George Leite – Empresário, fotógrafo e ator na Islândia

Coluna do Clube do Bolinha

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George no seu bar, o Kaldi.
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George Leite – Empresário, fotógrafo e ator na Islândia.

Hoje o BPM, na Coluna do Clube do Bolinha, entrevistou o George* Leite (*na Islândia “Georg”), baiano de Salvador. Foi o primeiro brasileiro que conheci na Islândia, há 16 anos, a primeira vez em que estive aqui, de férias. Naquela época, ele trabalhava num bar bem badalado de Reykjavik e jogava polo aquático profissionalmente, representando a Islândia em competições internacionais. Era tão famoso que um dia, enquanto eu esperava na fila do caixa do supermercado, vi sua foto estampada na primeira página de um jornal grande daqui, numa manchete de esporte e pensei, nossa, mas eu conheço esse cara não sei de onde, ele é brasileiro! Sabe aquela sensação de reconhecer uma coisa de casa, familiar, num lugar tão distante?

Georg Leite jogando polo aquático. Foto Andrea Þórey Hjatadóttir.
Georg Leite jogando polo aquático. Foto Andrea Þórey Hjaltadóttir.

Depois de algum tempo, quando mudei para cá, fomos nos conhecendo melhor e hoje posso dizer que, se sua trajetória sempre foi de sucesso, é por causa da sua atitude positiva, Goggi – como é chamado pelos islandeses – está sempre sorrindo e é muito querido por todos. Quando perguntado sobre o que faz na Islândia, sendo da Bahia, já o ouvi responder: “Rapaz, eu sou negão, não sei jogar futebol, nem dançar capoeira, o que é que eu vou fazer no Brasil?”

Hoje ele tem seu próprio bar – o Kaldi, que, aliás, serve a melhor cerveja da cidade –, é fotógrafo e ator de uma série que está sendo exibida em vários países europeus e pelo mundo na internet. É tão popular em Reyjkavik (e isso já muito antes da TV), que reclama ser difícil sair para jantar num restaurante em paz, de tanto que é interrompido pelas pessoas que o conhecem e querem bater um papinho. Tem uma filha linda de 11 anos e vive num relacionamento sério.
Nosso encontro foi super curto, mas fiquei muito grata de ele ter achado um tempinho para responder às perguntas do BPM no meio da sua agenda super lotada, uma honra!

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Fale um pouco sobre a sua trajetória, há quanto tempo mora fora?
Moro fora do país há 18 anos, a maioria deles na Islândia. Morei também na Espanha por um ano, estudando, e na Inglaterra, por 10 meses. Também voltei para o Brasil por 2 anos e tentei morar lá.

Você fez algum curso na sua área profissional fora do Brasil? Se sim, o que recomendaria a quem tem interesse em seguir a mesma carreira?
Então, eu cheguei na Islândia como estudante de intercâmbio. Depois disso, terminei o segundo grau aqui e fiz faculdade de administração na Universidade de Reykjavik. E, sim, recomendo para jovens que pensam em explorar outros países e desejam expandir os idiomas sair, mesmo.

Você sofreu algum preconceito por ser brasileiro, ou a sua nacionalidade é irrelevante?
Enfim, eu sou negro e nordestino, e com essas características, só sofro preconceito no Brasil e por brasileiros. Mas, aqui, não de uma forma que me incomode.

Foto: George Leite.
Foto: George Leite.

Você acha que se estivesse no Brasil teria as mesmas oportunidades que teve aqui ou morar fora mora lhe proporciona mais chances?

No meu caso, realmente não sei como seria se estivesse no Brasil desde do princípio da minha vida profissional. Lá existe preconceito, mas são preconceitos leves, e até normais, eu não ligo. O que eu posso dizer agora é que eu nunca vou morar no Brasil de novo; isso é certo.

Qual o seu recado para os leitores do Brasileiras Pelo Mundo que possam estar se preparando ou apenas sonhando em fazer carreira fora do Brasil?
Então, a vida fora é uma aventura e uma oportunidade que muda a vida de uma pessoa literalmente. Dito isso, se alguém quer se aventurar, que faça com a consciência preparada e aberta para aprender, respeitar e absorver outras culturas, valores e ideologias.

