Enfermeira faz Doutorado?

Porquê e para quê?

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Foto: pixabay.com
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Sou enfermeira há doze anos. Lembro exatamente do primeiro dia de aula, da alegria de ter passado no vestibular e também minha atração pela pesquisa. A faculdade parecia ser o ápice para a realização do sonho de ser cientista, mas era só o começo.

Na graduação fui exposta à pesquisa de uma forma ampla, porém decisiva para saber que gostava daquilo, mas que precisaria de um doutorado para adquirir mais conhecimento. Mas enfermeiro faz doutorado? Por que? E para que? Perdi a conta de quantas vezes ouvi esta pergunta. A resposta é simples: porque tudo, TUDO mesmo que hoje temos disponível na prática clínica veio de uma pesquisa. Ou de muitas! Desde a quimioterapia até a maca do hospital, todos os tratamentos, medicamentos, e assistência oferecida aos nossos pacientes são resultados de pesquisas científicas, por isso chamamos de cuidados baseados em evidências (evidência científica, no caso).

Vamos a um exemplo simples. Pense numa pessoa diabética com uma ferida na perna. O médico faz sua avaliação, prescreve medicamentos adequados para estabilizar a glicemia (nível de açúcar no sangue), para aliviar a dor etc. tudo isso baseado no diagnóstico médico. A enfermeira avalia a ferida, verifica a integridade da pele, escolhe o curativo adequado, orienta sobre a manutenção e troca daquele curativo. Tudo isso baseado no diagnóstico de enfermagem. Mas como o diagnóstico médico e de enfermagem foram estabelecidos? Através de cientistas (médicos, biólogos, e sim, enfermeiros!) que estudaram a diabetes, os problemas causados e como resolvê-los.

Tanto a escolha do tratamento médico quanto o de enfermagem são baseados no resultado de investigação científica. É bastante comum no Brasil vermos farmacêuticos, biológicos, médicos e outros profissionais da área da saúde fazendo mestrado e doutorado. Os resultados de suas pesquisas sustentam o exercício da sua profissão. Então porque não temos tantos enfermeiros com doutorado no Brasil? Tenho várias teorias e fatores que podem responder esta pergunta.

O primeiro fator é o acesso limitado a educação de nível superior, não só para enfermeiros. Cursar uma faculdade não é algo barato, mesmo sendo uma universidade pública. Gasta-se com alimentação, livros, transporte e moradia. Aqueles que estudam em universidade privada gastam ainda mais. Comumente vemos o enfermeiro recém-formado ansioso pelo primeiro emprego, já pensando no retorno deste investimento após 5 anos de faculdade e não há nada de errado nisso. Poucos retornam para uma especialização, mestrado ou doutorado.

O segundo fator é a nossa cultura tanto no ambiente de trabalho quanto na sociedade, que vê a enfermeira como executora de tarefas, ao invés de um profissional cientificamente habilitado para tomada de decisão e cuidados clínicos. Aqui caberia uma discussão ampla e fervorosa sobre o papel da enfermeira e até um mea culpa porque são muitos os estereótipos que cercam a profissão. Uma terceira teoria seria a reduzida oferta de vagas para enfermeiros em programas de doutorados, enquanto farmacêuticos, médicos e outros profissionais da área biomédica tem uma flexibilidade maior para admissão em cursos em qualquer área de pesquisa.

No meu caso, o maior empecilho para fazer doutorado no Brasil foi o terceiro fator. Procurei programas de doutorado dentro da área que gostaria de estudar e ouvi muitos nãos. Era de praxe ouvir “o curso não aceita enfermeiro”. As justificativas eram as mais variadas, desde a grade de disciplinas até a necessidade de fazer pesquisa experimental.

Nos Estados Unidos, as ambiguidades na grade de disciplinas e necessidade de aprender pesquisa experimental são resolvidas com estudo e treinamento. O doutorado dura pelo menos quatro anos, variando entre quatro e sete. Neste tempo, temos a oportunidade de escolher uma área de pesquisa e nos especializar nela, independente do rótulo da sua profissão. Existem também cursos direcionados especificamente para enfermeiros, como temos no Brasil, porém com uma oferta de vagas muito maior.

Durante os quatro anos de doutorado cursei disciplinas com objetivo de me tornar expert em uma área da ciência. Com isso, algumas disciplinas foram de enfermagem, outras de medicina, neurociência, engenharia. Isso porque o doutorado forma cientistas independente do seu rótulo inicial. Sendo enfermeira, os problemas científicos que investigo são aqueles que afetam o dia a dia dos meus pacientes.

Enfermeiras cientistas identificam problemas na prática clínica, seja no hospital, atenção básica, ou até nas legislações que permeiam a assistência ao paciente e ao cidadão. Todo problema identificado gera a busca por soluções baseadas em evidências para melhorar a qualidade de vida do paciente. Mas não pensem que toda essa flexibilidade e apoio dos EUA fazem um mundo perfeito.

De vez em quando alguém se espanta quando digo que sou enfermeira, faço doutorado e estudo Cronobiologia. Sinal de que ainda há espaço e demanda para expandir nossa profissão e nos tornar mais visíveis.

Leia – fazer Mestrado e Doutorado nos EUA!

2 Comentários

  1. Olá! Confesso que há bastante tempo procuro um artigo que traga com tanta clareza o que eu buscava para esclarecer a minha dúvida! Estou no segundo periodo do curso superior de enfermagem e noto que muitos se prendem somente no termo cuidado, ou como se ultiliza no artigo acima: fazedor de tarefas, quando se referem ao enfermeiro(a) e pouco se percebe do interesse pela pesquisa cientifica.

    • Oi Saulo, obrigada por ler o texto e pelo comentário! O cuidado realmente vai além de fazer taredas. O embasamento científico é fundamental para diagnóstico, tratamento e cuidado!
      Fico feliz por você se interessar pela ciência e já na torcida para você se tornar um enfermeiro cientista.
      Boa sorte!

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