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O que aprendi com os alemães – parte 2

No meu último texto, eu listei cinco coisas que aprendi com o povo alemão nesses quase sete anos que vivo desse lado do oceano. Agora, dou continuidade e adiciono mais cinco:

6. Liberdade dos padrões de beleza

Certamente, esse foi mais um dos principais motivos pelos quais me apaixonei pela Alemanha. No Brasil sempre senti que há um determinado padrão a ser seguido para se sentir bonita, ser levada a sério ou não ser olhada de forma estranha pelos outros. Desnecessário dizer que os esforços são em vão, uma vez que paranoia é um círculo vicioso – não é pra menos que nossa terra é uma das campeãs mundiais de cirurgias plásticas. Na Alemanha, por outro lado, o povo é bem mais relaxado em relação a isso de maneira geral. É claro que em uma cidade grande e cosmopolita como Berlim, nota-se ainda mais forte essa despreocupação com a aparência. No entanto, também em outros estados a diferença é bem nítida, mesmo em eventos mais elegantes como casamentos. Roupas sem enfeites, sapatos sem salto, maquiagens bem leves, unhas e cabelos arrumados em casa mesmo são a “regra”. Pessoalmente, acho impagável não ter essa preocupação excessiva com “o que os outros vão pensar” ou não ter que me arrumar quando não tenho vontade – afinal, ninguém dá bola mesmo.

7. Consciência ambiental

Também não é nenhum pouco difícil de notar que os germânicos têm bastante consciência em relação ao meio ambiente. Pra início de conversa, em qualquer lugar que se vá, encontra-se produtos Bio – ou seja, orgânicos, gerado com um procedimento estritamente regulado. Isso significa que os produtores não usam agrotóxicos nem dão antibióticos aos animais, que devem receber luz natural e vivem livremente pelo campo. Mesmo que custe um pouco mais, os alemães preferem e optam por esses produtos. Outro ponto importante é o da reciclagem, extremamente valorizada por aqui. Desde pequenas, as crianças aprendem já no jardim de infância a separar o lixo. Além disso, as pessoas evitam o uso de sacolas plásticas sempre que podem e a preferência é por bolsas de tecido. Aliás, esse acessório (chamado aqui de Jutebeutel) é até mesmo considerado uma marca da capital do país – independente da faixa etária, todo mundo tem o seu. Apesar da política nacional desse setor ainda não estar entre as top 20 melhores do mundo, em comparação à Escandinávia ou França (vamos ser sinceros), a Alemanha é exemplo quando o assunto é energia renovável.

Fonte: pixabay

8. Falar sem rodeios

Outra característica típica alemã é falar o que pensa sem enrolar. Embora não seja tão direta ainda, já aprendi bastante com isso de ir direto ao ponto, sem grandes rodeios. Se uma pessoa não gosta de algo ou está sem vontade de uma atividade, por exemplo, isso é comunicado sem cerimônia – o que não é necessariamente algo mal visto por aqui. Para brasileiros, que estão relativamente acostumados com as boas e velhas “desculpas esfarrapadas” ou com mais “conversa fiada” antes de dizer o que realmente quer, esse costume pode parecer um tanto quanto grosseiro. No entanto, particularmente considero que a sinceridade vale mais do que a simpatia superficial e, por isso, valorizo bastante essa maneira de ser. Dificilmente ouvimos alguém dizer um claro “não” em terras tupiniquins – muitas vezes simplesmente dando respostas vazias como “talvez” ou “vamos ver” e sumindo do mapa logo em seguida. Acredito que ser mais direto possa evitar uma série de desentendimentos desnecessários.

Leia também: Cinco coisas que levaria da Alemanha para o Brasil

9. Senso crítico

Para ser sincera, nunca fui adepta ao nacionalismo cego, onde acredita-se que o amor ao país que nasceu deve estar acima de qualquer crítica e insatisfação. Sempre tive claro que nosso lugar de nascença nada mais é do que um acaso, afinal, ninguém tem o poder de escolher de onde vem. Por conta disso, nunca poupei críticas em relação ao meu país, estado e cidade e, muitas vezes, fui julgada por compatriotas. Na Alemanha, um país onde o antinacionalismo é bastante presente, me sinto aliviada e esse sentimento foi reforçado. Por aqui, o povo não poupa críticas e, conforme já mencionado no último ponto do texto anterior, exige mesmo melhorias e progresso. Aliás, acredito fortemente que apenas através de uma autorreflexão é possível mudar as coisas. Consequentemente, os germânicos também são bem abertos a políticas globalistas ao invés de nacionais. A própria questão da União Europeia é vista com muita positividade, o que é perceptível não apenas no cotidiano, mas também comprovado por pesquisas.

10. Humildade e respeito

Por último, mas não menos importante, gostaria de adicionar o respeito e a humildade à lista. Como já foi mencionado nesse texto, no Brasil temos um entendimento muito enraizado de que é necessário ter um cargo importante e renomado para ser “alguém na vida”. Ou seja, é preciso ter diploma universitário, trabalhar nessa área e ter um posto de chefia – convenhamos também que, às vezes, ter nascido em uma família rica já basta. Não raro, é possível observar que o garçom, o lixeiro, o atendente e os empregados em geral são olhados com desdém, como pessoas que valem menos. Por aqui, a situação é bem diferente. A começar pelo salário, que é justo em qualquer uma dessas profissões. Todos conseguem viver bem, mesmo sem um diploma universitário – claro que com menos luxos, mas de maneira digna. Além disso, de maneira geral não são tratados com desprezo por clientes ou patrões. Sabemos que, infelizmente, no Brasil não funciona assim. Inclusive, mesmo muitos estudantes na Alemanha fazem trabalhos mais simples ou braçais para arcar com suas despesas, já que geralmente saem da casa dos pais depois da escola. As pessoas não valem mais ou menos simplesmente por terem um determinado tipo de emprego.

Leia também: Tudo que você precisa saber para morar na Alemanha

Minha lista de aprendizados ainda é longa e, certamente, muito ainda está por vir. Como se diz na Alemanha: “Man lernt nie aus”, ou seja, nunca paramos de aprender. Mas, por enquanto, termino a lista por aqui. Como já falei antes, gosto de focar sempre no lado positivo das situações e espero seguir sempre assim. Afinal, não gostaria de passar por todos os perrengues da vida de expatriada, mais a saudade da família e amigos brasileiros, sem tirar tantas coisas boas de tudo isso! E vocês, também aprenderam lições nos lugares onde moram?

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