Deixando os Estados Unidos em busca de uma vida melhor

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Fonte: pixabay
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Deixando os Estados Unidos em busca de uma vida melhor.

O dia de partir se aproxima, e com ele chegam também reflexões sobre meu período em Columbus, capital de Ohio, nos Estados Unidos, que, curiosamente, terá durado exatamente 5 anos – de 6 de agosto de 2013 a 6 de agosto de 2018. Vim para fazer meu doutorado em microbiologia do aquecimento global, e agora vou para a Holanda para ser pesquisadora (veja como consegui a vaga aqui) – com muita alegria, ainda na mesma área.

Sou muito grata pelo privilégio imenso que tive de fazer meu doutorado nos Estados Unidos. As portas do mundo se abriram para mim: conheci pessoas de muitos países e construí uma rede de contatos fantástica no âmbito profissional, o que acho que não teria acontecido se eu tivesse feito meu doutorado no Brasil.

Me tornei fluente em inglês, aprendi a dar aula e atingi um nível de independência científica que eu nem poderia imaginar quando cheguei aqui. Sei desde criança que minha paixão é a ciência, mas foi aqui que entendi o quanto amo treinar estudantes no laboratório e ver meus alunos aprendendo, e me dei por conta do impacto gigantesco e positivo que nós, professores e pesquisadores, podemos ter na vida das pessoas e, portanto, no mundo.

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Percebi também que amo formular uma boa pergunta científica e bolar maneiras de chegar a alguma resposta, de testar alguma hipótese, e que quero trazer conhecimento que, de alguma forma, ajude a diminuir o sofrimento dos seres vivos, a melhorar as condições de vida de todos. No segundo ano de doutorado, não me restaram mais dúvidas: decidi que quero ser professora e pesquisadora, e ainda quero lutar por mudanças de cultura na academia (e fora dela) por mais diversidade, justiça e equidade.

Como eu vim sem vínculo nenhum com o governo brasileiro, sendo aceita para meu programa de doutorado como qualquer aluno americano seria, não tive que me preocupar nem com financiamento – foi-me pago um salário esse tempo todo pela universidade – nem com ter que voltar para o Brasil. Pessoalmente, me sinto aliviada que, na época, decidi primeiro tentar vir independentemente para depois, se nada funcionasse, tentar uma bolsa brasileira. A maioria dos brasileiros ao meu redor que veio com bolsa brasileira percebeu que gostaria de ficar fora do Brasil, optando por devolver o dinheiro ou voltando para o Brasil com dor no coração.

Talvez você esteja se perguntado por que, então, decidi sair dos Estados Unidos quando, usando de minha rede de contatos profissionais, facilmente teria conseguido uma vaga para ficar. Apesar de muita coisa boa que tive aqui, como maior segurança em relação ao Brasil e minha educação, soube desde o início que queria partir. As minhas principais razões são alguns valores da cultura americana e a legislação trabalhista dos Estados Unidos. Os valores a que me refiro são:

  • o patriotismo, que leva muitas pessoas americanas a se sentirem superiores em relação aos demais e ao ódio contra imigrantes (o que senti na pele em alguns incidentes aqui), sustentando a participação de pessoas americanas em guerras (o que também está muito conectado à pobreza, já que muitos se alistam ao exército para financiar seus estudos e sua família);
  • o consumismo, em que as pessoas compram desenfreadamente o que não precisam, vindo de trabalho escravo e/ou infantil em outros países, depois jogando fora e comprando mais, gerando uma quantidade absurda de lixo;
  • e a ignorância proposital, em que muitas pessoas só buscam informações que estão de acordo com as suas crenças ou buscam conscientemente não se informar sobre determinados assuntos, refutando qualquer evidência científica que as contrarie.

Além disso, os Estados Unidos têm muitos dos problemas sociais do Brasil, tais como o racismo e a violência do estado contra a população negra (particularmente em assassinatos de pessoas negras que a polícia comete), a desigualdade social, em que um número muito pequeno de pessoas detém quase toda a riqueza, causando o sofrimento do resto da população com a escassez de recursos, e a violência de homens contra as mulheres – desde a criação de ambiente hostil com piadas e comentários machistas até estupros e assassinatos (estima-se que 20% das mulheres americanas são estupradas ao longo de sua vida).

Me parece que o Brasil é inclusive melhor no âmbito da saúde, já que, nos EUA, pessoas de classe média e pobres adquirem dívidas impagáveis ou simplesmente morrem por falta de acesso a tratamentos (o que também acontece no Brasil). E há ainda problemas típicos americanos, como tiroteios em massa, geralmente em escolas, universidades e igrejas, e a deportação de milhões de pessoas (inclusive de brasileiros) – recentemente, a prática de separar bebês e crianças de seus pais, que chegam à borda pedindo socorro, fugindo de violência, tem chamado a atenção internacional para violações de direitos humanos cometidas pelo estado americano que se assemelham ao nazismo.

Quanto à legislação trabalhista, não há férias nem licença maternidade por lei nos Estados Unidos, ficando na mão do empregador a decisão de pagá-los ou não. Obviamente, o resultado disso é que maioria das pessoas americanas não tem férias nem licença maternidade, e a maioria dos que as obtém fica sem salário durante o período (que, na vida das pessoas ao meu redor, durou apenas 1 ou 2 semanas). A situação é agravada pelo fator cultural: trabalhar longas horas por dia e nos finais de semana é visto como o normal nos EUA, particularmente no âmbito acadêmico.

Portanto, buscando qualidade de vida, decidi partir novamente. A escolha da Holanda foi minuciosa – depois de muita pesquisa e de uma experiência de 4 meses no país ano passado, confirmamos que era isso mesmo que queríamos. A Holanda também tem seus problemas – racismo, patriotismo (super disfarçado) e xenofobia também estão lá.

Contudo, a Holanda está à frente em muitos aspectos: foi o primeiro país a legalizar o casamento de pessoas LGBTQA+, legalizou o aborto há décadas, tem investido massivamente em energias renováveis, reciclagem, restauração de florestas, diminuição do consumismo e das emissões de gases de efeito estufa, o que é muito favorecido pela cultura de bicicleta, o meio de transporte prioritário no país, e descriminalizou a maconha e outras drogas.

Uma das primeiras coisas que ouvi quando cheguei no país ano passado foi que os holandeses medem o seu sucesso não pelo dinheiro e bens que têm, mas pela quantidade de tempo que são capazes de passar com seus amigos e família.

Estou feliz que aproveitei o que havia de melhor nos EUA – a educação superior, algumas pessoas muito especiais e a natureza. Eu teria um salário muito maior ficando nos EUA, mas, sinceramente, não é meu objetivo de vida acumular dinheiro e bens. Eu quero é fazer ciência, lutar por um mundo melhor e curtir meu tempo de vida com quem amo – assim como os holandeses.

*Há brasileiros que têm uma visão dos EUA muito diferente da minha, e a opinião deles também é válida. Esse texto é de cunho muito pessoal – baseado na minha experiência, valores, e visão política; portanto, estou dizendo o que foi melhor para mim, não o que será para você. Decidir o que é melhor para si só cabe a cada um de nós.*

4 Comentários

  1. Morei nos Estados Unidos e concordo muito com teu ponto de vista. Mora na Bélgica com meu marido holandês e acho que vais adorar esses lados – principalmente depois de tanto tempo nos States!

  2. Uau! Parabéns pelas conquistas Paula!
    Ótima decisão, Holanda é um exemplo a ser seguido. Moro na Suíça e aqui também há muito respeito e educação com as pessoas e natureza.
    Só não esqueça de trazer erva mate. Bem vinda na Europa!

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