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O preço de imigrar ilegalmente

O preço de imigrar ilegalmente

Atravessando a fronteira

Relutei em escrever sobre este tema que me perseguia há por muito tempo. Não estava certa se deveria abordar um assunto tão controverso sem me colocar numa saia justa. Ao ponderar, vi que valeria a pena, pois o meu objetivo aqui é esclarecer e não julgar a escolha de ninguém.

Através do meu trabalho como intérprete e como voluntária na comunidade, aprendi muito sobre imigração, além de ter lido extensivamente sobre o assunto. Caso você decida continuar esta leitura, peço que lembre-se das minhas fontes de informação. Tenha em mente que estou me baseando somente no caso de brasileiros, que é uma situação diferente dos latinos da América Central.

Para começar, a crise brasileira que vem se alastrando há anos impulsiona muitos brasileiros a pensarem que a solução é morar em outro país. O que é apresentado na mídia ou redes sociais sobre pessoas que arriscaram tudo para atravessar essa fronteira é só a pontinha do iceberg. Quero deixar um alerta para quem pensa em entrar nos Estados Unidos através da fronteira México-Estados Unidos: quem opta por este caminho já entra no país violando as leis de imigração.

O começo de tudo

Tudo começa quando o viajante contrata serviços dos “coiotes” ou “mulas”, que vão cobrar muito dinheiro pois garantem que o viajante passará a fronteira. Ouvi casos de pessoas que venderam tudo o que tinham para pagar um coiote. Outros ficam até devendo e nunca conseguiram trabalhar nos Estados Unidos.

Uma vez que o “serviço” é confirmado, o viajante sai do Brasil com destino ao México. Depois, há várias paradas em casas ou hotéis baratos onde viajantes de outros países também se encontram. Em cada trecho haverá um coiote diferente passando instruções até a próxima parada. Um mar de imprevistos desagradáveis pode acontecer a caminho do destino final, como, por exemplo: roubos, ser forçado a entrar com drogas ou crianças fruto de tráfico humano, ou ser traficado/a.

De acordo com o serviço de imigração ICE (Immigration and Customs Enforcement) mais de 80% das mulheres são estupradas múltiplas vezes, outros morrem pelo caminho devido a alta temperatura da região por ser uma área desértica. Tem pessoas que se sujeitam a levar crianças sem laços familiares por acreditar que isso vai facilitar o processo de asilo. Isso tudo pode acontecer somente pela tentativa de atravessar a fronteira.

À mercê da sorte

Uma vez que um estrangeiro passa para o lado americano sem visto de entrada, imediatamente torna-se um imigrante sem documentação, sem registro. O primeiro passo em solo norte-americano será na área do porto de entrada oficial ou num rancho, que é uma propriedade privada. Pisar numa propriedade privada pode significar um infortúnio ou uma sorte mais ou menos. Enquanto alguns moradores da área criaram postos de água neste trecho para servir quem tiver passado, outros decidiram se armar instalando câmeras e treinando cachorros para achar imigrantes.

Tenha em mente que aqui nos Estados Unidos é legal matar alguém que entra em propriedade privada. Donos de ranchos na fronteira do Arizona atuam como se fossem guardas da fronteira, mas não são. O pior deles é o grupo que vê isso como um esporte e literalmente caça humanos. Em outras palavras, um cidadão deixa de existir e se torna um ser invisível.

Leia também: Cinco motivos para não morar nos EUA

O pesadelo continua

Ao deter um imigrante, os patrulheiros da fronteira o levarão para checkpoint para serem entrevistados, apresentarem documentos, irem ao banheiro etc. Isto seria uma parada inicial por algumas horas, porém as unidades de abrigo estão tão cheias que muitos têm ficado no ponto inicial por três dias sem tomar banho, comendo salgadinhos numa sala gelada. Ouvi relatos de pessoas que dormiram no chão.

Quando vaga espaço no abrigo estes são transferidos. Ali vão receber atendimentos médico, dentário e mental básicos. É possível ligar para os familiares, mas os minutos devem ser comprados numa pequena loja de conveniência. Tudo é fornecido, inclusive roupas, mas todos os pertences ficam detidos até o dia da soltura.

Pode-se trabalhar no abrigo se houver vaga. Um oficial de asilo entrevista todos, entrega o caso para o Departamento de Segurança Interna (Homeland Security), que inicia um processo legal na vara imigratória acusando o réu ou respondent de ter violado as leis imigratórias do país.

Antigamente, o período de permanência nesta unidade era de 21 dias. Atualmente leva mais de 40 dias. Algumas crianças foram separadas dos pais e levadas para outra unidade, o que gerou polêmica. Quase 100% dos brasileiros que estão abrigados nestas unidades não falam inglês. Muitos se desesperam e imploram para serem deportados imediatamente, mas uma vez que o processo começa, terá que esperar o curso normal dos procedimentos – que é longo. Normalmente, no final, pode haver uma saída voluntária ou a deportação. Até que esse processo se conclua, o preso pode ser liberado, mas vai usar uma tornozeleira – GPS – e precisam manter a imigração informada caso mudem de endereço.

A vara imigratória fornece uma lista de advogados que oferecem serviços gratuitos ou cobram honorário baixo. Audiências são programadas para que o imigrante se apresente perante o juiz. O processo continua e perde-se muito tempo porque infelizmente a maioria dos advogados deixa seus clientes na mão, não comparecem nas audiências e o juiz tem que marcar uma nova audiência. Os advogados acreditam que os casos são fracos e desistem. Antigamente, violência doméstica qualificava para o pedido de asilo, atualmente, não.

Leia também: Tudo o que você precisa saber para morar nos EUA

E o asilo?

Todos receberão asilo imediatamente? NÃO. Aliás, é necessário provas – reais – de que sua vida está em risco no país de origem e que existe perseguição por motivos religioso, político, guerra civil, filiação a grupos perseguidos pelo governo, polícia, gangues. Uma vez que o viajante atravessa a fronteira para o território norte americano, ele/ela começa a segunda parte desta aventura cruel. Saiba mais sobre o processo de asilo aqui.

Isto foi um resumo bem curto deste processo doloroso. A intérprete e escritora mexicana, Valeria Luiselli, relata no seu livro Tell how it ends (Me fala como isto termina) a triste trajetória de crianças que caminharam até a fronteira. Você pode encontrar mais informações sobre imigração ilegal nos Estados Unidos aquiaqui.

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