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O que você faz agora profissionalmente e como alcançou isso?
Sou fotógrafo, estudei fotografia em São Paulo, entre 2011-2013, depois dei uma volta pelo Brasil. Também sou empresário, possuo um bar no centro de Reykjavik e um estúdio de fotografia. Estudei administração, o que me deu noção de negócios, mas também trabalhei muito nesse ramo, em bares bem sofisticados de Reykjavik, onde pude acumular muito conhecimento prático.

O que o motivou a viver e seguir uma carreira no exterior?
A falta de burocracia e ser valorizado pelas minhas qualidades e não pela cor da minha pele, ou por ser amigo de um João qualquer.

No começo, qual foi o seu maior desafio?

O idioma. Mas eu era bem novo, então, com dedicação, deu para aprender bem.
(Nota da entrevistadora: O islandês é uma língua muito difícil. George não entrou em detalhes, é muito modesto, mas sei que os islandeses dizem que ele fala perfeitamente, sem sotaque, como um nativo).

Qual é o seu maior desafio hoje? E o que te mantém motivado a continuar?
Meu maior desafio é continuar progredindo e minha motivação é minha filha e minha família.

O que você mais gosta na Islândia?
Eu gosto muito da liberdade e tranquilidade se a gente comparar com o Brasil.

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Você começou a trabalhar como ator numa produção islandesa de sucesso, Ófærð (“Trapped” em inglês; em tradução livre para o português, “Encurralado”), como está sendo essa experiência, conta para a gente, que vantagens na vida isso te trouxe?

A experiência foi muito legal, não esperava que fosse ser um grande sucesso, nem que meu personagem teria tanta repercussão. Na verdade, é muito parecido com o que vivo na fotografia, o que muda é estar do outro lado da câmera. As vantagens é que como tenho um negócio, ajuda a divulgar.

George atuando no seriado "Trapped" de TV. Foto tirada da minha TV.
George atuando no seriado “Trapped” de TV. Foto tirada da minha TV.

Você pretende fazer mais trabalhos como ator, alguma produção em vista?

Sim, estou atuando em um documentário chamado “Hans Jonatan” que deve ser lançado em novembro.

Conte um pouco sobre o seu trabalho como fotógrafo.

Você pode ver um pouco do meu trabalho no meu site, fotografo pessoas, paisagem, veja aqui. E estou lançando um livro em breve, “New faces of Iceland”, mas isso é surpresa, vocês podem conferir quando sair.

Qual o seu lema de vida?

Viver o momento. Um dia de cada vez, um depois do outro.

32 Comentários

  1. Erika, adorei a entrevista com o George, e vou compartilhar, pois quero tambem ser vitrine deste espetacular referencial. As perguntas e respostas deixam evidenciados a versatilidade e o espirito empreendedor do Brasileiro, quando posto em pratica juntamento com o talento, da’ certo em qualquer parte do mundo. Parabens a ambos.

  2. Que entrevista interessante! É difícil imaginar um brasileiro se naturalizar em um país como a Islândia. É um país que tem características quase que opostas ao Brasil. De qualquer forma, é motivador pra mim ver brasileiros que conseguiram ser vitoriosos morando no exterior.

    Tenho algumas perguntas de curiosidade: existe um número grande de estrangeiros que moram na Islândia? Ou a população é praticamente inteira de islandeses étnicos? Eu mesmo nunca vi um(a) islandês(a) famoso(a) de origem estrangeira, ou que seja naturalizado.

    E sobre como é viver num país com uma população tão pequena, existe aquele clima de que “todo mundo se conhece” (tão comum em cidades pequenas “de interior” no Brasil)? Muito obrigado Erika!

