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Como viver na França me transformou para sempre

Eu sempre fui uma pessoa aberta a experiências, a ouvir ideias diferentes das minhas, a debater, então, ao chegar na França eu estava de coração aberto para tudo que essa experiência poderia me trazer, mas jamais poderia imaginar o que estaria por vir, afinal, no Brasil muito se fala da culinária francesa ou de como os franceses podem ser ranzinzas, mas pouco se fala sobre a forma deles de pensar o mundo.

A primeira coisa que me chocou foi o dia em que eu fui na farmácia com uma receita do meu médico e a Carte Vitale (cartão de saúde do governo), o farmacêutico me deu os remédios e tchau. Eu ainda perguntei se não tinha que pagar nada e ele quase riu da minha cara. Essa foi a minha primeira lição sobre igualdade no sistema de saúde francês, sobre como é viver em um país em que o governo cuida de verdade dos cidadãos e sem diferença entre ricos e pobres, franceses ou imigrantes legais. Claro que nem tudo é assim, mas no sistema de saúde o tratamento é realmente igual, ou tem para todo mundo ou não tem para ninguém. E não foi diferente de quando eu engravidei.

São 3 ultrassons a gravidez inteira a menos que você tenha alguma indicação médica. Teste de sangue para saber o sexo? Não existe. E qual o motivo? Ou todos podem ter acesso ou ninguém pode, como é algo supérfluo, ninguém pode. No começo dá aquela sensação de você se sentir engessada, de não poder pedir nada, de não poder ter desejos, mas a medida que você entende que dessa forma todo mundo pode ter, você passa a apreciar a beleza do sistema e achar super normal que você tenha muito menos do que teria no Brasil caso você pague um bom plano de saúde no Brasil.

Toda essa experiência com a saúde francesa me fez pensar no quanto somos egoístas na terrinha. Você já parou para pensar que muita gente que paga planos de saúde vai a médicos ou usa os exames indiscriminadamente, a grande maioria das vezes sem a menor necessidade? Qual a consequência disso? Que o plano fique muito mais caro no ano seguinte e com isso que milhares de pessoas tenham que deixar de usá-lo. Mas não vejo ninguém refletindo sobre isso.

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Outra coisa que eu adoro na França é a maior igualdade entre quem oferece um serviço e quem paga por ele. No Brasil eu sempre vejo pessoas destratando atendentes, garçons, como se as pessoas estivessem em uma posição social inferior e tivessem a obrigação de servir. Na França os franceses que estão atendendo te servem de uma forma como se estivessem te fazendo um favor, até meio grosseiro muitas vezes. Aqui não existe “o freguês tem sempre a razão” e não custa muito para você ser expulso de um restaurante. Eu até diria que o lema aqui é “o atendente tem sempre a razão”. Uma vez reclamei bem educadamente de um pedido que havia vindo errado e a funcionária do restaurante me disse que eu é que devia ter pedido errado, porque ela não tinha errado. Juro! Mesmo com esses perrengues, que são a exceção, eu acho lindo de ver essa relação de igualdade e respeito com a qual os serviços são tratados aqui.

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Falando em respeito, os respeitos aos direitos trabalhistas também são algo sagrado em terras francesas. As pessoas não trabalham de domingo e feriado, a menos que seja estritamente necessário. A grande maioria dos restaurantes fecha, nenhum comércio abre e todo mundo convive com isso. As pessoas saem às 17h/18h no máximo do trabalho e todos tem hobbies noturnos para se dedicar. A sede da Airbus, uma das maiores empresas francesas, fica em Toulouse e uma vez eu perguntei para uma amiga que trabalha lá que horas ela saía do trabalho e ela me respondeu “às 17h”. Aí eu perguntei “e o seu chefe?”, ela: “às 17h”, eu: “e o chefe do seu chefe?”, ela: “às 17h”, oras. Lembro de ter ficado de queixo caído.

Não consigo imaginar alguém que trabalhe em alguma grande empresa em São Paulo saindo antes das 20h e se sair mais cedo que isso vai sair se sentindo culpado ou ser vítima de fofoca dos colegas. Afinal, em São Paulo só trabalha direito quem trabalha até tarde. Já ouvi relatos de pessoas que enrolam o dia inteiro, para terem o que fazer à noite e justificar que estão ficando até tarde na empresa. Coisa de louco, né? Na França ninguém faz mil pausas para café ou almoços gigantes e todo mundo tem a noite para curtir como bem entender, para mim coisa de gente saudável mentalmente.

Ainda um pouco na área do trabalho, uma coisa que passou a me incomodar muito no Brasil depois de viver na França é a quantidade de serviços inúteis. Eu não sou expert no assunto e não sei o que aconteceria com o Brasil a curto prazo caso esses postos de trabalho fossem eliminados, mas eu consigo fazer uma lista de profissões desnecessárias que convivemos e nem percebemos. O meu top 1 é o apertador de botão do estacionamento do shopping ou do supermercado, afinal é super importante ter alguém ali caso a gente não alcance o botão, né? O embalador de sacolas do supermercado está logo atrás no meu ranking.

Outra coisa que me mata é ver gente fazendo faxina no condomínio de domingo. Gente, como o chão pode ficar sujo de sábado para domingo? Aqui na França tem uma pessoa que limpa o meu prédio uma vez por semana e o prédio vive imundo. Adivinhem? Ninguém se importa, na verdade, eu acho que ninguém sequer percebe. Mas nós precisamos ter o prédio limpo de domingo e feriado, né? Também precisamos lembrar que a Europa inteira vive em prédios sem porteiros e a vida de todo mundo funciona.

E para fechar com chave de ouro eu preciso dizer que nunca imaginei que teria uma vida tão prática e tão fácil sem carro. Quando eu cheguei em Toulouse eu tinha medo de andar de bicicleta e achava que fazer compras de supermercado a pé ou de bicicleta era o fim do mundo. Achava que tudo ficava longe, tipo uma paulista mimada mesmo. Hoje eu faço tudo de bicicleta ou a pé e em raros dias de preguiça pego um ônibus ou metrô. Às vezes vou para um lugar a pé e volto de bicicleta ou vice-versa (eu uso a bicicleta coletiva) e hoje considero que privilégio mesmo é ter uma vida assim.

Eu poderia passar horas descrevendo como a França me virou de ponta cabeça. Eu sempre achei que não era uma pessoa mimada em São Paulo, que não tinha muitos luxos, mas viver na França me fez ver que eu era sim e que é possível viver uma vida ainda mais simples e com muito mais qualidade. Obrigada França!

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1 comentário

Júnior Libardi Fevereiro 11, 2019 at 8:00 pm

Na Inglaterra é bem parecido com isto.
Mas fomos copiar o sistema de saúde americano, eles são ricos, mesmo assim nem todos podem pagar.
Imagine nós?
O Brasil e o brasileiro não pensam para viver, vivem. Não fomos educados para pensar. Na Europa tudo é pensado e repensado assim aprimoram o sistema.
Mas a Ásia está competindo e entrando neste mundo global. Isto tira um pouco da folga e do bem estar europeu. Os imigrantes podem por em risco e sob pressão também por usar e abusar como um Brasileiro faria.

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