Nova Iorque com a minha mãe

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Foto: acervo pessoal
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Nova Iorque com minha mãe.

Durante o meu intercâmbio de graduação, marquei de encontrar com a minha mãe em Nova Iorque durante o Natal. Ela abriu mão de passar o fim de ano com meu pai e minha irmã para se encontrar comigo nos EUA. Estávamos há seis meses longe uma da outra.

Eu e ela temos personalidades e comportamentos diferentes. Mas sempre conversamos bastante e literalmente trocamos ideias. Compartilhamos nossas experiências baseadas na forma que temos para ver o mundo. Eu estava animada e ansiosa para reencontrá-la no aeroporto.

Era a primeira vez que ela estava viajando sozinha. Estava um pouco insegura em relação à entrevista na alfândega por não dominar a língua inglesa. Mas foi bem tranquilo. O agente apenas a perguntou qual era o motivo da visita. Ela informou que veio passar o Natal com a filha que estava estudando aqui. Também mostrou as passagens de volta e o hotel onde ficaríamos hospedadas.

Meu voo chegou algumas horas depois do dela. Assim que minha mãe ligou o celular nos EUA, a companhia telefônica do Brasil ofereceu um serviço de roaming internacional. Ela acabou aceitando e foi uma ótima escolha, pois facilitou muito nossa comunicação. Assim, ela conseguiu me ligar e nos encontramos na saída do aeroporto. Foram muitos abraços, beijos e olhos marejados. Estava feliz de reencontrar minha mãe depois de ter passado um tempo sem vê-la.

Foto: acervo pessoal

Foram dez dias maravilhosos! Visitamos o Museu de História Natural e o Museu Metropolitano de Arte. Passeamos no Central Park em um gélido dia de sol. Encontramos nossos rostos no telão da Times Square. Vimos neve pela primeira vez. Fizemos compras. Assistimos à estreia do filme Os Miseráveis. Fomos na igreja domingo de manhã e domingo à noite. Tiramos foto na Estátua da Liberdade. Andamos por toda Manhattan. Pedimos táxi na rua igual nos filmes. Usamos o metrô. Curtimos um show no Lincoln Center (e o artista autografou o CD para minha mãe). Almoçamos em um restaurante brasileiro junto com meus amigos universitários. Celebramos o Natal com amigos comendo torta de cogumelos, bebendo vinho, cantando e tocando violão. Presenciamos um casamento no topo do Rockefeller Center e minha mãe abraçou os noivos. E ela ainda deu gorjeta para todos os artistas de rua de Nova York.

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Mas o mais legal foi a troca de experiência que tivemos. Nos primeiros dias, eu estava um pouco ansiosa e preocupada. Eu teria que “tomar conta da minha mãe” por dez dias. Como ela não domina o inglês, eu tinha que pedir as refeições nos restaurantes, planejar o nosso roteiro e me certificar que não nos perdêssemos. (Nos perdermos uma vez no museu, mas como minha mãe tinha o roaming internacional ela conseguiu me ligar). Essa responsabilidade me deixou um pouco estressada.

 

Foto: acervo pessoal

No segundo dia, minha mãe levantou sete horas da manhã e queria tomar café na padaria perto do hotel. Eu só queria dormir e disse para ela ir sozinha. Afinal, ela falava um pouco de inglês. Depois minha mãe me confessou que naquele momento ficou com muita raiva de mim. Mas foi lá, comprou seu pão, suas frutas e seu café.

Eu me senti um monstro. Minha mãe veio para passar o Natal comigo e eu deixei ela tomar café sozinha. Pensei em tudo que minha mãe já fez por mim. Era mais do que a minha obrigação proporcioná-la uma viagem maravilhosa. Na verdade, era uma forma de gratidão. E depois que ela fosse embora, eu não a veria por um bom tempo. Então, decidi aproveitar cada momento ao seu lado. Até hoje ela enche a boca para dizer que foi uma melhores viagens da vida dela. Em suas palavras, minha mãe me disse:

“Foi uma das melhores viagens da minha vida. Vi que você se preocupou em fazer o que eu queria. Andamos por toda a cidade. A cada dia você me levava em um lugar diferente. Eu não sei como, mas você sabia chegar em todos os lugares. As pessoas até pediam informação para você, achando que você era de lá. Cuidou da minha saúde, comeu onde eu queria comer. Teve aquele dia chato da padaria, mas foi um dia só. Me levou para sair à noite e vi pessoas da minha idade curtindo um show. Conheci os seus amigos maravilhosos. Foi um Natal inesquecível! Você se preocupou em me fazer feliz.”

Foto: Aline Almeida

Ouvir isso da minha mãe foi sensacional. Eu fico até emocionada. É como se fosse um sentimento de maternidade reversa. Às vezes, eu achava que estava sendo muito chata. Apressava-a para decidir o que ia comer para o garçom não ficar esperando. Falava para ficar perto de mim no metrô e na Times Square. Perguntava se ela queria ir ao banheiro e procurava algum lugar seguro e limpo. Parecia uma mãe coruja mesmo.

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Mas quando ela me disse que nessas atitudes podia ver o meu esforço para agradá-la, eu me senti plena. Quando lembro da viagem, não penso apenas nas coisas que fizemos e lugares que visitamos. Também lembro de seus olhos brilhantes a conhecer cada novo canto da cidade. Mas na época eu nem prestei muita atenção nisso. Depois que minha mãe foi embora, fiquei mais um tempo em Nova Iorque para passar o Ano Novo com uns amigos. Certo dia estava conversando com minhas amigas sobre o Natal e disse que não tinha ganhando nenhum presente. Então minha amiga me falou:

“Eita, moça! Você ganhou uma mãe no Natal!”

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