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    Home»EUA»A crise dos desabrigados em Portland
    EUA

    A crise dos desabrigados em Portland

    Lorena NascimentoBy Lorena NascimentoMay 12, 2019No Comments5 Mins Read
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    Fonte: Jonathan Kho/ unsplash,com
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    Quando me mudei para Portland não me assustei com a quantidade de desabrigados, porque já conhecia a cidade. E já estava acostumada com o Rio, onde a gente acaba fazendo amizade com os moradores de rua. O Rio de Janeiro inclusive tem um projeto chamado Rio Invisível, para dar mais visibilidade e voz aos transeuntes.

    Mas para quem não está familiarizada com essa situação, ou tem um coração mais sensível, andar pelas ruas de Portland chega a ser deprimente. Me mudei para cá fazem quase quatro anos. Primeiramente, eu via a concentração de desabrigados só no centro da cidade. E em locais próximos a linhas de trem e VLT. Mas nos últimos anos, parece que a crise piorou. Na minha rua, que é um bairro bem residencial, tem duas pessoas que estão “acampadas” em seus carros há mais de três meses.

    Um dos moradores irregulares tem um cachorro grande. Que passa quase o dia inteiro dentro do carro. Certo dia estava voltando para casa de bicicleta, após uma reunião de trabalho. Ao virar em minha rua, o cachorro estava fora do carro, perto de seu dono. Quando passei
    pelo cachorro, este começou a correr atrás de mim. Entrei em casa e o cachorro veio atrás. O dono veio correndo em nossa direção, sem sucesso em controlar seu animal. Uma vez que o cachorro pulou em minha direção, o rapaz o segurou pela coleira. E foi-se embora sem pedir desculpas ou dizer adeus.

    Leia também: Despejo na Califórnia

    Não gosto de julgar, pois sabe-se lá se o cachorro só queria brincar. Ou se o morador de rua tem um cachorro para sua proteção. E de certa forma eles estão sofrendo mais do que eu, pois eu tenho uma casa e uma cama quentinha para dormir. Mas claramente foi uma
    situação desconfortável para mim, para o cachorro, e para o moço.

    Assim vivemos em Portland e muitas outras cidades americanas. Andando pela cidade, sempre vejo barracas de camping, pessoas dormindo nas ruas, inclusive no campus da minha universidade. A cidade tem trabalhado em algumas iniciativas interessantes para solucionar este problema.

    Existe uma lanchonete chamada Sisters of the Road (Irmãs da Estrada) que tem o objetivo de trazer visibilidade aos moradores de rua. Na verdade, Sisters of the Road virou um grande projeto, ajudando os desabrigados com refeições baratas ($1,50 que pode ser pago de diversas formas, inclusive em troca de trabalho ou de forma totalmente gratuita). Em uma das minhas aulas na faculdade sobre métodos qualitativos de pesquisa, os alunos usaram entrevistas com moradores de rua, uma coletânea organizada pela Sisters of the Road.

    O projeto chamado Voices of Homelessness (Vozes dos Desabrigados) visa compartilhar e ajudar a entender os problemas enfrentados pelos moradores de rua. Antes de ler as entrevistas, eu via pessoas nessa situação e pensava:

    “Por que não trabalham?”

    “Por que não procuram um abrigo?”

    “Por que não pedem ajuda pra família?”

    Mas lendo as entrevistas eu comecei a vê-los como pessoas “normais”. Uma amiga minha sempre fala:

    “A gente não quer dar dinheiro pros pedintes porque acha que eles vão comprar álcool, droga e cigarro com esse dinheiro. Mas na verdade a gente também usa o nosso dinheiro pra isso.”

    É a mais pura verdade! É claro que se temos a chance de trabalhar, achamos que temos o direito de fazermos o que quiser com nosso dinheiro. As entrevistas contam histórias de pessoas que foram militares, viveram situações de poder, e vieram de uma família estruturada. Mas a vida é uma caixinha de surpresa. Nunca sabemos o que pode acontecer. E ao morar em um país onde a sanidade mental é um problema de saúde pública, qualquer um pode entrar em colapso a qualquer momento.

    Leia também: Problema habitacional em Los Angeles

    Nos EUA é fácil ficar dependente químico de remédios. Os médicos dão analgésicos e remédios tarja preta com muita facilidade. Muitos abrigos não aceitam pessoas dependentes químicas. Muitos abrigos não são amigáveis para pessoas LGBTQ. Muitos abrigos não aceitam casais. Muitos abrigos não aceitam famílias. Muitas pessoas não tem uma boa relação com a família.

    A minha faculdade tem um laboratório chamado Homelessness Research & Action Collaborative (Pesquisa com Desabrigados e Ação Colaborativa) que estuda os motivos que levam pessoas a ficarem sem-teto. O projeto StreetRoots (Raízes da Ruas), oferece oportunidade de trabalho para moradores de rua e divulga o dilema através de um jornal e outros meios de comunicação. A prefeitura criou uma inciativa para gerar residências de baixo-custo. Até setembro do ano passado, quatro famílias foram gratificadas com um lar, em uma ADU. ADU significa accessory dwelling unit, que traduzindo-se para o português seria algo como um “puxadinho arrumado”.

    Esses puxadinhos são regulamentados, projetados, e precisam ter uma entrada individual da casa maior. A proposta da prefeitura é que se um proprietário se voluntariar a abrigar uma família de desabrigados durante dois anos, eles têm um desconto nas taxas e na construção do puxadinho. Também é uma forma de aumentar a capacidade imobiliária da cidade.

    Leia também: tudo que você precisa saber para morar nos EUA

    Portland é uma cidade com uma extensa zona residencial de baixa densidade. Ou seja, muitas casas e poucos prédios. Como a população aumentou muito, o aluguel também aumentou, pois não há lares suficientes para todos. A famosa lei da demanda e procura. Tenho amigos que já ficaram sem casa por algum tempo, morando em carro, em bibliotecas públicas, dormindo na casa de amigos (inclusive no meu sofá), porque não conseguiam encontrar um lugar que pudessem pagar aluguel.

    Como disse anteriormente, pode acontecer com qualquer um. É importante estudar para encontrar soluções para esse problema. Portland tem construído muitos novos apartamentos, mas o aluguel é caro e muitas unidades ficam vazias. Todos estes problemas, juntando a intensa gentrificação faz com que Portland seja um bom cenário para o estudo e criação de políticas de habitação a preços acessíveis (affordable housing). E isso o Instagram não mostra. 

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    crise habitacional EUA gentrificação Oregon sem-tetos
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    Lorena Nascimento
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    Lorena é carioca, engenheira florestal, adora estar perto do mar, e cresceu em Macaé. Atualmente mora em Portland, onde é doutoranda em Urbanismo. Em seu tempo livre gosta de cantar e tocar maracatu, escrever, ver séries, e sair com seus amigos. Suas paixões são aprender mais sobre a natureza, fazer snorkeling na Região dos Lagos, fazer trilhas, ler biografias e livros políticos.

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