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Suécia

O processo de mudança para outro país

O processo de mudança para outro país.

Agora em setembro, completamos um ano que iniciamos nosso processo de mudança para outro país. No caso, a Suécia. E digo que iniciamos, pois este processo não se completa simplesmente ao chegar no outro país. Trata-se de um processo muito mais longo, complicado e, algumas vezes, mais dolorido do que se pensa. Não mudamos somente de casa, cidade e país. Mudamos nossa vida profissional, nossa rotina, nossa vida social, nossa forma de ver o mundo. E isso leva tempo!

Vida Profissional

No meu caso, mudamos devido a uma oportunidade de trabalho do meu marido. Ele manteve-se dentro do mesmo ramo que já trabalhava no Brasil. Mas isso não quer dizer que ele não tenha que enfrentar mudanças no âmbito profissional. Para começar, toda a comunicação é em outra língua. Por mais que a gente fale bem o inglês, não é a mesma coisa que nos expressarmos em nossa língua materna. Nós, brasileiros, temos o costume de colocar muita emoção em tudo que falamos. Mas já tentou colocar emoção e sentimento ao se comunicar em outra língua? É muito mais difícil, especialmente para quem nunca teve a experiência de morar fora, anteriormente.

Além disso, aqui na Europa, o ritmo de trabalho e o comprometimento é bem diferente do Brasil. Acho que isso acontece muito devido ao fato de que aqui as pessoas não possuem intenção de “fazer carreira” em algum lugar. Hoje eles trabalham aqui; amanhã, ali. E assim, vai. Não criam raízes.

Já eu, larguei minha carreira bem-sucedida de advogada, no Brasil, e vim. Sem ideia do que seria da minha vida profissional. Primeiro, tive que aguardar meu filho conseguir uma vaga na creche. Pois é, essa é uma das maiores dificuldades de se mudar para outro país: a falta de rede de apoio. Aqui, não tinha como contar com avós, tios ou padrinhos que pudessem ajudar a cuidar do meu filho, para que eu pudesse, sequer, fazer uma entrevista de emprego. Após ele ter iniciado na creche, surgiu uma oportunidade de trabalhar como guia de turismo. Quem me conhece, sabe que sempre tive uma quedinha pela área de turismo. Inclusive, já tinha tentado trabalhar com isso no Brasil, mas “não tinha tempo”, pois minha prioridade, na época, era a minha carreira de advogada. Coincidência? Talvez.

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Fato é que estou muito grata por esta oportunidade, mas eu quero mais. E isso significa começar do zero. Pois, aqui, ninguém sabe quem eu sou. Os lugares nos quais estudei e trabalhei não dizem nada. Então, posso dizer que por aqui, depois de um ano, nosso processo de mudança profissional ainda está rolando.

Vida Social

Nossa, é tão difícil falar de vida social quando se é expatriado! Aliás, não sei nem por que é tão difícil, já que ela é praticamente inexistente. Óbvio que temos alguns colegas. Nós nos reunimos, jogamos conversa fora. É até divertido! Mas posso dizer que é totalmente diferente de nos reunirmos com os nossos amigos e familiares que deixamos no Brasil. Excluindo a comparação em relação aos familiares, por questões óbvias, creio que existem alguns fatores que dificultam o estreitamento de laços de amizade por aqui. Muitos deles, já citei anteriormente.

O primeiro, é que o brasileiro gosta de colocar emoção nas relações. E, pelo menos aqui na Suécia, as pessoas são mais frias e individualistas. Então, muitas vezes, a gente nem sabe direito se a pessoa não gostou de você ou se ela só é “na dela”, mesmo. A isso, adicionamos a questão da comunicação em outra língua, que já falei anteriormente. Aqui, temos colegas das mais diversas nacionalidades, cada um com as suas características particulares e dificuldades de linguagem. Então, imaginem a confusão.

Além disso, aqui pela Europa é muito comum a pessoa nascer em um país, estudar em outro, arrumar um(a) namorado(a) de outra nacionalidade e acabarem por morar em outro país. Acho que esse é um dos principais fatores que levam as pessoas a serem mais desprendidas, não criarem raízes e, por isso, serem mais frias em suas relações. Hoje, elas moram aqui, mas amanhã, podem estar em outro país.

Por fim, carregamos conosco todos os grandes amigos da época de escola, faculdade, estágio etc. Pessoas que sabem da nossa história e que nos acompanharam em diversos momentos difíceis. E quando nos mudamos, essas são as pessoas que mais nos fazem falta. Ah, como faz falta aqueles momentos de nostalgia com nossos amigos, lembrando de momentos difíceis ou desconcertantes que hoje nos fazem rir juntos. Pois é, assim como no mercado de trabalho, para todos esses novos colegas, não somos nada. Não temos qualquer bagagem em comum, apenas alguns poucos meses. Então, posso dizer que em um ano de processo de mudança, a vida social e as amizades estão engatinhando.

Rotina

Viver na Europa é totalmente diferente de se viver no Brasil, por vários motivos. No Brasil, temos prestadores de serviço acessíveis para tudo. Já na Europa, reina o conceito de “faça você mesmo” (ou “quase venda um rim” para pagar alguém que o faça). Enquanto no Brasil tínhamos carro e fazíamos compras de mês, aqui tivemos que nos acostumar a ir ao mercado pelo menos duas vezes por semana, já que carregamos nossas compras no braço, de transporte público.

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Mas a principal diferença está em saber como as coisas funcionam. Quando chegamos por aqui, tudo era novo. Desde ler o rótulo dos produtos no mercado até como marcar uma consulta médica. Para isso, tivemos que ter paciência, perguntar muito, e posso dizer até que esses grupos de redes sociais nos ajudaram bastante a entender como algumas coisas funcionam. Nossos conterrâneos são sempre bastante prestativos.

Já temos uma nova rotina aqui e já entendemos como muita coisa funciona. Mas muitas coisas só aprendemos no dia a dia, quando passamos por situações novas. E o fato de ainda não dominarmos a língua local, também é um dificultante. Ou seja, mais uma parte do processo de mudança não concluído, mesmo após um ano.

Como vemos o mundo

Com tanta mudança ao mesmo tempo e tendo contato com outras culturas, é inevitável que acabemos mudando nossa forma de ver o mundo, também. Apesar de todas essas dificuldades, ou talvez seja justamente devido a elas, que digo que todo mundo deveria passar pela experiência de ser um expatriado, pelo menos uma vez na vida. Pode parecer um pouco clichê, mas aprendemos a dar valor a coisas pequenas. Passamos a valorizar muito mais o ser do que o ter. Estreitamos nossa relação como casal e família, como talvez nunca conseguiríamos no Brasil.

Posso dizer que depois de um ano de expatriados, nosso processo de mudança ainda está em curso. Pode levar mais 1, 3, 5 anos, que seja. O que posso dizer é que, se por algum motivo tivermos que voltar para o Brasil amanhã, já terá valido a pena.

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