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Tradições de casamento na Dinamarca

O texto deste mês é impulsivo – imaginem-me escrevendo ao som de Living la Vida Loca – e a ideia surgiu há cerca de quatro horas atrás, quando num domingo ensolarado eu acompanhava um batizado, fazendo uso do meu fluente portunhol para trocar impressões culturais pessoais com um jovem argentino acerca das peculiares tradições dinamarquesas (haters dirão que isso se chama fofoca), constatando o quão divergentes elas são da nossa realidade latina. Percebendo a surpresa do petiz com minha explanação, achei que seria didático – e quiçá terapêutico, no meu caso – explanar certas tradições do casamento na Dinamarca que podem causar estranheza – ou um ataque de nervos, se você for a noiva – aos desavisados.

A primeira diferença é que, em regra, há apenas um padrinho e uma madrinha, ao contrário da habitual “comissão de frente” à qual estamos acostumados no Brasil e, além disso, existe um “mestre de cerimônias” (toast master), que é encarregado de assegurar o bom andamento da cerimônia, organizar a ordem dos discursos e evitar que seus amigos bêbados decidam apresentar uma coreografia de última hora em sua homenagem. Ademais, enquanto eu costumo ir a casamentos no Brasil fantasiada de Rainha da Festa da Uva, com um penteado arquitetônico, uma maquiagem de protagonista de novela dos anos 90 e um vestido carro-alegórico, montada num salto que é um andaime, as dinamarquesas costumam ser mais discretas e práticas, contando com a vantagem de serem desgraçadamente abençoadas com uma beleza natural e nórdica e endossando sapatos confortáveis e vestes mais modestas.

Quando a recepção começa, os dinamarqueses irão sentar-se nos lugares que lhes foram designados e lá permanecerão, inamovíveis, enquanto nós temos o hábito de pirilampear entre as mesas e confraternizar com os demais convivas, especialmente se você acabou alocada na mesma mesa daquele tio que só sabe fazer a piada do pavê. Em regra, os dinamarqueses só se moverão para brindar ou para honrar uma de suas tradições insólitas, entre elas a de que toda vez que um dos noivos deixa o recinto, seja para atender ao chamado da natureza ou para retocar a maquiagem, todos os convidados do sexo oposto fazem fila para beijar o rosto do cônjuge remanescente. Assim, quando meu marido disse que toda a vez que eu fosse ao banheiro ele seria beijado por cerca de 40 mulheres, eu lhe informei que usaria fraldas, e decidimos descartar a tradição para evitar o choque cultural. Além disso, quando os convidados comecam a bater seus talheres, os noivos devem ficar em pé em suas cadeiras e se beijar, e se os convidados começarem a bater seus pés no chão, os noivos devem ir para debaixo da mesa e se beijar. Um casamento dinamarquês típico, com dinamarqueses tipicamente bêbados, conta com cerca de uma dúzia destes momentos, o que me fez proclamar elegantemente que “no meu casamento, ninguém vai me mandar fazer b%#ta nenhuma”, resultando na abolição também deste ritual em meu enlace.

Alguns rituais, no entanto, são inescapáveis, entre eles os longos discursos. Sim, minhas caras e caros, os outrora silenciosos dinamarqueses parecem guardar todo o seu verbo para ocasiões especiais, nas quais discursam por momentos que parecem intermináveis para os demais convidados, e todos eles querem ter a palavra. Fui a um casamento no qual os pais da noiva fizeram uma retrospectiva narrativa que ia desde a tenra infância da nubente, passando demoradamente por sua adolescência e vida adulta, em um nível de detalhamento que fez o discurso se arrastar por mais de meia hora, enquanto os demais convidados não-dinamarqueses entreolhavam-se num misto de incredulidade e desespero. E não para por aí! Além dos discursos, é habitual que seus convivas componham canções em homenagem ao casal, distribuindo as letras de mesa em mesa para assegurar mais vozes ao coro, e cada brinde tem uma diferente composição de “urras”, o “grito de guerra” dos vikins contemporâneos – “agora, três curtos e um longo: urra, urra, urra, uuuuuurraaaaaaaaaaaaa”.

