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Jeitinho brasileiro e as regras francesas

Jeitinho brasileiro e as regras francesas

Eu e meus amigos costumamos brincar que o Brasil é a terra onde se pode tudo e a França é a terra onde não se pode nada. No Brasil nós somos mal-acostumados de que tudo se dá um jeitinho e, no final, as coisas acabam saindo do jeito que queríamos. Esqueça tudo isso ao desembarcar na França. Aqui o freguês não tem sempre razão e as regras são feitas para serem seguidas e não burladas.

A grande vantagem disso é a garantia de sempre saber o que esperar das coisas. Na França as pessoas se respeitam, e isso é lindo! No Brasil às vezes tenho a sensação de que algumas pessoas abusam. Por exemplo, em relação a questão do “freguês tem sempre razão”, muitos  clientes acabam muitas vezes humilhando quem está atendendo seja para reclamar de alguma coisa que saiu errada, ou para conseguir algo que desejam. Em um ano de França eu NUNCA presenciei uma cena de alguém discutindo com um garçom ou um atendente em uma loja, e consigo imaginar a pessoa sendo convidada a se retirar caso mude o tom de voz. As pessoas aqui jamais vão tratar um garçom ou um atendente como alguém que está ali somente para servir, mas sim como alguém que está fazendo o seu trabalho.

Leia também: tudo que você precisa saber para morar na França

É aí que entra o conceito de que o “freguês não tem sempre a razão” e não pode tudo. Sabe quando você pede para o garçom se você pode trocar o purê por fritas, tirar o molho da carne e a salada vir sem pepino? Jamais tente fazer isso na França. Aqui todo mundo come exatamente o que está descrito no menu e ponto final. No máximo eles vão te perguntar qual o ponto da carne, mas mesmo que você diga “bem passada”, ela vai vir vermelhinha (o terror dos meus amigos brasileiros que adoram uma carne estilo carvãozinho). Isso vem do fato de que o francês entende que, se aquela é a combinação oferecida pelo chef, ela deve ser respeitada, afinal de contas, se você quiser outra combinação você pode procurar outro restaurante, certo?

A desvantagem disso é que algumas vezes precisamos pedir algum ajuste na comida, como melhorar o ponto da carne ou pedir um prato vegetariano e é aí que você começa a perceber o porquê de os franceses sempre obedecerem e ponto, porque é nessa hora que o conflito começa. Uma vez, um amigo meu pediu para passar mais o ponto de uma carne que veio praticamente crua e recebeu um carvão de volta (punido pelo chef do restaurante) e sinto pena de todos os meus amigos vegetarianos. Não sei como é no resto da França, mas é muito difícil ser vegetariano em Toulouse. Raríssimos restaurantes oferecem pratos vegetarianos e há uma acerta irritação francesa quando algo vegetariano é solicitado. Muitas vezes eles te oferecem peixe (oi???), e o que a maioria dos vegetarianos acaba ganhando é um prato com uma mistura de acompanhamentos dos outros pratos do dia. Eu não sou vegetariana, mas sempre que estou acompanhada de amigos que são, já me sinto tensa na mesa do restaurante, preocupada se meus amigos serão bem tratados e se irão comer bem.

É essa intransigência francesa que leva meus amigos brasileiros a me relatarem um certo sentimento de castração, de que você não pode ter vontades ou precisar de nada fora do padrão. Essa obediência às regras está em tudo no cotidiano francês, no restaurante, na burocracia, na saúde. Um exemplo dessas regras cotidianas francesas que aconteceu comigo recentemente, foi que eu comprei um ingresso de teatro com meses de antecedência, no entanto, apareceu um curso que eu queria muito fazer em Londres na mesma data. Eu chequei no site do teatro e vi que, tanto no dia em que eu havia comprado os ingressos, quanto nos outros dias de espetáculo haviam vagas. Aí eu pensei “ótimo, vou até a bilheteria e peço para eles me trocarem de dia”. Ledo engano. A mulher da bilheteria simplesmente me olhou e disse “sinto muito, não trocamos ingresso”. Depois de gastar todo o meu francês tentado argumentar com a mulher, já indo embora, eu comentei que era uma pena porque eu precisava fazer uma viagem de estudos e iria perder o ingresso. Nesse momento ela me disse “ah, nesse caso você me traz a justificativa junto com os ingressos e trocamos para você”. O meu primeiro pensamento foi “custava ela ter me dito isso antes?”. A lição aprendida foi que não existem exceções e que, quando houverem, ninguém vai te contar.

Leia: Me mudei para a França e agora?

A obediência às regras também se reflete na saúde. Como a saúde é verdadeiramente, para todos (e essa é uma das coisas que mais me encanta na França), você não vai chegar no médico e vai receber pedidos para um monte de exames, poder pedir por algum tratamento específico ou por algum remédio. Se o médico achar que você deve esperar, você vai esperar. Esses dias uma amiga estava me contando que o filho estava com otite e ela levou o filho no médico, que olhou e disse: nossa, está bem feio, ele deve estar com muita dor, vamos dar paracetamol. Aí ela, mãe brasileira, pensou “como assim paracetamol? Por que não um antibiótico?”, claro que ela não argumentou, porque aqui não se argumenta, ela voltou para casa com o paracetamol que funcionou para aliviar a dor e, em algum momento, a otite passou.

