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Mitos e verdades sobre morar no Oriente Médio

Quando falo que morei em Omã, sempre me perguntam muitas coisas sobre a minha experiência lá, especialmente sobre a cultura, religião e a posição das mulheres na sociedade. Existem muitos estereótipos sobre o Oriente Médio, mas como a região é maior que pensam e existem diferenças culturais entre seus países, vou mencionar alguns mitos e verdades sobre morar no Oriente Médio, na área do golfo (Omã, Emirados Árabes, Qatar, Bahrain e Kuwait), já que suas sociedades são parecidas e mais comparáveis.

Mitos

O Uso do Véu

A religião Islâmica é bastante associada ao uso obrigatório do véu (hijab) pelas mulheres. Existem também os trajes completos, a abaya (véu cobrindo os cabelos e um sobretudo longo) e a burka (véu revelando somente os olhos e um sobretudo longo). Para as mulheres locais, o véu é obrigatório se a mulher for de uma família mais tradicional e religiosa. Mas, existem alguns casos de mulheres que deixam de usar o véu quando estão no exterior ou não o usam porque são de famílias mais seculares.

Ao contrário da Arábia Saudita, os países do golfo árabe (Omã, Emirados Árabes, Qatar, Bahrain e Kuwait) não exigem que as estrangeiras usem o véu. Para sair em locais públicos é recomendado que os joelhos e ombros sejam cobertos (a não ser se estiver visitando uma mesquita, nesse caso os cabelos e os braços devem ser cobertos totalmente). Claro que algumas roupas que são mais comuns no Brasil (nosso biquíni fio dental, shorts e blusas curtas) são olhados meio torto, até mesmo por outros estrangeiros que não são muçulmanos. Por uma questão de respeito e de conforto, se vestir de forma mais recatada é recomendado, mas não é algo obrigatório e em muitos lugares onde a maioria dos frequentadores é expatriado, o código de vestimenta é praticamente o mesmo do Brasil.

Terrorismo

A situação de alguns países do Oriente Médio é bastante preocupante e sempre mencionada devido às guerras e ao terrorismo. Felizmente, os países do golfo não tiveram sua segurança afetada por esses conflitos. Me sentia muito mais segura morando em Omã, bem mais perto de países tidos como zonas de conflito, do que me sentia segura morando no Brasil. Um estereótipo horrível que algumas pessoas têm do Oriente Médio também é que os valores do terrorismo são pregados pela religião e pela sociedade. Posso afirmar que isso é um grande mito e completamente errado. Assim como nós brasileiros condenamos os ataques feitos por grupos extremistas, a comunidade muçulmana também. Simples assim.

Sociedade em Geral

Já reparei que existem dois tipos de impressão sobre a sociedade nos países árabes. Uma é a imagem promovida especialmente por Dubai, de muita riqueza, grandeza e de sheiks extravagantes. A outra imagem é de atraso, de uma sociedade a moda antiga, com educação e infraestrutura inferiores e com leis tais quais a infame lei saudita que proíbe mulheres no volante. Na minha opinião, pelo menos tendo Omã como a minha maior referência, ambos estereótipos estão errados. Talvez o luxo e a ostentação sejam mais presentes na sociedade local, mas isso não quer dizer que cada cidadão tem sua própria Ferrari e de que todos moram em palacetes cobertos de ouro. Existem lugares e pessoas mais tradicionais, mas no geral, mulheres são tratadas com muito respeito e têm o direito de trabalhar, dirigir e etc.

Verdades

Liberdade de Expressão

A mídia e a internet são sujeitas a censura e é preciso ter um certo cuidado com o que se fala em público ou posta em redes sociais. Isso não é só devido a religião, mas também é uma estratégia do governo para evitar qualquer tipo de exposição e oposição. Devido a isso, as notícias dos jornais são filtradas: é muito raro encontrar um artigo falando algo negativo, sobre crimes e opiniões políticas ou sociais. Muitos sites são bloqueados (Skype, por exemplo, só funciona com VPN) e e-mails são escaneados antes de chegarem na nossa caixa de mensagens. Se algo suspeito e mais grave for detectado, a pessoa pode ser condenada a prisão ou se for estrangeiro, deportado. A internet também é extremamente lenta, dificultando o acesso a algumas páginas e a downloads de arquivos.

Calor Extremo

De maio até setembro, as temperaturas chegam em média a 40 graus ou mais. Durante o “inverno”, durante o dia faz de 20-30 graus e à noite pode chegar até 10. Mas nada tão extremo quanto os meses de verão. Nas áreas de deserto, o calor pode chegar aos 55 graus, sem contar na umidade que deixa o ambiente comparado ao de uma sauna. Para compensar, se encontram ar condicionados super potentes em todas as casas, carros e lugares públicos (existem até pontos de ônibus climatizados).

Meus piores resfriados foram em Omã devido ao choque térmico de sair na rua com o sol e o calor intensos e entrar em um local onde o ar estava ligado nos 15 graus. Lembro de estar no clube durante o verão e me levantar da minha toalha e ver que meu contorno estava impresso no meu suor. A roupa cola no corpo, a maquiagem derrete e nos desidratamos em questão de minutos. Portanto, durante o verão é necessário usar tecidos leves e óculos de sol, mas sempre levar um casaco ou echarpe, já que passamos muito frio também devido ao ar condicionado.

Foto: arquivo pessoal

Ramadã

A religião Islâmica no Oriente Médio tem uma grande influência sobre grande parte das leis, costumes e valores. Para a maioria dos expatriados, um grande choque cultural é o mês do Ramadã: durante esse mês sagrado, todos os muçulmanos devem fazer o jejum completo do nascer até o pôr do sol. Atitudes tidas como pecado (como beber, fumar, jogar) são proibidas. O consumo de qualquer alimento ou até mesmo de água em locais públicos é 100% proibido (isso vale até para estrangeiros).

Para quem visita o Oriente Médio durante essa época, a experiência é muito diferente, já que tudo está fechado até o final do dia quando o sol se põe e bares e boates não abrem ou não servem álcool. Nas empresas e escolas internacionais, existem salas separadas para muçulmanos para que possam fazer a reza durante o horário de almoço. Se você mora perto de uma mesquita, se prepare: durante o mês inteiro vão cantar os versos do Alcorão no microfone para anunciar a reza do nascer do sol (isso por volta das cinco da manhã e na maior altura). Acostumei tanto que acabou virando o meu novo despertador.

Fato Extra: Desigualdade Social

Um assunto nem sempre mencionado e até mesmo negligenciado, existe uma desigualdade social gritante nos países do golfo. É um grande tabu e é um problema bastante “escondido”, mas muitas violações aos direitos humanos acontecem na região, especialmente se tratando de trabalho escravo. Existem milhares de trabalhadores de países como a Índia, Paquistão e Bangladesh por trás das construções monumentais da maioria das capitais do Oriente Médio. Assim que chegam, seus passaportes são confiscados e todos seus gastos no país são dívidas a serem pagas pelo “salário” que recebem. Esses trabalhadores moram em áreas restritas com uma infraestrutura quase que inexistente, vivendo com outros 50 no mesmo quarto, completamente isolados dos condomínios e hotéis de luxo que constroem. Essa é uma realidade que nós expatriados muitas vezes nunca pensamos que existiria, já que nossa condição vivendo e trabalhando lá era totalmente oposta.

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