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Mergulhando de cabeça na cultura do Québec

Um dos lados que mais aprecio no processo de integração em um novo país é justamente o apreender a cultura local. Ao mesmo tempo que isso pode nos causar receios e alguma insegurança, compreender o modo de ser local nos permite moldar nossa nova identidade. E vou dizer que buscar a felicidade no estrangeiro tem muito a ver com a nossa capacidade de literalmente se jogar no novo, sem abrir mão das nossas raízes brasileiras.

Existe uma expressão em francês que tem tudo a ver com essa mudança significativa que vem no combo de todo imigrante: o tal do savoir être. Na tradução literal significa saber ser, mas saber ser o quê, como, por quê?

Savoir être significa saber se comportar, encontrar uma forma apropriada de conduzir as relações, adotar comportamentos e atitudes esperadas em determinadas situações. Quando se associa isso a uma cultura ainda desconhecida, nem tudo é tão óbvio assim. Esse é o meu tema desse mês com o objetivo de contar para vocês como é viver e, sobretudo, ser em Québec de um ponto de vista mais cultural.

A cultura québécoise

Segundo M. Guy Durant, a cultura do Québec é antes de tudo o idioma, mas também uma maneira de pensar, de raciocinar, de se expressar, de criar, de ver e construir o mundo, resumidamente, um modo de vida que depende em parte do idioma e em parte da história.

A cultura compreende uma série de valores, normas, símbolos, instituições e artefatos que caracterizam um grupo ou povo. Dentre os múltiplos aspectos, abordarei alguns segundo o que tenho aprendido nesses dois anos de vida canadense.

O idioma

Já escrevi um artigo aqui no BPM sobre o Mito do bilinguismo canadense para reforçar que na província de Québec o idioma oficial é o francês. No entanto, assim como o português de Portugal não é como o nosso português brasileiro, o francês québécois não é como aquele que aprendi na Aliança Francesa. Isso dito mais em relação às expressões, vocabulário e sotaque. No começo é realmente mais difícil de aproveitar ao máximo o que a cultura nos oferece.

Ler um jornal, ver um programa de TV, assistir um filme, conversar sobre coisas banais vira um mega desafio. Minha sorte é ser casada com um nativo com paciência para me explicar todos os porquês. Conversando com brasileiros que chegaram sem referências, a adaptação nesse sentido foi mais delicada. Pode parecer brincadeira, mas o dia que entendi um espetáculo de stand up comedy, concluí que as coisas estavam começando a fazer sentido para mim.

Por isso, sempre insisto na importância de se dedicar ao aprendizado do francês e evitar ao máximo se cercar apenas de brasileiros.

O ritmo do tempo

Em função do clima bastante peculiar, no Québec cada estação é muito bem definida e conforme os meses vão passando, a gente vai mudando desde o nosso humor até as pequenas coisas do cotidiano. Às vezes tenho a impressão que não só aproveito muito mais cada estação, como presto mais atenção às particularidades de cada uma.

Minha recomendação é aproveitar as frutas e legumes de época como forma de adaptar a alimentação aos produtos locais. No Brasil, a gente não tem esse problema de ter de esperar porque encontramos praticamente de tudo o tempo todo. Aqui, parece que tudo fica mais gostoso quando chega a época de determinado alimento, ainda mais porque ele é produzido localmente. Além disso, aproveitar a época de colheita para participar do processo e conhecer a origem do que comemos é um programa cultural muito interessante.

Conhecer modalidades esportivas diferentes também é uma ótima pedida. Nos meses de calor, o que não falta são festivais, campeonatos amadores e muitas atividades ao ar livre para todos os gostos. Com tantos parques lindos pela cidade, o verde se torna minha cor preferida. É super normal de encontrar famílias fazendo pic-nics, aproveitando as piscinas públicas, realizando passeios de bicicleta ou até mesmo a pé. Mas mesmo quando a neve cai, pessoal continua firme, forte e na rua, fazendo festa no Carnaval ou correndo, patinando, esquiando nos eventos esportivos e do jeito que dá.

Alguns hábitos locais

Vou listar alguns hábitos mais gerais e que considero serem bem diferentes dos que eu tinha no Brasil:

  • Comer mais em casa e menos em restaurantes. Mesmo no trabalho, o mais comum é levar marmita e comer junto com os colegas. Aliás, a pausa do almoço não precisa ser de 2 horas, bastando cerca de 45 minutos.
  • No verão, é normal aproveitar a pausa do almoço para comer ao ar livre. É relativamente comum a realização de pic-nics nas empresas, como forma de integrar as equipes e sair um pouco do ambiente de trabalho.
  • Comprar mantimentos em geral em mercados locais e em quantidades menores. Como moro no centro da cidade e não tenho carro, optamos por ter sempre alimentos mais frescos para cozinhar. Aqui existem hipermercados, evidentemente, mas ficam mais distantes.
  • Quando convidamos amigos para jantar, normalmente é com hora marcada para começar e terminar. Não existe aquela coisa de ir ficando, ficando… dos convidados sem noção. Os amigos sempre contribuem com alguma coisa, seja com as bebidas ou a sobremesa.
  • Aqui parece que estamos sempre agradecendo. Merci é das palavras que mais digo e ouço, junto com o tradicional Bonjour.
  • Fazer novas amizades não é impossível, mas leva tempo.  Nem sempre as pessoas darão espaço para mais intimidade e isso é algo que deve ser respeitado. Assim como em outros países, uma vez que a gente fica de ligar ou de se encontrar é porque realmente existe intenção.
  • Quando é preciso fazer fila, a ordem de chegada é respeitada, mesmo em grandes eventos. Ir a um show aqui é tão tranquilo, que não precisa de polícia organizando a entrada.
  • Se uma lei entra em vigor hoje, amanhã TODOS já estão seguindo, sem questionar. Mesmo que nem todos estejam de acordo, as novas regras são respeitadas e outros artifícios são utilizados para expressar pontos de vista distintos e, quem sabe, mudar alguns aspectos da nova lei.

E assim, com pequenas vitórias de compreensão cultural, a gente vai realmente se estabelecendo num novo país. Leva tempo, mas a experiência é extremamente enriquecedora.

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4 comentários

Fabíola Lima Agosto 24, 2017 at 2:15 pm

Gostei muito do seu texto! 😉

Resposta
Ana Carolina Sommer Agosto 24, 2017 at 2:21 pm

Obrigada, Fabíola! Em breve, sai um artigo sobre francização e também sobre a cena artística de Québec, com foco em mulheres. Abs

Resposta
Solon Mota e Silva Outubro 15, 2017 at 12:01 am

Não sei mas não tenho dificuldade com os quebécois,talvez o sotaque. Mas….vocẽ mora ái e sabe .mas em paris o merci é constante e o pardon monsieur ou madame.

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Solon Mota e Silva Outubro 15, 2017 at 12:03 am

Gostei de ver um apeça de teatro em Québec chamada Je danse avec moi.Não sei está em cartaz.

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