No fim das contas, essas regras francesas enrijecidas não são coisas que vão te prejudicar, afinal, ninguém vai morrer de não poder trocar purê por fritas ou não poder trocar o ingresso do teatro, mas são coisas que vão cansando na rotina francesa. A minha tática para lidar com esse sentimento de “castração” é lembrar que fui eu quem escolheu morar aqui e que não importa o quanto eu reclame, o jeito francês não vai mudar, sou eu que preciso aprender a viver conforme o esperado das pessoas nesse país. Não existe país perfeito, o que precisamos aprender é a nos adaptarmos ao país que escolhemos para morar, para um dia nos sentirmos em casa e podermos chamar esse país de lar.

E você já esteve na França? Já passou por alguma dessas situações? Aguardo seu comentário!

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14 comentários

Fernando Porto Ricardo Fevereiro 6, 2018 at 1:05 pm

Oi Fernanda,

Você mora fora de Paris, né? 🙂 Eu digo porque fato essencial de ser parisiense é se tornar chato, muito chato em restaurante. Principalmente com garçom. No inicio a gente aceita calado essas mini-grosserias dos garçons. Até perceber que os parisienses lidam com isso de forma bem firme – eles não vão pedir para mudar o prato todo como a gente faz MAS em algumas coisas (acompanhamento, ponto da carne) eles vão exigir o que sabem que podem exigir. Um sorriso e um “s’il vous plaît, ça vous dérangerait si…” quase sempre funcionam. E quando não funciona é partir para o “Monsieur, franchement, ce n’est pas possible” e falar que não se vai pagar por um serviço mal feito.

França para mim é o pais da alta expectativa. E aqui é essencial saber quando ter que aceitar essa castração deles e quando precisa descer do salto e rodar a baiana.

Boa sorte e não aceita tudo não! Resista! 🙂

Fernando

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Fernanda Libardi Fevereiro 6, 2018 at 6:14 pm

Oi Fernando, tudo bom?
Adorei o seu comentário! Eu moro em Toulouse, acho que é um pouco diferente do clima de Paris mesmo. Aqui é mais difícil de vermos pessoas se impondo nos lugares, mas também acho que os franceses se impõem mais que eu. Para mim um ponto é não dominar o francês tão bem assim e outro é que às vezes acho que as pessoas aqui vivem prontas para uma discussão e eu não gosto de me sentir nesse clima de “pronta para a briga”, mas também acho que não é saudável não ter as suas vontades respeitadas. Então, o meio do caminho é o melhor negócio, né?
Abç!

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Daniela Fevereiro 6, 2018 at 8:45 pm

Meio do caminho é mesmo otimo. Aqui as pessoas não se respeitam e não aceitam o tempo todo necessariamente. As regras sao outras. Os franceses tem uma forma sutil de te dizer com licenca ou obrigado querendo dizer vai se fuder que me irrita bastante. Tantas diferencas… Tanta coisa boa e tanta coisa menos boa…

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Fernanda Libardi Fevereiro 11, 2018 at 3:55 pm

Daniela, obrigada pelo comentário, concordo plenamente. Eu sempre tenho a sensação de que o “je suis désolé” não significa sinto muito e sim “não me importo com você, por favor, vá embora logo.

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Tati Fevereiro 8, 2018 at 5:49 am

Nossa, eu senti muito mais falta de respeito na França. Falta de respeito com qualquer diferente, o vegetariano, o intolerante à lactose, estrangeiro, etc. Acredito que se o respeito nao for mútuo, na verdade não existe respeito. Tem q respeitar o chef, mas o cliente também merece respeito, não é?

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Fernanda Libardi Fevereiro 11, 2018 at 3:58 pm

Oi Tati, tudo bom? Também acho que se o respeito não for mútuo não vale de nada. Aqui em Toulouse me dá a sensação de que eles são mais ranzinzas do que desrespeitam.

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Mirella Arruda Fevereiro 8, 2018 at 9:35 am

Caramba… Eu não conheço a França, mas está muito presente no meu ciclo social. Já escutei muito do abismo em que possuimos entre ele. Algo como “não é não” e eu super BR tentando questionar ” mas pq?” “E se?”, senti no seu texto a forma que retrata a sociedade como se fosse uma conversa ou discussão com qualquer francês que conheci, eles diretos e práticos e eu sensitiva, intuiva, detalhista e questionadora.
Inclusive nessa de “sempre soubermos o que esperar” os tratamos como previsíveis e nós para eles, surpreendentes. Mas enfim, com todas nossas diferenças sou encantada com os franceses que tenho proximidade e hoje, louca para aprender o idiomas.

