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Índia

Mumbai, a cidade indiana dos sonhos

O mar da Arábia era o pano de fundo para a partida de críquete. Sentada na praia, observo os meninos jogando — no rosto de um deles vejo Saleem, personagem de Salman Rushdie em Filhos da Meia-noite. Diante dos meus olhos as páginas do livro parecem ganhar vida. Por um minuto acredito ver a menina Evie chegar… Ela irrompe no meio do jogo com manobras radicas em sua bicicleta, impressiona a todos e, de quebra, arrebata o coração do jovem Saleem.

Mumbai tem sido há séculos o cenário de muitos livros e muitos sonhos. Em suas calçadas caminham turistas atraídos por relatos de uma terra mágica e colorida pela multiplicidade de deuses, culinária e costumes. Somando-se aos estrangeiros, jovens aspirantes a estrelas de cinema chegam repletos de expectativas à capital da indústria cinematográfica indiana – conhecida mundialmente como Bollywood. Há ainda os empreendedores que se inspiram nos milionários e seus apartamentos em estilo art déco na avenida Marine Drive. Não faltam também golpistas que tentam a sorte, tendo como alvo a boa-fé das pessoas que passam. Vendedores ambulantes, varredores de rua, habitantes locais… Todos são personagens – reais ou imaginários – lutando por seu espaço na grande metrópole.

“No início eram os pescadores”, afirma Rushdie em Filhos da Meia-noite, referindo-se aos primeiros habitantes de Mumbai. A cidade era também no início um arquipélago de sete ilhas, que foram aterradas pelos ingleses. Estes, por sua vez, a receberam dos portugueses como parte do dote de Catarina de Bragança, por ocasião de seu casamento com o rei Carlos II da Inglaterra.

E foi a serviço dos portugueses que dizem ter chegado à Mumbai o seu primeiro habitante parse.

Os parses emigraram da Pérsia, atual Irã, entre os séculos VIII e X. Vieram para a Índia fugindo da perseguição religiosa dos invasores árabes muçulmanos. Instalaram-se primeiramente no estado de Gujarate, mantendo-se fiéis à sua cultura e religião — o zoroastrismo.

Em Mumbai a presença parse é sentida principalmente em seus cafés — restaurantes familiares, simples, que contam histórias através do mobiliário antigo, das fotos amareladas nas paredes e da presença do velho patriarca, o proprietário, sentado ao lado do caixa ou em uma das mesas contemplando a clientela. A culinária é riquíssima — saborosa, robusta e ao mesmo tempo elegante ao harmonizar notas suaves de flores e frutas, típicas da herança persa, com os sabores pungentes incorporados por meio dos temperos indianos.

Dentre esses cafés, talvez o mais conhecido seja o Britannia, principalmente pela figura carismática de seu proprietário de 93 anos, Boman Kohinoor. Tido como fã número um da família real inglesa, este ano o senhor Kohinoor agitou as redes sociais por ocasião da visita do casal real britânico, Kate e William, à cidade. Em uma demonstração do quanto os sonhos são levados a sério em Mumbai, os internautas clamaram por um encontro entre os três, o que acabou acontecendo em fevereiro. Uma das matérias publicadas sobre o evento trazia como título: Dreams do come trueOs sonhos de fato se realizam.

Na vanguarda do desenvolvimento capitalista da Índia, com suas consequentes mudanças sociais e crescimento econômico, a promessa de ascensão social em Mumbai atraí também indianos de todas as partes do país. E todos que aqui chegam, parecem utilizar a mesma porta de entrada: a Estação Ferroviária Chhatrapati Shivaji.

Construído pelos ingleses em estilo neogótico, com elementos da arquitetura indiana, o magnífico edifício serve tanto aos trens da Ferrovia Central Indiana como aos das linhas suburbanas, sendo um verdadeiro cadinho cultural — inglês, marati, hindi, urdu, gujarate, tâmil e telugo são algumas das línguas que ecoam no ambiente vibrante.

