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A volta para o Brasil

Escrevo esse texto já em terras tupiniquins, no calor de 35 graus paulistano ao invés do friozinho de Toulouse. Fomos sabendo que o dia de deixar a França chegaria, pois, o meu marido foi para um trabalho temporário e eu, como psicóloga clínica, sempre soube que apesar do Skype me ajudar muito a trabalhar pelo mundo, em casa tudo é mais fácil.

Nem por isso deixar Toulouse foi fácil. Eu já tinha morado na Itália por um curto período durante o meu doutorado e sabia que me identificava muito com o estilo de vida europeu, mas foi passando esses dois anos na França que eu realmente entendi o valor dele. Foi na França que a vida de bicicleta me conquistou (até porque a cidade que eu morei na Itália era cheia de morros e ninguém andava de bicicleta). Foi na França que eu aprendi o valor de ter sempre um espaço público para lazer a uma distância a pé de casa. Foi na França que eu aprendi o verdadeiro sentido de igualdade entre cidadãos (apenas para algumas coisas, claro), mas aqui no Brasil não temos igualdade para nenhuma. Aprendi que é melhor não fazer muitos exames e não viver indo no médico para termos médico e exames para todos. Aprendi que as cordialidades do cotidiano como “bom dia”, “obrigada”, “tenha um bom dia” fazem toda a diferença nas interações do dia a dia. Aprendi que todos os cidadãos se sentem responsáveis pelos rumos do país e que não precisa de muito para manifestações e greves acontecerem. Aprendi que viajar leve é a chave para viajar sempre (e como viajamos!). Aprendi a consumir ainda menos do que eu já consumia no Brasil, que eu preciso de apenas uma bolsa, um casaco, pouquíssimos pares de sapatos e que ninguém, mas ninguém mesmo vai reparar em como eu estou vestida.

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Mas também tivemos aprendizados ruins, claro. Aprendemos que os franceses são individualistas e indiferentes aos problemas dos outros. Aprendemos que franceses são ranzinzas e não pensam duas vezes antes de entrar em uma discussão com um desconhecido ou serem grosseiros. Aprendemos que as coisas não têm “jeitinho”, que elas são como elas são e que regras existem para serem seguidas (o que é o certo, mas às vezes poder dar um jeitinho faz toda a diferença para facilitar a sua vida). Aprendemos que a saudades de casa é infinita e que não melhora com o tempo, você só se acostuma a ela.

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Acho que se pudéssemos escolher um país para chamar de nosso hoje, ele ficaria na Europa, mas talvez não fosse a França, simplesmente porque para ser “para sempre” a França ficaria devendo para gente na parte humana. Mas claro que essa é a nossa opinião, dentro das nossas necessidades afetivas. No entanto, o balanço dessas experiências foi mais do que positivo e deixamos a França com um gostinho de “quero mais”. Com certeza teríamos passado mais um ano muito feliz por lá.

Percebo que nesse curto período de tempo em que estamos de volta ao caos de São Paulo temos tentado aplicar muito do que nos conquistou na nossa vida fora. Alugamos um apartamento em um bairro em que eu consigo ir a pé para o meu consultório e o meu marido vai de bicicleta para o trabalho dele. Também moramos perto do metro e temos evitado carro a qualquer custo, embora tenhamos comprado um. Temos tentado fazer o máximo de coisas a pé como ir ao supermercado, a restaurantes, à padaria ou qualquer tipo de serviço.

Como eu cheguei grávida de quase sete meses outra coisa que tentamos manter como na França foi o estilo do pré-natal. Procuramos uma equipe de parto humanizada, fizemos muito poucos exames, na verdade praticamente os mesmos que faríamos na França, embora o nosso plano de saúde nos desse direito a ir fazer quantos ultrassons quiséssemos, escolhemos ter menos para que todos possam ter, afinal, quanto mais exames, mais caro o plano de saúde fica e menos pessoas tem acesso.

Também temos questionado muitas “necessidades” brasileiras que (podem) incluir gastar fortunas e que qualquer europeu quando ouve arregala o olho como chá de bebê, lembrança de maternidade, “mesversário”, enxoval gigante. Como diz o pequeno príncipe “o essencial é invisível aos olhos”.

Enfim, temos tentado aplicar o princípio de que menos é mais e que muito poucas coisas são essenciais de verdade e é muito bom saber que estamos conseguindo ter um pouco desse estilo de vida que acreditamos aqui em São Paulo. E além disso tudo ainda ganhamos a parte boa de estar de volta em casa. De ter a família e os amigos por perto, de ter a certeza de que as pessoas estão entendendo direitinho o que você está falando, de termos céu azul quase todo dia, entre todas as coisas deliciosas de estar de volta. No entanto, a única certeza que temos hoje é que a nossa jornada por esse mundão não terminou e que, assim que a próxima oportunidade bater na porta, iremos embora de novo. Merci, France!

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