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Minha visita noturna em um túnel mal assobrado no Japão

Minha visita noturna em um túnel mal assobrado no Japão: você teria coragem?

Tudo começou em uma noite de sexta-feira, fim de julho. Estava em uma casa de shows brasileira na minha cidade (Hamamatsu, província de Shizuoka), quando comentei com um amigo (também brasileiro e jornalista) sobre a reportagem que faria em breve sobre fantasmas e locais assombrados no Japão.

Ele me contou sobre o famoso Túnel de Mikkabi na nossa cidade, que eu nunca tinha ouvido falar, mas que é conhecido pelas histórias de mortes, acidentes e supostas aparições de fantasmas. Ele me disse que o túnel estava abandonado e que eventualmente iam algumas pessoas lá, inclusive brasileiros, tentar registrar algum evento fantasmagórico.

Eu sempre fui uma mistura esquisita de coragem e medo. Sou daquele tipo de pessoa curiosa, que topa uma aventura de terror, desde que não esteja sozinha. Acredito muito em espíritos, embora nunca tenha visto mais do que vultos e mesmo sabendo que ficaria traumatizada se visse algum fantasma naquele túnel, fiquei extremamente empolgada com a possibilidade de ir lá e comecei a pesquisar imediatamente, ainda no pub.

Meu amigo também topou na hora, mas nenhum de nós tem carro e é um lugar de acesso complicado por transporte público. Na verdade, o túnel ficava após um desvio na estrada principal entre as províncias de Shizuoka e Aichi e a travessia aparece depois de 4 quilômetros em uma estrada estreita, coberta por uma floresta bastante assustadora.

Neste dia, um amigo nosso que trabalha no pub eventualmente estava por lá e eu tive a ideia de convidar ele, mas sem muitas expectativas, porque são poucas as pessoas que estão dispostas a ir num túnel mal assombrado, obviamente. Porém, para a minha surpresa, ele aceitou na hora e disse que poderíamos ir lá no dia seguinte.

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Eu fiquei com aquilo na cabeça, pensando se não seria apenas “papo de boteco” e se no dia seguinte um dos dois iria amarelar e acabaríamos não indo a lugar nenhum. E, para piorar a situação, um tufão passaria na cidade no dia seguinte, o que poderia estragar os nossos planos de qualquer jeito.

Mesmo assim, começamos a conversar sobre isso por mensagem e combinamos que iriamos no início da tarde. Mas, um dos meus amigos estava com problema de tempo e o nosso compromisso atrasou tanto que, quando estávamos prontos para viajar 40 minutos até o carro, já havia passado das 19h.

Estávamos em um restaurante brasileiro, com outros amigos, discutindo a questão. Valeria a pena ir lá mesmo naquela hora da noite? Uma chuva fraca havia iniciado mais cedo e parado, mas sabíamos que o tufão viria com toda a força naquela noite. Mesmo assim, estávamos reunidos com esse objetivo, então resolvemos ir de qualquer jeito.

O caminho foi tranquilo até chegarmos na região de Mikkabi e como o endereço que tínhamos não dizia o número e o GPS do carro não dava a instrução exata, comecei a guiar com o celular pouco antes de entrarmos no desvio. Era uma estrada comum, mas em determinado momento havia um desvio discreto e, ao entrar nele, nos vimos em um cenário de filme de terror e ainda faltavam 4 quilômetros para chegar no túnel.

A estrada era de mão única e coberta com uma floresta pelos dois lados. Tinham cipós que pendiam das árvores em direção a estrada e alguns galhos quase fantasmagóricos atrapalhavam o caminho, então tínhamos que seguir devagar, na escuridão e fazendo várias curvas enquanto a floresta fechada dominava toda a paisagem e eventualmente invadia a estrada.

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Naquele momento já estávamos os três bastante tensos. Eu sentava ao lado do motorista e meu outro amigo ia no banco de trás, com a câmera em punho, tentando gravar ou fotografar o nosso trajeto. Aproveitei para fazer o mesmo, enquanto tentava colocar um pouco de humor na conversa para disfarçar a tensão.