E se você, jovem donzela, cogita bailar com seu esposo ao som de sua valsa ou música favorita, esqueça! Casamento dinamarquês tem sempre a mesma música – SEMPRE – e a valsa deve ser dançada antes da meia-noite. Meu amantíssimo esposo me comunicou que sempre sonhara em valsar ao som desta música (você pode conferir o príncipe herdeiro da Dinamarca e sua esposa dançando aqui), e fiz essa concessão apenas depois de me assegurar que em seguida “abriríamos o baile” ao som do Canto Alegretense, e que tocaria Valesca Popozuda na festa.  Enquanto os noivos dançam, os convivas se aproximam, e ao final os homens levantam o noivo, tiram seus sapatos e cortam suas meias, uma tradição que visa assegurar a fidelidade do futuro marido à sua esposa (afinal, que concubina aceitaria um homem de meias dilaceradas?).

O jovem casal também deve abrir todos – sim, TODOS – os presentes na festa, agradecendo individualmente a cada um dos convidados. Eu transferi esta cerimônia para um café da tarde no dia seguinte, evitando assim perder o precioso tempo no qual eu poderia estar ralando o tchan no meio do salão ao invés de desempacotar presentes. Imaginem, minhas caras e caros, o estado no qual se encontra um casal que teve que ficar subindo em cadeira e passando por baixo da mesa toda noite, sendo beijado a toda hora por dezenas de pessoas, que escutou 3 horas de discurso, que dançou e ainda teve que abrir todos os presentes com graça e simpatia! Não é de se admirar que a Dinamarca tenha taxas tão expressivas de divórcio! Aqui não tem lembrancinha ou bem-casado, mas a noiva também joga o buquê….ou deveria jogar, já que no meu caso, acordei no outro dia e encontrei o buquê na geladeira….me contaram que eu me diverti bastante aquela noite.

Bem, caras e caros leitores, espero que este texto tenha lhes esclarecido um pouco mais acerca das inusitadas tradições do casamento dinamarquês, e, se alguém for casar, pode se sentir à vontade para me convidar. Como a foto aí mostra, sou louca por bolo.

Noiva ao ataque. Fonte: Alexander Flemming/arquivo pessoal da autora

Beijos e até a próxima

 

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11 comentários

Camila Saturno Outubro 26, 2017 at 8:54 pm

Amo os teus textos. Fui aluna da tua mãe. Sei por quem puxaste..abraços

Resposta
Camila Vicenci Witt Novembro 26, 2017 at 8:42 pm

Oi Camila, tudo bem?
Muito obrigada 🙂
Quer dizer que tu conheces a Prof. Sandra?! Muitos beijos

Resposta
Priscila Ca Outubro 27, 2017 at 12:58 am

Kkkkkkkkkkk que pérola! Seria trágico se não fosse tão cômico! Tanta coisa inusitada que é quase mitologia (nórdica) kkkk amei!
Beijos
Vi ses

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Camila Vicenci Witt Novembro 26, 2017 at 8:40 pm

Oi Priscila! Sim, agora dá pra entender a razão da mitologia nórdica ser tão rica, né? rsrsrsrs
Beijos

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cristiana Maria da Silva Novembro 18, 2017 at 1:51 am

Quero conhecer um demarques um amigo que more na Dinamarca,

Resposta
Cristiane Leme Novembro 18, 2017 at 2:04 pm

Cristiana, tente a chance em um dos milhares de sites de relacionamentos online por aí. No Brazil Cupid costumam aparecer alguns dinamarqueses. Aproveite e leia também o meu texto sobre violência doméstica na Dinamarca.

Abraços e boa sorte, continue nos acompanhando!

Resposta
cristiana Maria da Silva Novembro 18, 2017 at 1:52 am

Gastei desse país

Resposta
Débora Novembro 21, 2017 at 11:22 am

Simplesmente amei seu texto
Vc com certeza, faz a diferença nesse país !!!! Parabéns por sua espontaneidade e é fato que seu marido deve amar a forma dos brasileiros viverem ????

Resposta
Camila Vicenci Witt Novembro 26, 2017 at 8:39 pm

Muito obrigada, Débora!!! Meu marido é apaixonado pelo Brasil e adora uma farofa bem temperada. Beijos

Resposta
Ingrid Rocha Outubro 25, 2018 at 4:46 pm

Olá camila , gostaria de saber se tem idade mínima para casar na dinamarca ?

Resposta
Liliane Oliveira Outubro 25, 2018 at 7:24 pm

Olá Ingrid,
A Camila Vicenci Witt parou de colaborar conosco, mas temos outras colunistas na Dinamarca que talvez possam te ajudar.
Você pode entrar em contato com elas deixando um comentário em um dos textos publicados mais recentemente no site.
Obrigada,
Edição BPM

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