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Os espaços públicos na vida da capital argentina

Os espaços públicos na vida da capital argentina.

A vida portenha acontece nos espaços públicos de um jeito que, para alguém que veio de São Paulo, capital, parece simplesmente inacreditável. São inúmeras praças, com bancos onde você pode se sentar com um café e um livro para se esquentar num dia frio, ou ficar à sombra das árvores para aliviar o calor. Tem muitos parques, com árvores, gramados, aluguel de bicicletas, em várias zonas da cidade. E o gigantesco parque de Palermo: 40 hectares de área verde, com pequenos bosques e lagos.

É que Buenos Aires (e eu sempre vou falar de Buenos Aires, porque a Argentina é diversa demais, não dá para generalizar) é muito mais da porta pra fora do que muitas cidades brasileiras, provavelmente devido a uma combinação de vários fatores.

Primeiro, a violência urbana ainda fica atrás do que estamos acostumadas a encarar em São Paulo, por exemplo. Estar fora de casa, andar pela rua, geralmente não é algo perigoso. É claro que existem assaltos e agressões, e posso abordar esse assunto em outro post, mas o hábito de fazer piquenique, tomar um mate, pensar na vida, praticar exercícios ou simplesmente frequentar as áreas verdes ainda é muito arraigado.

Em segundo lugar, o zoneamento da capital argentina permite a construção de imóveis sem recuo de frente. Isso significa que existe uma quantidade enorme de casas com porta e janela direto pra calçada. Como paulistana, eu sempre achei isso muito maluco! Aliás, até hoje não resisto quando passo por uma janela aberta e dou uma espiadinha para ver como os outros vivem.

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E é assim com casas e também com prédios. A grande maioria deles tem uma porta de vidro, um pequeno hall e você já está no elevador, sem nenhuma área comum no andar térreo – o prédio ocupa a totalidade do terreno. A única área livre de muitos prédios é o terraço, que é quase obrigatório por aqui, mesmo nas casas — ao invés de telhado, terraço, para pelo menos ver um pouco de sol, secar a roupa no varal.

Foto: garrett parker, Unsplash.comesp

Com um prédio que ocupa o terreno todo, o portenho praticamente não tem escolha: é pé na rua. Especialmente para quem tem filhos, o programa obrigatório é levar no parquinho. É muito comum ver famílias nas praças depois da escola, os pais sentados em um banco ou na grama para conversar enquanto as crianças se esbaldam nos brinquedos. Certamente passa alguém vendendo alguma coisinha para comer e, dependendo do bairro, um vendedor de café.

Bebida quentinha para enfrentar o frio

É isso mesmo. Buenos Aires é uma metrópole, mas tem costumes que são quase de uma cidade do interior. Um deles é esse, o vendedor ou vendedora de café. A pessoa leva um carrinho cheio de garrafas térmicas com café preto e café com leite. Mesmo com a proliferação dos cafés gourmet super cool, eles continuam circulando, já que entre os clientes fiéis estão trabalhadores que não podem abandonar seu posto, como policiais, vigias e jornaleiros.

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Para os amantes do mate — praticamente a população inteira do país —, estar na rua também não é problema. Postos de gasolina e outros pequenos comércios costumam vender água quente para a garrafa térmica, de modo que nenhum portenho fique de boca seca.

Os dias frios não são dias, são meses. Embora as temperaturas poucas vezes caiam abaixo de zero, em Buenos Aires o calor é muito intenso, mas muito curto. Às vezes os dias mais primaveris só chegam em meados de dezembro e em março já começa a refrescar. Nos clubes, piscinas descobertas só funcionam de dezembro a fevereiro. Em março, fechou e acabou — e chegou o…

Outono portenho

Foto: auntmasako, Pixabay.com

O outono é minha estação preferida nesta cidade. O ar fresco, as milhares de árvores alaranjando, avermelhando e perdendo suas folhas, que formam um tapete colorido e “crocante” nas calçadas, o sol claro, quase branco, brilhando num céu límpido, os entardeceres impressionistas, é tudo bonito demais no outono.

A temperatura costuma despencar sem aviso. Quando você vai ver, não são nem seis horas da tarde e está de noite — já é quase inverno. Isso explica a falta de jardins e quintais nas casas e prédios. Vale mais a pena se resguardar do frio durante 9 meses e meio do que ocupar metade do terreno com espaços que só podem ser aproveitados em alguns poucos momentos do ano — até porque no verãozão mesmo ninguém aguenta ficar debaixo de sol!

É que a amplitude térmica de Buenos Aires realmente não é para os fracos. E se a gente se vira para curtir a vida lá fora até no inverno gelado, a primavera quando chega traz uma explosão de vida. O calor forte demora a vir, mas a partir do momento em que dá para estar na rua sem camadas e camadas de roupa, luvas e cachecóis, as pessoas florescem nos parques. Tanto que o dia 21 de setembro é feriado nas escolas: é o Dia da Primavera, e todo mundo aproveita para botar a carinha ao sol, mesmo que ainda precise sair de manga comprida.

É primavera!

Canga no chão, pessoal batendo um futebolzinho, grupos de amigos, crianças aos montes, velhinhos passeando, pessoas de maiô tomando sol no meio da cidade. Sacudir o frio e aproveitar o verde renovado e a beleza-mor da primavera portenha: os jacarandás-mimosos furiosamente floridos! Se o tapete do outono é crocante e em um degradê de vermelhos, o da primavera é macio e todo lilás!

Foto: lacontenta, para Pixabay.com

E quando chega o verão mesmo, as temperaturas são inclementes — dias, semanas com mais de 40 graus e uma umidade sufocante. Dizem que o verão portenho é pior do que em qualquer cidade brasileira.

Mas até eu, que todos os anos fujo para o Brasil até o final de janeiro, reconheço que a estação também tem seu lado bom. Os dias se alongam até quase nove da noite e de vez em quando sopra um ventinho gostoso ao anoitecer. Tudo parece mais lento e relaxado, como se todo mundo estivesse de férias, deixando a cidade deliciosamente vazia.

Até começar tudo de novo.

E já que falamos um pouquinho sobre cada estação do ano, deixo aqui a trilha sonora portenha por excelência: Las cuatro estaciones porteñas, do genial Astor Piazzolla.

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