    • Olá, Elias,
      muito obrigada por ler e comentar!
      Segundo o Departamento Nacional de Estatística Islandês (o “IBGE” daqui), 7,4% da população do país é composta por estrangeiros. Se eles são casados com islandeses ou estão aqui com as suas famílias estrangeiras, eu não consegui descobrir, mas esse é o número de registrados oficialmente.
      Quanto a existirem islandeses famosos de origem estrangeira, há vários, sim. A cantora Emiliana Torrini, por exemplo, que é filha de um italiano com uma islandesa (veja o vídeo aqui)
      Também os islandeses da banda Retro Stefson (famosos na Europa e EUA) são filhos de uma angolana com um islandês. Veja este vídeo deles aqui ).
      O diretor de cinema islandês mais famoso no momento, Baltasar Kórmakur também é filho de um espanhol com uma islandesa.
      Agora, quanto a viver num lugar pequeno, realmente a gente acaba encontrando muita gente conhecida pela rua, mas Reykjavik, sendo a capital, também tem um quê de internacional, principalmente agora, com um aumento considerável do turismo.
      Espero que possa nos acompanhar sempre por aqui. Abraço

  3. Ser lindo, iluminado, cativante. O pouco tempo que passei com ele foi de puro axé. George é o cara! Ainda mais sucesso, alegrias e muita saúde para ele!

  4. O que falar de george. Conheci George na faculdade cursávamos Direito. Dois ou três anos fazendo o curso juntos. Foi muito bom aquela época. Nossas conversamos nas caronas que dávamos um ao outro. Tempos bons que não voltam mas. Nossas farras, nossas brigas mas quando fazíamos aa pazes era so alegria. Muito feliz por vc geo.

  5. Adorei a entrevista do George e saber do reconhecimento do sucesso desse garoto. É amigo dos meus filhos aqui na Bahia e temos uma consideração muito grande por ele um membro da nossa família fico mt orgulhosa. Parabéns a Eryka e ao BPM.

  6. Olá. Fico feliz pelo sucesso de George . Ele sempre foi uma pessoa genial e esforçada. Desde quando éramos adolescentes. Treinavamos e viajamos juntos para competir. Ele esqueceu de mencionar o inicio disso tudo, namorador como era arranjou uma namorada islandesa e foi ai que tudo começou. Abraços irmão e muito sucesso . Cristiano.

  7. Linda a matéria. É animador e revigorante , sentir como brasileiros e brasileiras estão crescendo pelo mundo. Que Deus abençoe a sua como repórter E viajante pelo mundo. Muito bom sentir a verdade em suas palavras e nas do entrevistado. Um dia estarei aí para conhecer este mundo da Islândia que tanto me encanta.

    • Muito obrigada, Jaqueline! Fico feliz e grata que gostou da entrevista, é realmente bem verdadeiro, o George merece todo o sucesso que tem, que isso sirva de inspiração mesmo a quem corre atrás dos seus sonhos.
      Quando vier à Islândia, vamos tomar uma cerveja no Kaldi Bar? Abraço

  8. Oi, Erika.

    Muito obrigado por seus blogs sobre a Islândia. Vou visitar Reykjavik no meu caminho para a Itália na ida e na volta daqui a uma semana. Com certeza vou parar lá no bar do Jorge e tomar uma cerva.

  9. Cai neste blog de paraquedas e fiquei impressionado com a trajetória de George, o Goggi. Fico num misto de alegria e tristeza por pensar que o nosso país perde, todos os dias, pessoas tão incríveis pela simples falta de oportunidade ou preconceito. Confesso que foi um tapa com luva de pelica a questão racial não dos europeus nórdicos, mas sim dos próprios brasileiros. A vida é mesmo engraçada, às vezes é preciso ir até à terra do gelo para descobrir que nem tudo são flores na terra do sol.

    • Obrigada por ler e comentar, Chico!
      É muito bom viver em uma sociedade tolerante e aberta como as dos países nórdicos, quem experimenta isso, acaba ficando, mesmo. Que um dia a tolerância se espalhe pelo mundo e o preconceito desapareça.

  10. Excelente matéria! Encontrei-a porque estava procurando material sobre a excelente série Trapped, que terminei de assistir, e soube que o “cozinheiro” é brasileiro.
    Melhor de tudo, na entrevista, é que ela foi conduzida com muito brilhantismo e sem pieguice, viés político e nem vitimismo, o que atualmente é muito comum no Brasil.
    Parabéns!

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