Observo um trem que começa a partir… Ele se afasta lentamente da plataforma enquanto pessoas se espremem em seu interior. Mas sempre cabe mais um, e a mão que se estende para agarrar o braço do passageiro atrasado não pergunta se ele é cristão ou hindu, muçulmano, jainista, budista, sique ou parse. Tudo pode mudar na próxima estação. Do lado de fora do trem, nem sempre as mãos se estendem com tanta facilidade. A tolerância que por um instante era tão real, volta a fazer parte do mundo dos sonhos.

A importância de Mumbai e a diversidade que ela abriga fizeram com que ao longo de sua história ela tenha sido palco de inúmeros ataques terroristas e conflitos sociais. O sangue escorre em episódios reais relatados no livro de Rushdie. E também nas paredes de um café parse — o Leopold. E nas plataformas da Estação Chhatrapati Shivaji, assim como em muitos outros lugares. A violência de Mumbai é diferente da que encontramos nas grandes cidades do Brasil, mas a luta pela sobrevivência engloba elementos da mesma natureza, sintetizados numa só palavra: sofrimento. Assim como outros aspectos comuns, como a criatividade e a simpatia, parecem aproximar brasileiros e indianos.

Decido embarcar em outro trem, rumo à estação Mahalaximi. Ao chegar subo as escadarias de cimento, atravesso a passarela e sigo em direção a Dhobi Ghat – a favela dos lavadores de roupas.

Sob um sol ardente, o olhar encontra frescor nos imensos tanques de cimento onde homens e roupas mergulham. Como soldados em formação, um exército de camisas brancas é estendido em varais paralelos. Do outro lado são as roupas coloridas, fileiras e mais fileiras de tons sobre tons encobrindo o sol. Um jovem aproveita e se banha em uma tina. Uma mulher chega trazendo chá para todos — a elas estão reservadas outras atividades, lavar roupa ali é coisa só de homens.

O trabalho parece árduo, mas é feito com uma certa leveza, ao menos é essa a impressão que tenho.

Um menino sai de um dos barracos, senta-se no umbral da porta. Seu olhar segue o movimento da roupa sendo batida na pedra de quarar… Seus olhos encontram os meus na distância. Não desvio o olhar. Depois de alguns segundos, ele sorri como quem advinha meus pensamentos. Como se fosse, graças a poderes telepáticos, capaz de acessar, passear em minhas lembranças daquele dia na grande cidade. Como Saleem, em Filhos da Meia-noite…

Leia sobre a relação dos indianos com os animais!

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4 comentários

Gislaine Setembro 9, 2017 at 8:47 pm

Que texto lindo, Nione!!! Sou sua colega do BPM. Sou louca pra passar um tempo na India, está nos meus planos mais próximos, e com seus textos tenho vontade de ir AGORA…rs… extrair a beleza desses momentos simples que você descreve é, de verdade, conviver com o outro. Beijo aqui do Chile.

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Nione Cristina Claudino Setembro 11, 2017 at 7:58 pm

Como é bom receber um feedback desses de uma companheira de BPM!!!
Muito obrigada, Gislaine! É assim que a gente se encontra no mundo — nas pequenas coisas, na convivência com o outro e nas conexões que fazemos mesmo estando a oceanos de distância.
Beijo grande! :-*

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Alza Outubro 17, 2017 at 5:48 pm

olá como é a educação , e como vive os jovens, é verdade que eles casam com o que os pais arrumam seus pretendentes?

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Nione Cristina Claudino Outubro 23, 2017 at 9:06 am

Olá, Alza!

Em termos gerais, o desenvolvimento econômico da Índia avança de mãos dadas com o educacional, e o sistema de ensino foi tema do artigo de setembro para o BPM da Rachel Tardin — A influência cultural no sistema de ensino no Brasil e Índia.
Os jovens nos grandes centros como Mumbai têm acesso a uma cultura mais globalizada, que se contrapõe às tradições indianas. No entanto, ao passo que alguns escolhem se distanciarem dessas tradições, outros sentem-se confortáveis em mantê-las. É o caso do casamento arranjado, que, por vezes, é imposto pelas famílias mais tradicionais; outras vezes, é rejeitado em um acordo comum entre o jovem e a família; e, por fim, às vezes é uma opção feita por jovens que consideram o sistema válido.

Grande abraço!

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