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Julefrokost: festinha de Natal ou festivo Bacanal?

No post passado, eu deixei um spoiler sobre o assunto deste mês: traição. É difícil imaginar que um tema tão controverso, indigesto e polêmico possa ser associado ao espírito festivo e familiar do Natal, mas aqui na Dinamarca os dois temas estão profundamente ligados. A razão disso? O temido e famigerado Julefrokost que, apesar de significar literalmente “almoço de Natal”, é frequentemente comparado com o tipo de evento que fez a ira de Deus cair sobre Sodoma e Gomorra.

Prendi sua atenção com essa chamada sensacionalista? Ótimo! Shakespeare também prendia os leitores com sangue e baixaria, então me dou esse direito – afinal, é Natal. Vem comigo explorar essa faceta do não-tão-inocente povo dinamarquês ao som de Jingle Bells.

Julefrokost aqui na Dinamarca é como aquela festa de Natal entre amigos ou com o pessoal do trabalho. Enquanto a primeira versão é razoavelmente inconturbada e tranquila, a segunda hipótese – o tradicional jantar da firma – é outra história. E falando em história, o julefrokost como tradição se iniciou no pós-segunda guerra, quando, na véspera do Natal, o chefe convidava os empregados para um vinho e bolinho (aham…pra você que achava a Dinamarca o pináculo dos direitos trabalhistas, até pouco tempo atrás o pessoal trabalhava também no dia 24 de dezembro).

Com o passar do tempo, o arranjo evoluiu para jantar e festa, ocasião na qual diretores e empregados sentavam lado a lado como iguais para partilhar uma refeição. O problema é que, em certo momento, o pessoal passou a partilhar bem que a uma refeição, e o Julefrokost se tornou sinônimo de um bacanal no qual, embaladas por litros de bebida barata, as pessoas abrem suas asas e soltam suas feras enquanto se estufam de patê de fígado de porco e arenque. Nesse sentido, uma pesquisa de 2012 apontou que um em cada 5 dinamarqueses já afogaram o ganso/molharam o biscoito/apararam pela rabiola/ralaram o tchan num Julefrokost, e que ao menos 5% admitiu ter traído o cônjuge nessa esbórnia.

Não é de se admirar que Natal seja um período tenso aqui, especialmente para quem está em um relacionamento e lê que “aproximadamente 102% dos dinamarqueses traem seus parceiros nessas festas”, enquanto jornais lhe recomendam caprichar na roupa íntima e revistas fazem concursos de cunho cultural para premiar as mais devassas histórias de Julefrokost, incluindo o rapaz que deu tanto no couro que o chão se abriu e ele a parceira desabaram em uma mesa no andar de baixo, nus.

Igualmente, não é lá muito reconfortante escutar histórias de seus colegas de trabalho no qual eles contam que janeiro era um mês extremamente extenuante para seus pais, que possuíam uma clínica médica privada e não tinham um minuto de paz dada a incidência de doenças venéreas e gestações indesejadas, e que, em certo momento, especulou-se que ¼ dos bebês dinamarqueses fossem filhos de relações extraconjugais. De fato, os dinamarqueses surpreendentemente lideram o ranking europeu de disposição à traição, e se em média pouco mais de 10% dos vikings contemporâneos troca o óleo na garagem da vizinha/vizinho, cidades como Roskilde apresentam índices de quase 30%.  Pelo visto, snapps é mais potente que catuaba selvagem.

Contudo, não nos desesperemos. Paradoxalmente, quando se fala de Dinamarca, os números enganam justamente porque os dinamarqueses são muito sinceros. Enquanto na maioria dos países ao sul da Europa o pessoal flerta abusivamente, é muito difícil que italianos, franceses, espanhóis ou portugueses admitam uma traição. “É só um amigo da academia”. “Ela é só uma colega de faculdade”. “Cheguei tarde porque fiquei trancado no escritório com a secretária”. “Nossa, amor, você imagina cada coisa!”. Atire a primeira pedra quem nunca….

Assim, os dinamarqueses acabam levando a pecha de infiéis justamente porque são sinceros e admitem que a carne é fraca, enquanto o resto de mundo gosta de uma hipocrisia nossa de cada dia. Num país que discute sexualidade abertamente, não é de se admirar que fidelidade também seja um assunto debatido e questionado, doa a quem doer. Entretanto, isso não significa que a devassidão seja regra na Dinamarca, e sim que os dinamarqueses têm uma atitude mais aberta e saudável em relação a admitir suas falhas em um relacionamento.

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Os tempos também mudaram, e embora muitos lugares ainda celebrem o nascimento do filho de Deus violando um dos 10 mandamentos, a maioria das grandes empresas têm festas em um tom mais comedido. Sim, o pessoal bebe até passar vergonha, dança com aquela ginga nórdica, faz comentários inconvenientes e derrama vinho no seu vestido, mas eu nunca presenciei infidelidades nas festas que frequentei. Talvez isso se deva ao fato de eu ir embora cedo.

Uma vez perguntei a um grande amigo meu se ele já tinha aprontado alguma em um julefrokost. Ele me contou que nunca dormiu com ninguém, mas que no ano anterior ele havia bebido tanto que, em certo momento, decidiu ir embora da festa e pegar o trem da uma da manhã. Ele acordou às quatro da manhã em um terreno baldio perto da estacão de destino, sem recordar como chegara lá, sem carteira ou chave de casa. E essa história, meus caros e caras, é a melhor expressão do mais puro clima natalino dinamarquês.

Um grande abraço, e até ano que vem.

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1 comentário

Juliana Rodrigues Dezembro 10, 2018 at 8:07 pm

Olá Camila,
Super legal teu texto. Obrigada por nos proporcionar uma visão tão clara e próxima da realidade. Estamos nos mudando para Dinamarca logo mais, em março do próximo ano. Estamos vendo a questão da escola para as crianças e a prefeitura nos informou que será em função do nosso futuro endereço de moradia. Como as crianças falam português e italiano, gostaria de saber se você tem bairros para me indicar que tenham maior probabilidade de encontramos grupos nas escolas com crianças que falem a mesma língua. Existem bairros de determinadas comunidades? Muito obrigada desde já,
Juliana

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