Nós três congelamos quando finalmente avistamos o túnel no fim da estrada. Era realmente muito assustador, completamente escuro. As paredes internas eram de tijolos vermelhos e pichações em todos os cantos. Descemos do carro com as câmeras nas mãos e não tivemos coragem de desligar os faróis.

O Túnel de Mikkabi na verdade se chama Kyu-Honzaka Tunnel, o “antigo túnel de Honzaka”, que era muito utilizado como passagem entre as duas províncias no período Edo (até 1868). Li histórias de que muitas mulheres teriam tentado fugir e morrido por lá durante uma fiscalização que ocorria na estrada e também histórias de motoristas que morreram em rachas.

Os boatos com relação ao túnel eram de aparições de espíritos de mulheres, como uma que aparece de cabeça para baixo no teto do túnel, outra que aparece vestindo um quimono e uma outra mulher, que é vista com um bebê no colo. Verdade ou mentira, o fato é que atravessar aquele túnel a pé durante a noite exigiria muita coragem.

A primeira coisa que eu notei assim que sai do carro foi o frio. Era fim de julho, o Japão sendo atingido por uma onda de calor infernal e eu chegava a trincar os dentes na frente do túnel. Meus dois amigos também sentiram muito frio, mas depois de uma caminhada, alguns vídeos e fotos, os calafrios foram embora.

E então atravessamos a pé! Mas como um dos meus amigos disse, fomos no estilo “família unida” e só atravessamos mesmo na terceira tentativa. Na primeira, um deles decidiu voltar para pegar a chave do carro e como ninguém queria ficar abandonado no meio do túnel, voltamos os três. Na segunda fui eu, que quis voltar para pegar o celular e usar de lanterna, já estávamos quase no fim e voltamos de novo ao começo.

Na terceira atravessamos e verificamos um depósito de madeira do outro lado do túnel, com a porta caindo aos pedaços e bastante assustador. Quando voltamos, já não estávamos mais tão assustados e fomos surpreendidos não por fantasmas, mas por gente viva. Um carro chegou com um grupo de adolescentes e outro apareceu com um casal.

Crédito: Ana Paula Ramos

Todos estávamos lá pelo mesmo objetivo: caçar fantasmas e é claro, assustar os amigos.
Entramos na onda e atravessamos mais uma vez, com a galera e essa última foi a mais assustadora de todas para mim, pois os meninos faziam piada, gritavam e me assustavam mesmo sem me conhecer e depois começavam a rir de mim! Mesmo assim foi divertido, mas não fui embora com tanta confiança.

Crédito: Ana Paula Ramos

Na volta do túnel, o tufão chegou de vez, provocando uma chuva forte e ventanias que arrancavam as placas das estradas. Fui deixada em casa no meio do vendaval. Entrei sozinha, ouvindo o vento bater com força nas janelas e fiquei acendendo todas as luzes por onde passava e tudo que eu conseguia pensar era: cadê toda aquela coragem que eu tive lá no túnel? A verdade é que quando estamos com amigos tudo é zoeira, mas quando estamos sozinhos, é aí que o bicho pega.

E como eu não sosseguei no túnel, esse artigo terá continuação no próximo mês. Vou contar a minha experiência visitando Aokigahara, a famosa floresta do suicídio aos pés do Monte Fuji. Aguardem!

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1 comentário

Glayvson Outubro 4, 2018 at 2:59 am

Amei o post, e sua personalidade (de ser uma mistura entre medrosa mas com espírito aventureiro), nossa me descreveu rsrsrs. Desejo morar no japão no futuro, talvez quando terminar a faculdade.
Razão pela qual amei post sim, reuni o lugar, que amo, a experiencia descrita, que desejo um dia viver uma parecida, e até as características de quem escreveu me descreve quanto á temática.
Enfim, adorei seu post e aguardando ANSIOSAMENTE seu próximo.

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