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Fernanda Libardi Fevereiro 11, 2018 at 3:59 pm

Oi Mirella, tudo bom? Que legal o seu comentário, achei que você se identificou bastante, né? O idioma é lindo, vale a pena aprender, mas eu sofro bastante, acho bem difícil.

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Thais Fevereiro 8, 2018 at 9:48 pm

Moro em Strabourg e voce descreveu exatamente como me sinto frente a burocracia francesa. E depois de muitas caras feias por ai rs peecebi que o grande problema nao é pedir para mudar algo, mas sim que eles não sabem lidar com o improviso! Tudo tem que ser dentro da linha, pois se sai 1cm eles não sabem como agir rs

Digo isso pq fui ha um restaurante e apenas troquei a posição dos pratos, e o garçom simplesmente entrou em panico rs nao sabendo como agir e o pq eu tinha feito aquilo…ate explicar foi muitos sorrisos fechados rs se é q me entende 😉

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Fernanda Libardi Fevereiro 11, 2018 at 4:01 pm

hehehe oh, se te entendo! Consegui imaginar a cena no restaurante. Pelo jeito não muda muito ao redor da França, né? Você tão longe de mim aqui em Toulouse e com a mesma impressão.

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Marcella Delfraro Fevereiro 11, 2018 at 11:08 am

Salut Fernanda!
Adorei seu texto !
Gente, eu acho os franceses um tanto quanto “bitolados” e isso se confirma quando você contou a historia da troca do ingresso do teatro… Eles respondem a sua pergunta e na maioria das vezes não propõem uma solução ao problema ! Ja passei por varias situações desse tipo !
E com relação ao direito do consumidor, acho que no Brasil estamos anos na frente nesse quesito… Aqui isso praticamente não existe (ou melhor as pessoas não fazem valer seus direitos por não conhecerem). Eu recentemente tive um problema com um par de sapatos que eu comprei, dai falei com meus amigos franceses: “vou la na loja pra mostrar o problema e pedir pra trocar por outro”… Eles ficaram completamente espantados: “como assim trocar???”… Pois é, fui na loja, expliquei pra vendedora e acabei conseguindo trocar ! 🙂

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Fernanda Libardi Fevereiro 11, 2018 at 4:04 pm

Oi Marcella, tudo bom?
Que bom que você gostou do texto. Também acho que estamos muito na frente no quesito direitos do consumidor e quando morei na Itália foi a mesma coisa. Tive um problema com uma locadora de carro que me cobrou duas vezes e os italianos acharam um absurdo eu querer reclamar, que eu nunca conseguiria o dinheiro de volta, pois eu fui reclamar e consegui, assim como você conseguiu com o seu sapato, mas é tudo mais difícil do que precisava ser, né?

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Anne Carvalho Fevereiro 21, 2018 at 3:20 pm

Nossa, foi bom eu ter lido esse texto. Sou vegana, e mesmo no Brasil, contando com a boa vontade e criatividade dos garçons e cozinheiros, muitas vezes é difícil comer em restaurantes “normais”.
Estou há 6 meses morando na Colômbia, e embora adore tudo aqui (o povo é até mais amável que no Brasil), conto os meses pra voltar ao Brasil, por causa da comida…
Pelo meu trabalho, tenho a chance de ir fazer doutorado na França, especificamente em Toulouse… E era algo que eu realmente queria e já estava me planejando… Mas agora vou ter que repensar… Passar 3 anos sofrendo em todas as refeições certamente não vai ser uma experiência nada agradável…

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Fernanda Fevereiro 26, 2018 at 2:51 pm

Oi Anne, tudo bom?
É difícil, mas não desanime!
Toulouse é uma cidade deliciosa e a universidade aqui é excelente. Acho que é importante estar preparada para o que esperar. Preciso escrever um post com calma sobre as minhas impressões de Toulouse, mas te garanto que, fora a quantidade de coco de cachorro na calçada, eu gosto muito daqui.
Quanto à comida, a parte boa é que aqui na França comemos muito em casa e a oferta de verduras e legumes é enorme, além de ser fácil de comprar porque a cidade tem dois mercados municipais e várias feiras livres.
Eu não sou vegetariana, mas acabei diminuindo muito meu consumo de carne vermelha aqui, até porque é caro, e tenho me virado muito bem com cogumelos, legumes, ovos e muita salada.
Sim, ir a um restaurante é mais desafiador hehehe. Existem alguns (poucos) restaurantes vegetarianos pela cidade que servem comida vegana e nos restaurantes comuns, em geral, não tem mesmo comida vegetariana, que dirá vegana. Eles não se preocupam muito em ter um prato vegetariano no cardápio, no entanto, sempre tem salada e a opção de ganhar um prato com os acompanhamentos do cardápio. Acho que a cidade está se modernizando mais em relação a isso, mas não vejo uma grande mudança a curto prazo. Acho que aqui na França só em Paris para viver bem como vegano, mas posso estar enganada.
Se você tiver mais dúvidas pode me escrever.

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