da língua falada e usada no dia-a-dia. Porque o que passa na rua, nas lojas, nas escolas, no teatro, nos filmes é a representação viva do que é o idioma nacional de cada cantinho desse mundo.

E a arte também é um importante fator na contribuição da língua dita, se nota nas letras de músicas, nas festividades, nas crenças que a arte tenta traduzir e materializar.

São os falantes que escolhem quais os maneirismos, palavras e entonação usar e neste mundo globalizado, com redes sociais, os idiomas tem maior interação uns com os outros e tomam emprestados termos e jargões para conseguirem ser efetivos na comunicação. Porque, no final, o ser humano é um ser social e o que quer é se comunicar, então sempre vai encontrar um jeitinho.

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