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Dinamarca

O Som de Copenhague

Você se recorda do primeiro som que escutou em sua vida? Talvez não seja fácil voltar no tempo e reencontrar esta memória, mas certamente a sua vida tem uma trilha sonora. Talvez ela inicie com o som do despertador, ou com o choro dos filhos. Talvez ela prossiga com o som do rádio misturado ao apito da chaleira, e com a água borbulhando, pronta para o café. Talvez ela tenha som de buzina, de sirene e de congestionamento, ou talvez o som do cumprimento cordial dos vizinhos.

Som dos dedos batendo no teclado, som da impressora trabalhando a todo vapor, som de talheres batendo contra a porcelana na cantina, na hora do almoço, ou som de sapatos batendo contra o piso frio. Aquele “plin” familiar ao desligar o computador, o som do motor do carro dando a partida, som das crianças no banco de trás. Música no jantar, ou música no chuveiro. Trilha sonora de filme. Aquela canção que você detesta, mas que toca toda hora no rádio. Som de vento ou som de verão, nossa existência é repleta de timbres e melodias cotidianas, e elas certamente mudam com as nossas mudanças e andanças.

Eu vivo em Frederiksberg, uma cidade dentro de Copenhague (vulgarmente chamada de “o Vaticano da Dinamarca” em razão de sua incrustração no meio do mapa da capital), e obviamente não tenho a pretensão de ser A Voz da Dinamarca, um país variado e que vai muito além de seu centro político. Contudo, preciso fazer justiça ao lugar que hoje é minha casa, e falar um pouco sobre a sonoridade de Copenhague, um lugar que por vezes é prosaico e bucólico,  para em seguida se tornar emocionante  e metropolitano, passando do simpático “quá-quá” dos patos aos ensurdecedores acordes dos festivais de música, tudo isso em menos de 24 horas.

Pois bem, Copenhague é uma pequena-grande cidade, e isso faz com que seja possível acordar com o som do rufar das folhas nas árvores, acompanhado do canto dos pássaros – isso, é claro, se suas janelas de vidro duplo estiverem abertas, porque caso contrário nenhum ruído da rua alcança seus ouvidos dentro de casa. Os habitantes de Copenhague têm alguns pequenos luxos, como gostar de um bom café, e aqui em casa o dia se inicia com o barulhinho do moedor de grãos e com o aroma de café fresco. Depois, é hora de montar na bicicleta e ir pro trabalho, e aí o trajeto inclui buzinadas e até xingamentos, já que os dinamarqueses costumam perder a paciência nas ciclovias.

Chegando no trabalho, muitos escritórios são abertos, então você escuta conversas por todos os lados, sem ter o refúgio da sua própria sala quando busca um pouco de paz sonora. Meu pesadelo auditivo é a hora do almoço: é som de centenas de pratos sendo empilhados, de gente falando alto e de facas riscando a louça, o que me deixa um pouco desnorteada. Há também o caloroso som de risadas e de companheirismo, e o som dos nossos passos – antes afoitos para chegar à cantina, e depois letárgicos, se dirigindo de volta ao trabalho. Minha trilha sonora no trabalho também se desdobra em diversas línguas: além do dinamarquês e do inglês, não é incomum escutar diálogos em sueco, norueguês, finlandês e lituano.

Já no meu tempo livre, Copenhague tem o som dos festivais de música que eu tanto gosto, como o Jazz Festival, que ocorre duas vezes por ano, e o Opera Festival, também no verão. Aí faltam horas para aproveitar tudo o que eu gostaria, e por vezes os dois espetáculos que eu gostaria de ver são marcados para o mesmo horário, mas de qualquer forma é impossível não se sentir envolto nessa atmosfera musical, especialmente porque muitos shows ocorrem gratuitamente, ao ar livre, e é nesses momentos que Copenhague encanta olhos e ouvidos.

Mas falando em encanto, para mim a cidade perde seu charme durante o “Distortion”, um festival de música que toma conta de diferentes bairros da cidade, uma vez ao ano. O som de jovens bêbados gritando, unido aos sonidos estridentes, é suficiente para me fazer correr para o porto-seguro do meu amado – e silencioso – lar…..silencioso “pero no mucho”, porque tenho uma gata que deve ter sido uma sirene na vida passada, e que não se inibe em miar com o alcance de uma ambulância.

Passear pelo centro de Copenhague também traz melodias diversas: dos patos e cisnes que habitam os lagos aos artistas de rua que se apresentam nas ruas pedonais, a salvo dos carros, passando pelos gritos de emoção daqueles que desfrutam das atrações do Tivoli, o icônico parque de diversões no centro da cidade. Ah, e no verão Copenhague se mostra ainda mais cheia de contrastes, pois foi com surpresa que descobri que a antiga instituição do caminhão de sorvete – e suas tradicionais campainhas para iscar crianças e adultos vorazes – ainda circula pela capital.

Em alguns dias de inverno, nem o vidro duplo nas janelas nos blinda do frio, e o assobio dos ventos cortantes penetra no corpo e na alma. Há também o som das intensas chuvas de outono, e dos passos apressados dos transeuntes, que buscam proteção das intempéries. E há os lugares sem som, como os “vagões do silêncio” nos trens, no qual é proibido falar, possibilitando um pouco de paz para aqueles cuja ritmo da vida ensurdece com suas demandas. “Só crianças e bêbados conversam no metrô”, me disse um dia uma dinamarquesa, mas eu sigo sendo uma objetora persistente, povoando a capital com meus sons, seja tagarelando no transporte público ou assobiando os ritmos da nossa terra enquanto ando de bicicleta por aí.

Se você tem curiosidade em experimentar mais da sonoridade de Copenhague, dê uma conferida os websites da Distortion, Jazz Festival, Winter Jazz Festival e Opera Festival, onde você encontra horários com antecedência suficiente para planejar uma viagem até aqui.

Beijos e até a próxima

 

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2 comentários

Marcele Rask Julho 26, 2017 at 6:46 pm

Linda reflexão. Copenhague é para mim o local mais belo e maravilhoso desse mundo, aliás a Dinamarca como um todo. Seus sons, seus cheiros, seus hábitos, suas falas, suas manias e até os seus defeitos. Toda essa harmonia me fez ‘cair de amores’ por este belo Reino. E, do outro lado da ponte, encontra-se a beleza do seu Reino irmão. Amo atravessar a ponte de øresund, faça chuva ou faça sol (leia-se frio ou muito frio!) eu abro a janela do carro nem que seja uma brechinha, só para ouvir o som do mar e sentir o cheiro do estreito. É a minha poesia! 🙂 🙂 Parabéns pelo texto, me fez cair de amores mais uma vez por essa bela terra e por você. 🙂

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Camila Setembro 16, 2017 at 11:11 pm

Adorei o seu texto e seu jeito de escrever, parabéns! Não vejo a hora de poder conhecer Copenhague pessoalmente =)

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