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Equilíbrio mental e pessoal na pós-graduação

Equilíbrio mental e pessoal na pós-graduação.

Estou no meu quarto ano de pós-graduação na Portland State University, em Portland, Oregon. Vim para os EUA para fazer um doutorado e durante este período tive muitas alegrias e algumas angústias. Neste texto vou compartilhar alguns comportamentos que eu adotei para evitar ansiedade, síndrome do impostor, e depressão.

A primeira dica para não sofrer é: nunca pague pela sua pós-graduação. Nos EUA, nada é de graça. Educação é caríssimo! Na minha faculdade, a mensalidade para um estudante internacional em período integral, incluindo taxas (seguro saúde, academia, taxas administrativas) é cerca de $10,000 por trimestre! Durante um ano letivo, gasta-se cerca de $30,000 com educação. Isso sem incluir os gastos com alimentação, hospedagem, e diversão. Portanto, para evitar esse estresse financeiro, é muito importante se inscrever para bolsas de estudos.  

No Brasil, é comum que os alunos de universidades públicas trabalhem com pesquisa (iniciação científica) até mesmo durante a graduação. Nos EUA, os alunos geralmente só começam a trabalhar com pesquisa durante a pós-graduação. Alunos brasileiros tem uma grande vantagem ao se inscrever para bolsas de estudos, porque talvez já tenham mais experiência e bagagem no currículo.

O período de inscrição para programas de pós-graduação nos EUA geralmente é entre outubro e janeiro. Durante a aplicação, é possível informar se precisa de um cargo no departamento (professor assistente ou pesquisador assistente) que ofereça isenção de mensalidade. Os sites Partiu Intercâmbio e Estudar Fora são fontes atualizadas de como encontrar bolsas de estudos ao redor do mundo.

Leia também: Pós-graduação nos EUA: Por onde começar?

Após iniciar a pós-graduação, um problema constante entre os alunos é a síndrome do impostor. A síndrome do impostor é um conjunto de sentimentos que levam a pessoa a crer que não é boa o suficiente para exercer seu cargo ou estar na posição em que se encontra. Este vídeo explica este fenômeno que afeta muitos profissionais capacitados e principalmente estudantes de pós-graduação. Esta insegurança pode levar pessoas que tem um futuro brilhante pela frente a se auto-sabotar.

Em alguns momentos eu sofri com a síndrome do impostor, mas a minha auto-estima falou mais alto. Primeiro, ninguém sabe mais do que o nosso tópico que nós mesmos. No meu caso, sou eu quem leio e penso todos os dias sobre ecologia política e florestas urbanas. Mesmo que os orientadores sejam especialistas no assunto, na pós-graduação cada pessoa tem que estudar algo completamente novo em um estudo de caso. E ninguém melhor do que a própria estudante para conectar os pontos da pesquisa e contribuir onde há uma lacuna na literatura científica.

Nos EUA existe um ditado fake until you make it (finja até conseguir fazer). Ao estudar todos os dias sobre o mesmo assunto, é certo que a capacidade virá com o tempo. E mesmo que não se sinta completamente confortável com o tópico, a perseverança e persistência trarão bons resultados. O hábito faz o monge.

Porém, nem sempre estamos com a auto estima elevada e momentos de tristeza podem se tornar constante na vida acadêmica. Diversos fatores como estar longe de casa, ter dificuldade em fazer amizades verdadeiras, e a falta de suporte emocional podem levar a depressão. Não hesite em procurar ajuda médica para depressão e ansiedade!

Eu passei por momentos de angústia profunda durante um período da minha pós-graduação. E eu tinha um pouco de medo e preconceito contra procurar ajuda psicológica. Mas depois de muita relutância e ouvir conselhos de amigos e profissionais, eu fui ao serviço psicológico da minha faculdade. Uma vez matriculada, a maioria das universidades americanas oferece o serviço de acompanhamento psicológico (geralmente está incluído no pacote de $10,000 de mensalidade).

Fazer terapia me ajudou não só na vida acadêmica, mas também na minha vida pessoal, interpessoal, e até nos meus relacionamentos. Hoje, estou prestes a receber alta do meu tratamento, mas continuo buscando ter mais conectividade entre sentimentos e pessoas.

Participo de um grupo onde discutimos uma vez por mês as nossas experiências espirituais (não só religiosas, mas acreditando que somos seres energéticos e precisamos trabalhar a nossa fluidez nesse mundo). Nossa mente é parte do nosso corpo. Ao sentir dores físicas, procuramos um médico. Devemos fazer o mesmo ao sentir dores mentais e espirituais.

Leia também: Saúde Mental dos Imigrantes 

Não deixe que a rotina de trabalho e estudo atrapalhe outras área da vida. Ao começar a pós-graduação, é normal sentir uma fatiga no início. Em geral, há uma enorme mudança e uma grande carga de leitura e dedicação aos trabalhos acadêmicos. No início, eu dormia tarde, me alimentava mal, não me exercitava. Com o tempo, fui percebendo que isso estava me prejudicando. Hoje, levo a pós-graduação como um trabalho: 8 horas por dia sem procrastinação.

Infelizmente, demorei quase quatro anos para compreender isso. É importante criar uma rotina de estudo e trabalho logo no início. Ter um local limpo, arejado, e que ofereça uma motivação para o estudo é essencial. Eu geralmente estudo em bibliotecas, cafés, e ao ar-livre, quando está um dia bonito. Muitos alunos de pós-graduação tem seus escritórios e laboratorios, o que pode facilitar a criação de um ambiente otimizado para o estudo. Tente não estudar em casa, pois é mais fácil de se distrair e perder o foco.

A última dica é: não deixe de se divertir. Não precisa meter o louco, mas é fundamental que a nossa mente tenha uma válvula de escape para relaxar. Participar de grupos sociais, tocar instrumentos musicais, ler livros (ou ouvir audiobooks), visitar centros de arte e cultura, exercitar o corpo, e ter hobbies ativos (pintura, costura, dança, culinária, ir no cinema) são atividades que devem fazer parte da vida da estudante de pós-graduação.

Passei muito tempo assistindo séries e jogando Candy Crush. Mas hoje eu tenho reduzido o meu tempo em frente a TV e jogando online. Essas atividades são boas para relaxar imediatamente, mas não constroem laços interpessoais e não requerem muito esforço físico e mental. Este fato pode deixar o corpo e a mente preguiçosos com o passar do tempo.

Já ouvi diversas vezes de estudantes de pós-gradução a seguinte frase: Não tenho vida! Infelizmente, a indústria acadêmica quer que todos vivam em uma bolha. Eu já me decepcionei bastante com isso. O nível de cobrança, principalmente para professores pesquisadores, é muito alto. É tecnicamente impossível realizar um bom trabalho com a atenção necessária e manter um balanço entre a vida profissional e pessoal.

Pós-graduação é um sonho para aqueles que tem sede de conhecimento. Estudar no exterior é um grande desafio, um grande orgulho, mas tem um grande preço. Planejar-se financeiramente, acreditar em si mesmo, cuidar da saúde mental, ter uma rotina de estudo, e aproveitar o tempo livre são as dicas que eu tenho para dar. E por último, mas não menos importante, escolha um tema que você ame, pois terá que ler e escrever sobre isso todos os dias por um determinado tempo em outra língua.

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